Séries e filmes com Meteorologia

As condições atmosféricas costumam ser usadas como pano de fundo e metáfora em várias obras de arte, visando transmitir sentimentos em pinturas, músicas (veja mais no post Meteorologia e música) e filmes. No entanto, algumas histórias de séries e filmes optaram por escolher algum fenômeno meteorológico como centro do enredo.

Cena do filme No olho do Tornado. Fonte: Divulgação

De modo geral, o fenômeno acaba servindo de motivação inicial (geralmente em forma de catástrofe) para trabalhar dramas humanos (família em crise, por exemplo) através da inserção de um elemento perigoso que tira os personagens de uma situação estável. Veja alguns exemplos mais famosos (em ordem cronológica de lançamento) e as respectivas discussões da ciência por trás do fenômeno atmosférico “estrelado”.

Dust Devil (1992)

Também conhecido como “O Colecionador de Almas”, o filme é do gênero de terror que se passa nos desertos da África do Sul e Namíbia. O protagonista é Hitch, um misterioso solitário que caminha pelo deserto a procura de perdidos e suicidas. Ele é procurado pela polícia por ser suspeito da morte de uma mulher, na qual seu sangue foi usado num estranho ritual. Um Shaman consultado pela polícia e uma patologista investigam a morte acreditando que Hitch é um Dust Devil, um espírito maligno que pode mudar de corpo e assumir a forma que quiser.

“Dust devil” é o nome em inglês pelo qual é conhecido o redemoinho no Brasil. Esse fenômeno é formado por ventos em espiral formados pela rápida convecção (convergência de ar em baixos níveis e sua ascensão) em dias quentes e sem ventos – veja mais no post Gênios, sacis e redemoinhos.

No filme, o demônio só é visto em relances ou na tempestade de areia. O “demônio da areia”, dá cabo de pessoas angustiadas que pensam em suicídio. Este é o exato perfil de Wendy, garota que acaba de largar o marido violento e trafega sem rumo pelas estradas poeirentas enquanto é perseguida pelo amante. O diretor (Richard Stanley) afirma ter criado uma narrativa em formato de espiral, como um verdadeiro “dust devil”, em que as tramas paralelas torcem e contorcem até se chocarem em um final vibrante, que se desenrola em cenário genuinamente apocalíptico.

Feitiço do Tempo (1993)

Um repórter de televisão que apresenta previsões de tempo vai a uma pequena cidade fazer uma matéria especial sobre o celebrado “Dia da marmota” (“Groundhog Day”, que é o nome original do filme). Pretendendo ir embora o mais rapidamente possível, ele inexplicavelmente fica preso no tempo, condenado a vivenciar repetidamente os eventos daquele dia preso em um ciclo.

Apesar do foco da história estar no tempo cronológico e como usá-lo para se tornar uma pessoa melhor, a motivação inicial foi uma questão de tempo meteorológico. O Dia da Marmota é uma festa tradicional nos Estados Unidos e no Canadá, que se celebra no dia 2 de Fevereiro. Segundo a tradição, as pessoas devem observar uma toca de uma marmota: se o animal sair da toca por estar nublado, isso significa que o inverno terminará mais cedo; se, pelo contrário, o sol estiver a brilhar e o animal se assustar com a sua sombra e voltar para a toca, então o inverno durará mais seis semanas. Veja mais sobre o Dia da Marmota clicando no link.

Twister (1996)

Dois grupos de pesquisadores/caçadores de tornado “rivais” pretendem lançar centenas de sensores a serem sugados para dentro de um tornado e assim aprimorar sistemas de alerta. Até que aparece um tornado em Oklahoma com quase 1,5 km de largura e ventos de aproximadamente 450 km/h que colocará à prova a habilidade do grupo de chegar o mais próximo possível do evento, liberar os sensores e voltar em segurança.

Seus efeitos especiais chamaram atenção na época do lançamento, como a antológica cena da vaca voando. No entanto, o roteiro exibe tantos problemas que foi indicado como Pior Roteiro na sarcástica cerimônia de entrega do prêmio Framboesa de Ouro em 1997. Em uma cena, o carro passa por dentro de uma casa voando dentro do tornado mas com os móveis todos bem arrumados; em outra, um carro é arrancado do cinema drive-in enquanto os outros permanecem “colados” ao chão; e ainda existem vários objetos, como postes, que são arrancados em uma cena e reaparecem após o corte de câmera.

Em uma das equipes está uma jovem obcecada por tal ideia, pois em 1969 ela viu o pai ser sugado por uma tempestade, e atualmente ela planeja concretizar o seu sonho ou morrer ao tentar. O restante dos personagens é tratado de forma menos profunda ou mesmo bem confusa, quase sem função na trama. A história acaba se tornando um mero pretexto para as cenas de ação.

A região central dos EUA possui condições propícias para sua formação. Em 1975, no Mississipi, o vento de um tornado transportou uma geladeira por quase dois quilômetros. Comparando-se o filme com a vida real, é quase impossível um automóvel andar tão perto da ventania ou se aproximar tanto de um turbilhão sem se machucar. Os caçadores de tormenta do filme também conseguem ver até sete tornados em um só dia, o que é extremamente raro.

Os tornados são colunas de ar em altíssima rotação, originadas de nuvens de tempestade e que algumas vezes entram em contato com o chão. A velocidade dos ventos associados aos tornados são de no mínimo 177 km/h e eles possuem um diâmetro de aproximadamente 100 metros. Apesar de estarem associados a ventos fortes e desastres, os tornados são fenômenos bem diferentes de furacões – veja mais no post Furacão versus Tornado.

O instrumento que serve para estudar o mecanismo de formação dos tornados é batizado de Dorothy, em homenagem à protagonista da história de “O Mágico de Oz”. Nela, Dorothy viaja do Kansas para o mundo de Oz a bordo de um tornado. Nas pesquisas reais sobre tornados, é comum o uso de radares do tipo Doppler, que fazem o sensoriamento remoto da tempestade com grande nível de detalhe.

Mar em Fúria (2000)

Após sucessivos prejuízos, o capitão de uma embarcação pesqueira precisa aumentar seus lucros zarpando para uma nova empreitada em alto-mar. Na rota traçada, uma das maiores tempestades da história se forma no oceano.

Baseado em fatos reais, este filme revive outubro de 1991, quando uma tempestade de proporções gigantescas formou-se no litoral do Atlântico Norte. Seis anos após a tempestade, foi feito um livro pelo escritor Sebastian Jungle, “The Perfect Storm” que relata a história do barco Andrea Gail, que desapareceu no mar após ser atingido pela tempestade, com a morte de seis tripulantes.

A tempestade do Halloween de 1991, também conhecida como a tempestade perfeita, foi um “nor’easter” que absorveu o Furacão Grace e acabou evoluindo para um pequeno furacão anônimo atrasado em seu ciclo de vida. Um “nor’easter” é formado pelo rápido aprofundamento de uma área de baixa pressão ciclônica extratropical no oeste do Oceano Atlântico Norte. Geralmente acompanhado por chuva muito forte ou neve, pode causar graves inundações costeiras, erosão costeira, ventos com força de furacão ou condições de nevasca.

O Dia Depois de Amanhã (2004)

O climatologista Jack Hall e o britânico Terry Rapson tentam alertar chefes de Estado sobre uma catástrofe ambiental iminente, mas nem sempre são ouvidos. Acontecimentos incomuns tomam conta do mundo e colocam em pânico a população. A nova Era do Gelo foi provocada pelo aquecimento global. É que com o derretimento das calotas polares as correntes marítimas se desorganizam e mudam bruscamente os padrões climáticos. E o professor ainda tem um drama pessoal: o filho está preso em Manhattan com colegas de escola.

O enredo gira em torno do aquecimento do globo e das alterações abruptas nos padrões climáticos, com furacões, tsunamis e outros fenômenos em um curto espaço de tempo (dias ou mesmo horas). No mundo real (ondem valem as leis da Física), essas mudanças levariam séculos para acontecer.

Também existem outros erros conceituais. Quando o ar frio desce, ele aquece por compressão adiabática, e não conseguiria chegar congelante em superfície próxima ao nível do mar a não ser que estivesse em temperaturas proibitivamente negativas em altos níveis. E para que ondas de centenas de metros invadissem Nova York, seria preciso ventos de mais de mil quilômetros por hora.

O Japão é atingido por uma tempestade que faz cair do céu pedras de gelo do tamanho de laranjas, e neva na Índia, onde uma conferência trata do meio ambiente. Quanto às pedras de granizo, elas podem ganhar tamanhos até maiores enquanto são jogadas para cima e para baixo em uma nuvem de tempestade, mas conforme descem, derretem por atrito e pelo contato em uma atmosfera mais aquecida, com somente poucas e eventuais pedras chegando com semelhante tamanho. Já para ter neve, é preciso que as nuvens estejam úmidas e que tanto a temperatura da atmosfera como a temperatura do solo estejam baixas (em torno de zero grau ou menos).

O Sol de Cada Manhã (2005)

David Spritz trabalha como apresentador da previsão do tempo em uma TV de Chicago, tendo um relativo sucesso – apesar de atirarem coisas nele rotineiramente ao passar na rua. Ele tem a grande chance de sua vida quando a produtora de um programa nacional o convida para um teste. Porém, apesar do bom momento pelo qual passa no trabalho, seu lado pessoal não poderia ser pior. David acaba de sair de um divórcio e ficou com a guarda dos filhos, problemas que precisa superar se deseja aproveitar a chance profissional que tem. Mais uma recauchutagem da fórmula de Nicholas Cage: um homem sombrio examinando sua vida. E de meteorologia mesmo só o cargo dele, que faz um jogo com o título original, “The Rainmaker”.

Uma Verdade Inconveniente (2006)

Documentário que analisa a questão do aquecimento global, a partir da perspectiva do ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore. Ele apresenta uma série de dados para comprovar a correlação entre o comportamento humano e a emissão de gases na atmosfera. Analogias, gráficos e histórias tornam tudo bem didático sem ser maçante.

Com o advento da Revolução Industrial tais efeitos aumentaram de forma assustadora, a escala progressiva está de maneira aceleradíssima, mesmo que tenhamos vários estudos provando que o mundo passa de maneira cíclica por tais eventos, nunca se constatou tais mudanças em níveis tão altos. Veja mais no post Efeito estufa, aquecimento global e mudanças climáticas.

Silent Hill (2006)

O filme é baseado nos jogos Silent Hill. Inclusive, a questão do nevoeiro surgiu como uma forma de limitar a renderização do jogo para depois de um limite curto de visão do personagem – por ser em primeira pessoa, o jogador não consegue enxergar muito longe, aumentando o suspense e diminuindo a necessidade de processamento.

A filha de Rose é atormentada por visões desde pequena. Desesperada com a piora da menina, Rose decide levá-la à cidade que sempre menciona durante os pesadelos. A cidade foi abandonada em 1974, quando um acidente matou praticamente todos os habitantes. Próximas ao local, elas sofrem um acidente e a criança desaparece misteriosamente. Durante as buscas, descobre um mundo subterrâneo demoníaco e cheio de situações horripilantes. Para recuperar Sharon, a mãe terá de satisfazer os desejos de vingança do fantasma de sua filha e lutar contra seres sobrenaturais.

A névoa vista no lugarejo é toda feita de cinzas, provocadas pelo fogo das minas de carvão da cidade que ainda queimam. A cidade de Centralia (Pensilvânia, EUA) inspirou a história da cidade. Em 1962, os bombeiros atearam fogo em um monte de lixo na periferia da cidade, mas o fogo não se extinguiu completamente, seguindo queimando no subsolo e alcançando através de um buraco uma mina vizinha abandonada de carvão. Depois de muitas tentativas para apagar o fogo, o governo propôs um plano voluntário de desalojamento e compra de todo o povoado, derrubando construções abandonadas e deixando o lugar praticamente desabitado.

Tecnicamente, a única diferença entre nevoeiro e névoa é a visibilidade: dentro de um nevoeiro, a visibilidade é menor que 1 km, enquanto que na névoa é o contrário. Geralmente, a névoa é formada de partículas sólidas suspensas na atmosfera, que em grande número acabam por bloquear a visão em uma distância maior. Sem enxergar direito, surge a apreensão do que pode (ou não) existir de perigoso, e que só é revelado quando está perto demais.

O Nevoeiro (2007/filme e 2017/série)

Depois que uma tempestade causa danos em sua casa no Maine, David Drayton e seu jovem filho vão à cidade para conseguir alimentos e suprimentos. Uma espessa neblina atinge a cidade, deixando várias pessoas presas em um mercado. Alguém entra apavorado no mercado, indicando que aquele nevoeiro traz algo perigoso dentro de si. Criaturas mortais aterrorizam a cidade, mas dentro do mercado um fanático exige que alguém se sacrifique.

A história mostra personagens céticos ao extremo e religiosos demais, levantando discussões sobre fé, drogas, relações humanas e a ação das forças armadas, que parecem saber muito sem revelar nada.

ALERTA DE SPOILER Um soldado presente no grupo acaba revelando uma operação ultra-secreta do Exército Norte-Americano, a Operação Arrowhead (Operação Seta na Cabeça), que procurava estudar a veracidade da Teoria dos Muitos Mundos. Os pesquisadores e militares envolvidos descobrem um portal interdimensional na região, para um mundo dominado pela neblina e criaturas em questão. Acidentalmente, o portal abriu-se mais que o pretendido, fazendo com que os seres e nevoeiro presentes transitassem para a nossa dimensão. FIM DO ALERTA DE SPOILER

O nevoeiro é uma nuvem que se formou junto do solo, gerando uma redução de visibilidade para menos de 1 km. Isso dificulta a compreensão do estado atual do meio em que se encontram as pessoas e e cria um tom de mistério. Enfrentar um inimigo com um dos sentidos com funcionalidade reduzida acaba por aumentar a angústia da trama e tornar as ações mais perigosas. Ver um animal perigoso somente de perto torna a fuga muito mais difícil.

O conto homônimo de Stephen King serviu de base para produção do filme e, 10 anos depois, de uma série. Uma das diferenças é que na série foi possível aprofundar mais os dramas pessoais dos personagens (o que não é necessariamente uma vantagem em si) e os lugares e ordem dos fatos mudou um pouco – em vez do mercado, a trama se divide entre um shopping e uma igreja, por exemplo.

No Olho do Tornado (2014)

No espaço de apenas algumas horas, uma cidade é devastada por um ataque sem precedentes de tornados. Caçadores de tempestades preveem que o pior ainda está por vir. Note que é praticamente uma releitura do filme Twister (1996), agora incluindo a trama comovente sobre um pai que trabalha demais e não tem tempo para a família, mas agora deve resgatar os filhos em meio a tragédia, e dois amigos que, por diversão e falta do que fazer, chegam a passos de distância dos tornados para fazer selfies sem serem sugados.

O roteiro gira em torno de uma cidade que é atingida por quatro tornados em apenas 12 horas. Não é completamente impossível que este fenômeno aconteça tantas vezes em um curto espaço de tempo, mas é bem improvável. Já existiram vários surtos de tornados em grande escala, como o ocorrido em Oklahoma e Kansas, em 1999, que vitimou 76 pessoas. Mas, nesses casos, os tornados encontram-se espalhados por uma vasta área.

Sobre tornados de fogo: quando algo no solo está pegando fogo, o calor das chamas sobe rapidamente e podem assumir grandes proporções. Já sobre tornados gêmeos, as chances disso acontecer são muito pequenas mas já existem alguns casos documentados.

Tempestade: Planeta em Fúria (2017)

A ocorrência cada vez mais frequente de eventos climáticos capazes de ameaçar a existência da humanidade faz com que seja criada uma extensa rede de satélites, ao redor de todo o planeta, de forma a controlar o próprio clima. Apelidado de “Dutch Boy”, este sistema construído a partir da cooperação de 17 países é coordenado pelo engenheiro Jake Lawson. Após anos de dedicação, ele é afastado da função devido a questões políticas e, em seu lugar, é nomeado seu irmão caçula, Max.

Três anos depois, quando a coordenação do “Dutch Boy” está prestes a ser transferida dos Estados Unidos para a ONU, falhas pontuais provocam uma forte nevasca em pleno deserto no Afeganistão e altíssimas temperaturas em Hong Kong, que matam centenas de pessoas. Jake é então convocado para descobrir o que está acontecendo e, enviado para a estação internacional, desvenda uma imensa conspiração ao mesmo tempo em que precisa deixar para trás os atritos existentes com Max.

Com muitos efeitos especiais e momentos dedicados à ação (incluindo um grande desastre no Rio de Janeiro), o filme mostra algo novo ao explorar as questões políticas que envolvem uma construção tão ambiciosa. Quanto à questão de controlar a atmosfera e o clima globais, isso exigiria uma quantidade enorme de energia e técnicas ainda não implementadas em grande escala.

O ser humano já consegue controlar o clima em ambientes como prédios em questão de minutos e influenciar o clima de um bairro ou cidade graças a sua mudança de cobertura do solo e lançamento de substâncias na atmosfera em questão de anos. Somando esses efeitos, em um período de décadas, a humanidade está conseguindo mudar o clima de diversas regiões do planeta.

The Rain (2018)

Uma tempestade começa e as pessoas atingidas pela água da chuva morrem rápida e dolorosamente, atacando as vias respiratórias. Seis anos após um vírus exterminar quase toda a população da Escandinávia, dois irmãos e um grupo de jovens sobreviventes partem em busca de segurança – e de respostas.

Pensando em doenças transmissíveis e chuva, o mais comum é a transmissão acontecer por causa da água acumular em uma superfície contaminada e facilitar a proliferação dos microrganismos. Por exemplo, a água da enchente de uma região com lixo pode contaminar pessoas com doenças como leptospirose, hepatite A, febre tifoide, viroses e micoses. A água acumulada pode servir de criadouro de larvas de mosquitos que transmitem doenças, como febre amarela e dengue.

Para fazer a transmissão de uma infecção (biológica ou química) através da chuva, seria necessário uma quantidade enorme do agente para ser diluído na água da chuva e atingir muitas pessoas no chão. Um temporal forte com 90 mm de precipitação significa que despeja, em média, 90 litros de água por metro quadrado. Extrapolando para uma área da cidade de São Paulo, isso resultaria em 138 bilhões de litros de água, o suficiente para encher mais de 55 mil piscinas olímpicas.