Manipulação do clima

A engenharia climática (ou geoengenharia) é um nome que vem sendo usado para a intervenção deliberada e em grande escala no sistema climático da Terra. Parece coisa de ficção científica, mas é um tópico muito abordado ao falar de mitigação de efeitos do aquecimento global. No entanto, essas medidas vão gerar outras consequências além das esperadas. Um plano anunciado pela China para semear nuvens em mais de metade do território, fora do âmbito de mudanças climáticas, já levanta muitas discussões sobre a manipulação do tempo e do clima em grandes extensões.

Opções de engenharia climática. Fonte: Matzer (2016)
Opções de engenharia climática. Fonte: Matzer (2016)

Desflorestamento, urbanização e outras mudanças de uso no solo promovem a alteração do clima (condições médias da atmosfera) localmente e com impactos para todo o planeta. A emissão de certos gases nas atividades promovidas pelo ser humano atuam no balanço de energia da Terra, promovendo aquecimento global, acidificação de oceanos, problemas respiratórios e cardíacos, dentre outros problemas em diferentes escalas de tempo e espaço.

Com o objetivo de mitigar algumas dessas mudanças com o menor impacto possível no sistema econômico capitalista em que a maioria da humanidade vive, em vez de reduzir o consumo, essa linha de atuação tem estudado meios de manipular o clima através da utilização de tecnologias avançadas.

Ações propostas

Devido ao funcionamento dos mecanismos naturais relacionados (veja mais no post Efeito estufa, Aquecimento global e Mudanças climáticas), costuma-se dividir as áreas de atuação em criar condições para que a Terra absorva menos luz solar (geoengenharia solar) e diminuir a quantidade de gás carbônico (geoengenharia do carbono). Veja uma lista com algumas técnicas estudas:

  • Inserção de aerossóis (pequenas partículas em suspensão na atmosfera) na estratosfera, como enxofre/sulfato, capazes de refletir a luz solar antes dela atingir a superfície terrestre;
  • Introdução de vapor de água e partículas de aerossóis (atuando como núcleos de condensação de nuvens) em algumas regiões para aumentar a formação e cobertura de nuvens, refletindo mais luz solar para o espaço;
  • Inserir diversos refletores de luz solar na órbita terrestre para bloquear a passagem de uma pequena proporção da luz solar incidente;
  • Navios borrifarem água marinha no ar para aumentar a concentração de sal (e portanto de núcleos de condensação) nas nuvens, gerando nuvens com gotículas menores e por isso maiores e mais brancas, aumentado a reflexão de luz para o espaço;
  • Acréscimo de nutrientes (como o ferro) no oceano para estimular o crescimento de fitoplânctons (algas microscópicas) capazes de absorver o gás carbônico da atmosfera;
  • Reflorestamento de grandes áreas que tiveram sua vegetação desmatada e até mesmo florestar regiões que não possuem vegetação visando absorção de carbono;
  • Construção de grandes máquinas capazes de capturar o gás carbônico da atmosfera e estocá-los no interior da Terra ou dos oceanos.

Apesar das boas intenções dos projetos de geoengenharia climática, a maioria nunca foi testada e suas consequências são incertas. Por exemplo, inserir gás carbônico nos oceanos acelera sua acidificação em um cenário de aquecimento global. Isso promove a desestabilização do ecossistema marinho, com consequências drásticas para a sociedade e economia pesqueiras.

Consequências

Para especialistas, tais ações podem ter efeitos colaterais e não atacam origens do problema. Veja esse cenário simulado apontando problemas decorrentes dessas ações, em texto da DW:

“O ano é 2050, a temperatura média global subiu mais do que o limite de 2 graus Celsius, e o planeta está sendo ameaçado pela seca, elevação dos mares e chuvas intensas.

Protestos surgiram na América do Sul por causa de empresas que estão comprando grandes quantidades de terra para a implementação de uma técnica de remoção de dióxido de carbono (CDR) que usa culturas bioenergéticas. A técnica é amplamente defendida pela União Europeia, cujos países-membros não conseguiram cumprir suas metas de redução de emissões por causa do uso de carvão.

A tensão entre os Estados Unidos e a China está crescendo por causa do plano dos chineses para combater a seca e a quebra nas colheitas por meio da vaporização de largas quantidades de aerossóis de sulfato na estratosfera. Eles refletem a luz solar para o espaço e reduzem as temperaturas globais. A opinião pública dos EUA teme os impactos dessa forma de gestão de radiação solar (SRM) no clima global. Já uma coalizão de países liderada pela China acredita que ela vai impedir os piores efeitos do aquecimento do planeta.”

Segundo a maioria dos cenários previstos em diferentes modelos, seria necessário remover vários bilhões de toneladas de gás carbônico da atmosfera todos os anos para impedir um aquecimento global catastrófico. Alcançar isso apenas usando captura e armazenamento de carbono com espécies vegetais iria requer monoculturas numa escala sem precedentes – algumas simulações sugerem uma área equivalente a 1,5 vez o território da Índia. Isso vai criar conflitos sobre o local para servir a esse tipo de ação, além das implicações devastadoras para a biodiversidade e a produção de alimentos.

O lançamento de sulfato na atmosfera terá consequências que até agora são desconhecidas, devido à complexidade de simulação desses cenários. Os melhores modelos mostram que a redução da radiação solar levaria a uma diminuição nas chuvas e na disponibilidade de água nos trópicos, por exemplo. Outro ponto: quais nações podem controlar o clima na Terra? Se um determinado país passar por um período de seca por causa disso, ele poderia adotar ações legais contra?

Semeadura de nuvens em grande escala pela China

Dia 9 de fevereiro de 2021, micro-gotas emitidas pelas torres de resfriamento da usina nuclear nas proximidades de Cattenom (França) congelaram a ponto de induzir a “cinarra”: uma espécie de precipitação invernal que ocorre quando existe um nevoeiro muito denso e as temperaturas são negativas. A nevasca foi de intensidade considerável, com espessuras que chegaram a 20 ou 30 centímetros nos locais mais próximos da usina, atingindo um raio de cerca de 10 quilômetros.

Isso mostra como um elemento introduzido pelo ser humano pode alterar a meteorologia localmente. Esse é o exemplo de uma semeadura de nuvens causada de maneira não intencional. No entanto, o governo chinês já vem usando programas desse tipo há anos e, em dezembro de 2020, anunciou sua meta de expandir seu programa de chuva e neve artificial para cobrir 5,5 milhões de quilômetros quadrados até 2025, o que dá 60% de seu território (quase o tamanho da Amazônia Legal).

Quando acontece uma reunião política importante ou um evento de relevância internacional, Pequim, uma das cidades mais poluídas do mundo, fica com o céu fica limpo devido às chuvas promovidas por essas ações. Com isso, o governo pretende também que “a área protegida por operações de prevenção de granizo chegue a mais de 580 mil km²” e que haja uma “prevenção abrangente de riscos de segurança” relacionado à produção de chuva em áreas agrícolas, assim como evitando enchentes, deslizamentos, apagando incêndios e gestão de secas ou ondas de calor.

Em Gansu, a China lançou seu programa de modificação do clima baseado em drones capazes de causar chuvas, com o voo inaugural do Ganlin-1 (“chuva doce”). Outras regiões do mundo também fazem uso, mas não nessa escala. Um dos temores de que essa tecnologia seja aplicada massivamente na China é de que ela tenha um impacto nas monções de verão na Índia, que também são fundamentais para toda a região. Isso porque um dos impulsionadores das monções é a diferença de temperatura entre o planalto tibetano e o Oceano Índico.

Pesquisadores da Universidade Nacional de Taiwan afirmaram, em artigo publicado em 2017, que a falta de coordenação nas atividades de manipulação do clima pode levar a acusações de “roubo de chuva” entre países vizinhos. Quando as ações tomadas unilateralmente por um país gera problemas em outros e algo acaba dando errado, quem paga a conta?

A geoengenharia pode até parecer uma saída fácil para remediar os problemas causados pela humanidade no planeta, mas ela está mais para uma “geogambiarra” com consequências catastróficas. Veja mais na série de vídeos do canal “O que você faria se soubesse o que eu sei?”:

Atualização: Em julho de 2021, autoridades do serviço de meteorologia dos Emirados Árabes Unidos divulgaram um vídeo mostrando uma chuva torrencial em Ras al Khaimah, a cerca de 115 km de Dubai. De acordo com eles, era um exemplo das chuvas artificiais geradas com ajuda de um grupo de drones, fruto do trabalho de um grupo de pesquisadores ingleses. O processo de chuva foi estimulado por quatro drones de quase 2 metros de envergadura cada um. Eles foram catapultados para o céu com carga suficiente para 40 minutos de voo. Durante o voo, os drones medem a temperatura, níveis de umidade e carga elétrica dentro das nuvens. Com esses dados, os cientistas no solo decidem qual delas precisa de um “empurrãozinho”. Fonte: UOL – Com calor de 50°C, Dubai gasta US$ 1,5 milhão em drones que fazem chover.

Fontes

Compartilhe :)

One comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.