Bruxas e Meteorologia

Eventos climáticos possuem uma incerteza intrínseca, devido à propagação das incertezas nas medidas, aproximações e ao fato da atmosfera se comportar de maneira caótica em em alguns níveis. Desse modo, isso evoca todo tipo de reações emocionais, coletivas e individuais.

“A compreensão usual de que a gestão das ansiedades coletivas é responsabilidade de líderes políticos e religiosos transforma a previsão climática em ação eminentemente política. Por essa razão, o clima é objetivo de preocupação para políticos e líderes em todas as escalas; é também terreno fértil para rituais de culpabilização.” (TADDEI, 2017)

Queimar bruxas é uma característica da civilização ocidental que, com exceções políticas ocasionais, tem declinado desde o século XVI. Os fenômenos cuja causa era parcialmente (ou totalmente) desconhecida serviam de fato para julgar e condenar pessoas – e dentre os fenômenos, estavam os meteorológicos. Na última execução judicial de feiticeiras na Inglaterra, uma mulher e sua filha de nove anos foram enforcadas. O seu crime era terem provocado uma tempestade quando despiram as meias.

“Microbiologia e Meteorologia agora explica o que apenas alguns séculos atrás era considerado causa suficiente para queimar mulheres até a morte.” (SAGAN, 1997)

Um interessante estudo de Oster (2004) apontam para evidências de que o número de vítimas de acusações de bruxaria na Europa renascentista é positivamente correlacionado com os impactos negativos de variações climáticas em comunidades locais (figura abaixo). Ou seja, quando ocorrem quedas de temperatura média, o número de acusações de bruxaria aumentava.

Número de vítimas de acusações de bruxaria normalizada (em preto) e temperatura normalizada (em vermelho) para as mesmas regiões em função dos anos. Fonte: Oster (2004)

Provavelmente a ocorrência de períodos ainda mais frios na Europa causavam problemas em diversos setores da economia e sociedade. Desconhecendo as causas, os grupos mais desfavorecidos e minorias serviriam como bode expiatório – por ingenuidade ou de modo proposital. As acusações também poderiam ser um instrumento para que indivíduos das classes dominantes exercessem o poder sobre certas pessoas e grupos sócio-econômicos.

Em algumas regiões da Tanzânia contemporânea, o número de assassinatos ligados a acusações de bruxaria tende a dobrar em anos de chuvas extremamente intensas (MIGUEL, 2005). Davis (2001) sugere que uma das causas da Guerra dos Boxers na China era a crença de que a presença de missionários ocidentais no país desequilibrou o feng shui da terra, ocasionando consequentemente secas catastróficas.

Existem muitos outros exemplos de politização dos eventos climáticos e seus efeitos. Pode-se afirmar que a mais antiga e enraizada teoria meteorológica na história humana é aquela que diz que “não choveu (ou choveu demais) como consequência das ações (ou pecados) de pessoas específicas (própria comunidade, traidores, bruxos, inimigos, etc)”. (TADDEI, 2017)

Também é possível identificar a mesma teoria em situações que um grupo de pessoas desconhece as causas de um fato (mesmo que essas causas já sejam conhecidas publicamente) ou cujas causas sejam complexas demais para se explicar em poucas palavras. Desse ponto, assume-se que o fato seja mais simplesmente atribuído a algum grupo político antagônico ao próprio grupo. O que parece facilitar uma situação, acaba por criar inverdades e atrapalhar a evolução de todos os grupos envolvidos.

Fontes

  • DAVIS, M. Late Victorian Holocaustus: El Niño Famines and the Making of the Third Wolrd. Nova York: Verso, 2001.
  • MIGUEL, E. “Poverty and Witch Killing”. Review of Economic Studies, 2005, n. 72, pp. 1153-72.
  • OSTER, Emily. Witchcraft, Weather and Economic Growth in Renaissance Europe. 2004. Disponível em https://www.brown.edu/Departments/Economics/Faculty/Matthew_Turner/ec1340/readings/Oster_JEP_2004.pdf (acessado em 07/05/2019)
  • SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
  • TADDEI, Renzo. Meteorologistas e profetas da chuva: conhecimentos, práticas e políticas da atmosfera. São Paulo: Terceiro Nome, 2017. (pg. 63-64)