Skorlun, o gnomo druida

Uma tempestade pode congregar algumas das maiores forças da natureza. Foi durante uma dessas que nasceu o gnomo Skorlun, o que de certa forma faria seu destino estar entrelaçado aos fenômenos da atmosfera e aos conhecimentos druidas.

O nascimento

Era uma noite tão escura que somente os relâmpagos traziam luz para o caminho dos pais de Skorlun, cuja mãe ainda o carregava no ventre. Apesar do vento muito forte e em cisalhamento, eles seguiam a pé de volta para casa cruzando a densa floresta. Embora os gnomos saibam exatamente como estará o tempo com bastante antecedência, eles ainda andam na chuva, granizo, neblina, calor e frio.

Carvalho. Foto: Nick Polizzi (Red Oak)
Carvalho. Foto: Nick Polizzi (Red Oak)

Ao passarem próximos de um grande carvalho, um raio acerta seu galho mais alto, que é derrubado no chão com bastante força. O casal de gnomos imediatamente cai para trás. A mãe começa a sentir as dores do parto. O pai tenta ajudar, enquanto grandes gotas de granizo congelado começam a cair. Poucos segundos depois, uma chuva torrencial despenca como uma coluna de água do céu. Suas roupas ficam ensopadas, mas isso nem é percebido diante daquele clima de grande comoção.

O caminho que seguiam era junto de um riacho, cujo volume de água cresce assustadoramente em poucos segundos. Na tentativa de subir com a mulher para um ponto onde possa deixá-la mais segura, acaba por descuidar-se e sendo levado pela forte correnteza. Com o marido arrancado pela violência das águas, a mãe se vê sozinha para enfrentar um parto difícil após uma gestação de 12 meses.

Esse lugar relativamente isolado era próximo ao lar de um druida ermitão. A situação extrema o traz para envolver-se e ajudar. Após torturantes minutos que pareciam horas, o gnomo finalmente nasce. A mãe desmaia, em um sono tão profundo do qual não há mais volta.

O velho druida

Os gnomos surgiram como elementais da terra, ou seja, espíritos capazes de se mover através da terra sólida com a mesma facilidade com que os humanos se movem no ar. Por isso, eram invocados por magos e alquimistas para controlar os elementos. Com o passar dos tempos, os gnomos formaram uma raça de seres muito engenhosos e protetores do equilíbrio da natureza.

Devido a essa ligação com a natureza, em especial após seu nascimento, o druida ermitão acolhe o pequeno gnomo. Antes mesmo de suas primeiras palavras, ele é estimulado a se integrar com a natureza. Em sua infância, começa a receber os primeiros ensinamentos druídicos.

Apesar da pouca idade, ele apresenta serenidade e clareza na realização de seus estudos. Logo apresenta vocação para juntar pedaços de paus, pedras e cordas para criar brinquedos. Por causa dessas qualidades, o gnomo recebe o nome de Skorlun, que significa “sábio engenhoqueiro”.

Já em sua juventude, começa a se integrar com indivíduos de uma comunidade não tão distante de lá. O druida é respeitado por todos, mas também temido. Assim, o garoto conquista poucas mas boas amizades. Saindo para explorar com um amigo, visitam uma caverna com um estreito por onde eventualmente ocorrem rajadas de vento. Em uma dessas rajadas, Skorlun perde o equilíbrio e cai em um buraco.

Monolito de obsidiana. Foto: Astrohanasia (Black Monolith)
Monolito de obsidiana. Arte: Astrohanasia (Black Monolith)

No local da queda, encontra um rasgo na pedra com uma abertura que curiosamente recebe iluminação do exterior por uma estreita e longa rachadura. Nele, havia sido colocada uma rocha obsidiana com tamanho por volta de 10 centímetros em sua maior dimensão, em formato de prisma retangular e finamente lapidado, o que revela uma intervenção de alguma raça.

O gnomo é resgatado somente algumas horas depois. Ao levar o objeto para casa, percebe que suas medidas seguem a proporção de 1:4:9. Apesar de curiosa, a pedra é guardada com algumas bugigangas, que incluem apetrechos para viagens, e por lá fica durante um alguns anos.

Um determinado dia, ambos seguem para um dos raros cultos druídicos, onde todos se reúnem para comungar e trocar conhecimento. O local de encontro é uma clareira entre árvores, com o chão coberto por pequenas pedras e gramíneas. Monolitos de rochas graníticas com uns 3 metros de altura e esculpidos em formato de prismas retangulares estão dispostos em um círculo.

Templo druidico (Leighton, Masham, North Yorkshire). Foto: Wikipedia
Templo druidico (Leighton, Masham, North Yorkshire). Foto: Wikipedia

Durante um evento de comunhão com a natureza conduzido por um velho druida, Skorlun mexe com a obsidiana displicentemente com uma das mãos. Depois de jogar a pedra algumas vezes para cima, uma lufada de ar acaba desviando sua trajetória para o chão. O som de uma pedra batendo em outra acaba ecoando no local, atraindo a atenção de todos.

O velho druida pede para observar a obsidiana de perto. Ao tocá-la, seu rosto exibe uma feição cujas rugas no rosto revelavam que há muito tempo não era apresentada. Ele segue para o centro do círculo, ergue a pequena pedra negra e prismática e faz a seguinte revelação:

“Esse pequeno monolito que nosso irmão trouxe vem de um povo muito avançado, cuja comunicação é feita sem som ou visão. Sabe-se que os humanos tiveram contato com um deles em tempos imemoriais e que lhes trouxe grande evolução. Parte desse conhecimento foi transmitido oralmente, de geração em geração, formando parte da cultura druídica. Esse monolito representa a ligação entre nós e um conhecimento tão distante no tempo para nós que só conhecemos sua invocação e seus efeitos, mas sem entender como ou porque acontece. É o que chamamos de magia.”

Virando-se para Skorlun, o velho druida ainda avisa:

“Meu jovem, quis a natureza, através do elemento ar, lhe entregar essa pedra. Esse é um sinal de que ela está em você, além de você estar nela. Por alguma razão por nós desconhecida, você e a atmosfera estão profundamente conectados. Considere esse pequeno monolito negro como a conexão entre você e o mundo da magia.”

Ao retornarem, Skorlun faz um cajado para alojar o monolito em sua ponta, firmemente preso. A madeira usada é a do mesmo carvalho que foi atingido por um raio na noite de seu nascimento. Assim, seu novo cajado tornou-se seu foco druídico: o objeto usado na conjuração de magias. Com o tempo, o gnomo até acabou ganhando o apelido de Monolito.

O professor

Skorlun estatura mediana para um gnomo, com pouco mais de 1 metro de altura e peso de 20 kg. Aos seus 100 anos de idade, mesmo tendo vivido apenas um quarto da expectativa de vida da sua raça, já possui cabelos brancos e desgranhados até a altura dos ombros, cobrindo um pouco usas orelhas levemente pontudas. A pupila de seus olhos pode se abrir a ponto de deixar praticamente o olho todo negro – herança de seus ancestrais, que vivam somente debaixo da terra. Por isso mesmo, sua pele é branca e já conta com rugas de expressão, depois de muitos anos de fartos sorrisos.

Os gnomos são conhecidos por viverem intensamente suas vidas, que podem passar dos 400 anos. São altamente amigáveis e estão sempre de bom humor. Alguns são adeptos de travessuras, mas não é o caso da comunidade à qual Skorlun pertence, onde são muito dedicados às tarefas que lhes competem. Muitos deles são amantes das artes, engenheiros, alquimistas, engenhoqueiros e inventores habilidosos.

Com todas essas características, essas comunidades gnomônicas evoluíram bastante em tecnologia com o passar do tempo. Nesse caso, o governo é formado por um comitê bem tecnocrata mas com bastante rotatividade. A educação e a pesquisa sempre foram atividades fortes entre os gnomos, e nesse filão que Skorlun começou a ganhar a vida. Já aos 100 anos de idade, os cabelos brancos, o conhecimento e a experiência fazem sua fama na região. Moradores da comunidade e até viajantes o procuram para consertar carroças, ferramentas e outras coisas, o que lhe rende um dinheiro muito bem vindo.

Casa com roda d'água. Foto: Richard Elzey (Georgia)
Casa com roda d’água. Foto: Richard Elzey (Georgia)

O terreno em que mora é um local mais alto com relação ao entorno. Assim, o riacho que passa na propriedade está próximo de sua nascente. Usando de sua inteligência e habilidade, segue construindo engenhocas cada vez mais elaboradas. Montou uma roda d’água com moinho e engrenagens ligadas à ela. Também criou mecanismos para automatizar tarefas e gerar mais força física para realizar ações que demandem grande esforço. Ganhando tempo na produção de alimento e nas tarefas domésticas, consegue ter mais tempo livre para os estudos.

Skorlun também é requisitado na comunidade por suas habilidades em curar ferimentos, detectar venenos, purificar alimentos e até no trato com animais. Tudo usando magia druida. Realmente, o caminho para o poder e o auto aperfeiçoamento é através do conhecimento.

O ataque

Durante um belo pôr do sol, Skorlun observa mais um final de dia tranquilo em sua casa. Um gnomo enxerga na penumbra a até dezoito metros como se fosse luz plena – apesar de não distinguir bem as cores – e quando está escuro, enxerga como se fosse penumbra. Essa característica foi herdada de seus ancestrais, que passavam praticamente o tempo todo embaixo da terra. Suas pupilas conseguem abrir tanto a ponto de deixar praticamente todo o olho negro.

Ele percebe um movimento estranho em algumas árvores na parte baixa do terreno. A movimentação aproxima-se rapidamente, e farfalhar das folhas começa a ficar cada vez mais alto. Essa movimentação de ar não é natural e ele logo pressente o perigo.

Para que ele possa observar a situação sem que seja visto, Skorlun entoa palavras mágicas em conjunto com a movimentação das mãos segurando em seu cajado. No mesmo instante, uma névoa densa é criada em um raio de seis metros ao redor de si.

Apesar de considerar a violência como o último refúgio do incompetente, por vezes ela é inevitável. Principalmente se o agressor não compartilha da mesma ideia. Assim, bruxos invasores conseguem entrar em sua casa e vasculhar tudo violentamente. Também usando magia, conseguem iluminar pontos específicos até encontrarem um livro grosso e de capa surrada. De posse do livro, irrompem pela porta e pela janela.

Livro com coleção de textos ancestrais. Foto: Willi Heidelbach (Ancient Book - 1883)
Livro com coleção de textos ancestrais. Foto: Willi Heidelbach (Ancient Book – 1883)

Esse livro é uma coleção de textos ancestrais. Estão escritos em primordial, o idioma falado pelos elementais escrito em alfabeto anão – nesse caso, igual ao idioma gnomônico. Ainda não tinha sido completamente traduzidos por Skorlun, mas sabe que ele contém terríveis segredos que não podem cair em mãos erradas.

Um desses segredos permite o controle do tempo em uma região através da criação de uma forte tempestade, com relâmpagos, trovões, chuva ácida, granizo, ventania, nevasca, frio ártico ou calor insuportável. Em outro, é possível usar a energia de eventos luminosos transientes, que se formam acima das nuvens de tempestade, para proporcionar viagens para tempos futuros. Parecem ser revelações feitas há muito tempo para nós, por criaturas que entendem o passado e o futuro como nós consideramos diferentes pontos no espaço.

Apesar de toda a comoção, Skorlun consegue distinguir alguns rostos e ouvir alguns nomes dos bruxos invasores. Um deles era a bruxa Mombi, do norte. E para lá que ele deve seguir em sua aventura para recuperar o livro e impedir que grandes desgraças aconteçam.

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