Efeito estufa, aquecimento global e mudanças climáticas

Três expressões em Meteorologia que muitas pessoas confundem: efeito estufa, aquecimento global e mudanças climáticas. Quais as diferenças entre eles?

Efeito Estufa

Sem atmosfera, provavelmente não haveria vida na Terra. Usamos o seu oxigênio ar para respirar, as plantas usando seu gás carbônico para fazer a fotossínteses e gerar seu alimento, ela nos protege do excesso de raios solares (como o ultravioleta e outras radiações e partículas nocivas), etc.

Efeito estufa dentro de um carro. Ilustração: William Raphael Silva

Outra ação muito importante da atmosfera é o efeito estufa. Imagine um carro, com todos os vidros fechados e debaixo do Sol. A energia vindo do Sol entra, aquece o interior do veículo mas não consegue passar pelo vidro e lataria para o exterior, mantendo o calor dentro. Com a atmosfera acontece algo parecido: ela segura o calor para o planeta, o que é chamado de feito estufa, em analogia às estufas de plantas. Os gases que mais contribuem para o efeito estufa são o vapor d’água (principalmente, pois pode compor até 4% da atmosfera), o gás carbônico e o gás metano.

O efeito estufa é extremamente importante para a noite, quando não há mais o aquecimento do Sol. Em noites secas e sem nuvens, o calor não tem aquela camada de água (em estado gasoso e líquido, nas nuvens) para manter o calor próximo à superfície e temos noites muito frias. Outro exemplo: Mercúrio praticamente não tem atmosfera. Durante o dia, a temperatura lá é de 430°C em média, mas durante a noite cai para aproximadamente -180°C! Já na Terra, a variação de temperatura é muito menor, pois o ar é um mal condutor de calor e segura a temperatura. E mais: se não fosse o efeito estufa, a temperatura média da Terra não seria 15°C, e sim -18°C!

Aquecimento global

Pela definição de efeito estufa, é possível notar sua importância para a vida na Terra, assim como do gás carbônico. No entanto, o que milhares de pesquisas constataram é que esse efeito estufa está ficando cada vez mais intenso, causando um aumento médio na temperatura de todo o mundo. Popularmente, isso é chamado de aquecimento global.

A concentração de gases que causam o efeito estufa, como o gás carbônico, metano e dióxido nitroso. tiveram um aumento exponencial desde o início da era industrial, mesmo em locais remotos de atividade humana. Ao fazer um balanço radiativo completo de toda a energia que entra e que sai no planeta Terra, existe um saldo positivo, o que ajuda a explicar o aumento de temperatura.

Ao longo dos bilhões de anos de história do nosso planeta, a Terra já passou por formações de oceanos e continentes, eras glaciais, períodos mais quentes, etc. As condições médias do planeta variaram por questões naturais, como ciclos solares, poeira levantada pela colisão de asteroides e erupções vulcânicas, que cobriram a energia solar de chegar à superfície, dentre outras. Mas de acordo com testemunhos geológicos das mais variadas fontes, nunca houve uma explosão tão grande da concentração desses gases no planeta, e isso gera diversos impactos em diferentes escalas no mundo todo.

Mudanças climáticas

O clima é a condição média da atmosfera em uma determinada região. Por exemplo: na Amazônia é quente e úmido, mas nada impede de um dia ou outro fazer tempo seco e/ou frio – ou mesmo variando dentro de um mesmo dia. Nesse caso, tempos uma mudança de TEMPO, não de clima, já que a condição média dentro de um período de décadas continua sendo o mesmo. Por ser uma mudança que demora décadas, é difícil observar seus efeitos em curto prazo.

Devido ao aquecimento global, o clima de diversos lugares muda. Por ser um aumento MÉDIO da temperatura, algumas regiões podem ter redução de temperatura, muitas vezes por causa do aumento de nuvens e chuva. Outras, o aumento de temperatura pode causar alteração no regime de ventos e mais tempo seco.

O gelo sobre o continente antártico está descongelando em uma taxa maior que a de sua reposição durante o inverno. Essa água vai para o oceano, mudando seu nível médio ao longo dos anos. No pólo norte, o derretimento altera a temperatura e a salinidade do oceano, mudando correntes marítimas e o transporte de calor em outras regiões. E dessa forma, uma mudança leva a outra, afetando todo o globo.

Certas culturas de plantas podem não ser mais adequadas para a região onde estão. Algumas regiões com ecossistemas frágeis podem sofrer alterações, levando a extinção de algumas espécies. Aletrando o equilíbrio ecológico, outras espécies mais resistentes irão dominar, tornando-se pragas.

A lista de alterações que a humanidade já está enfrentando (e vai continuar) é extensa. Para lidar com novos cenários, precisamos estar conscientes dos fatos científicos que abordam essas questões, apoiar políticas públicas que planejem o futuro daqui décadas e próximas gerações, passar o conhecimento adiante e fazer nossa parte – “agir localmente, pensar globalmente”.

Para ver uma discussão mais extensa sobre o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e seus relatórios (assinados por milhares de cientistas de todo o mundo com um número maior ainda de pesquisas e dados obtidos), sugiro os posts da tag IPCC do blog Meteorópole e os vídeos do canal do Pirula, que também discute os argumentos contrários à influência humana sobre o clima mundial.

Mutabilidade do tempo

Tanto se fala em mudanças climáticas mas também é importante falar sobre as mudanças de tempo, ou seja, que acontecem de um dia para o outro (ou até mesmo dentro do próprio dia). Na verdade, esse é um dos assuntos mais recorrentes no cotidiano das pessoas. Quem nunca puxou uma conversa com “Parece que vai chover hoje”? Inclusive, a palavra “tempo” vem do latim “tempus”, que por sua vez deriva do grego “témno” e significa “cortar em pedaços” (ou seja, uma coleção de instantes passageiros, temporários). Tempo é o estado da atmosfera em um certo instante.

O site Forecast Advisor tem um índice chamado “Weather changeability” para quantificar essa “mutabilidade do tempo” com relação a três variáveis: altas temperaturas, baixas temperaturas e precipitação.

Com relação às temperaturas, ele define a variação diária média da temperatura em um ponto – quanto maior a diferença entre as temperaturas máxima e mínima, maior a classificação, e vice-versa. Ele também usa o mesmo critério mas comparando a temperatura máxima de um dia e a mínima do seguinte para ver a maior queda registrada e o inverso para a maior alta observada. O site apresenta cálculos para cidades dos EUA, sendo interessante notar que as cidades do Havaí e próximas ao litoral possuem menor variabilidade de temperatura se comparadas às do meio do continente, devido à inércia térmica imposta pela presença do oceano.

A respeito da precipitação, o índice é baseado na porcentagem de dias que mudam de seco para chuvoso e vice-versa. Quanto mais chove (ou neva) em um dia, e no dia seguinte não (ou o contrário), maior a classificação. Ou seja, as áreas de deserto onde quase sempre estão secas ou áreas úmidas onde quase sempre chove, são classificadas com posição mais baixa no ranking. Também é definida outra estatística que reflete a porcentagem de dias que estão secas após um dia chuvoso (e vice-versa).

Longe de ser apenas uma curiosidade de almanaque, isso permite mapear regiões em que o tempo é mais estável ou instável e suas consequências na sociedade. Por exemplo: variações grandes de temperatura possuem uma grande correlação com o aparecimento de doenças respiratórias e a multiplicação de insetos transmissores de doenças. Ao ver uma previsão de tempo que apresenta uma mudança brusca no tempo em uma região muito estável, deve-se prestar bastante atenção.