IPCC

O problema do aquecimento global foi previsto teoricamente desde o século XIX, mas somente a partir dos anos 1970 o tema já estava sendo estudado em larga escala. Os conceitos efeito estufa, aquecimento global e mudanças climáticas são explicados nesse post, sendo consenso científico. Nesse post, o foco é sobre como compilar todo o conhecimento que a humanidade produz sobre esse assunto em um só lugar, o IPCC.

Balanço energético médio global nas condições climáticas atuais - os números indicam as magnitudes dos fluxos de energia individuais em W/m², dentro de suas faixas de incerteza. Fonte: IPCC, Figura 2.11
Balanço energético médio global nas condições climáticas atuais – os números indicam as magnitudes dos fluxos de energia individuais em W/m², dentro de suas faixas de incerteza. Fonte: IPCC, Figura 2.11

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, mais conhecido pela sigla IPCC (do inglês Intergovernmental Panel on Climate Change), é uma organização científico-política criada em 1988 no âmbito das Nações Unidas (ONU) pela iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM). A qualidade e seriedade do seu trabalho lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007.

O objetivo principal do IPCC é o de sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre as mudanças climáticas, especialmente o aquecimento global, apontando suas causas, efeitos e riscos para a humanidade e o meio ambiente, assim como sugerindo maneiras de combater os problemas. Note que ele não produz pesquisa original, mas reúne e resume o conhecimento produzido por milhares de cientistas de alto nível independentes e ligados a organizações e governos.

Atualmente, o IPCC ele é constituído por:

  • Grupo de Trabalho I: avalia os aspectos científicos do sistema climático e de mudança do clima
  • Grupo de Trabalho II: avalia a vulnerabilidade dos sistemas socioeconômicos e naturais diante da mudança climática, seus efeitos negativos, assim como as possibilidades de adaptação a elas na perspectiva da sustentabilidade
  • Grupo de Trabalho III: avalia as opções que permitiriam limitar ou evitar as emissões de gases estufa e as que poderiam remover os gases da atmosfera, levando em conta os principais sistemas econômicos a curto e a longo prazo, ou seja, estratégias de resposta (mitigação e adaptação)
  • Força-Tarefa: compila os inventários nacionais sobre emissão de gases estufa, desenvolvendo e aperfeiçoando métodos para o cálculo e descrição da emissões de cada país
  • Unidade de Apoio Técnico: coordena a atividade dos Grupos de Trabalho e presta auxílio na preparação dos relatórios de cada Grupo

O IPCC emitiu seu primeiro relatório em 1990, empregando um método complexo com várias etapas e que vem sendo aprimorado e revisado. Basicamente, o processo para sua confecção começa com uma reunião para definir cronogramas e orçamentos, além de formar uma comissão para organizar os Grupos de Trabalho. Cada grupo analisa a bibliografia disponível sobre cada tema de sua área, sintetizando os resultados que tenham bom embasamento e revisados por pares. O esboço é enviado para revisores, voltando para confeccionar e revisar um segundo esboço. Após as revisões e esboços, é elaborada a versão definitiva de cada Capítulo e do Sumário.

Alguns pontos do 5º Relatório

O Quinto Relatório, publicado entre 2013 e 2014, foi elaborado por 830 autores principais, com a colaboração de mais de mil autores assistentes. No processo de revisões, mais mil especialistas foram convocados, que forneceram cerca de 140 mil comentários e revisões ao texto. Dentre algumas de suas conclusões, estão:

  • O mundo aqueceu em média 0,85 °C entre 1880 e 2012, sendo que as três últimas décadas foram as mais quentes desde 1850;
  • A principal causa do aquecimento presente é, com elevadíssimo grau de certeza, a emissão de gases estufa pelas atividades humanas, com destaque para a emissão de gás carbônico;
  • Os oceanos têm acumulado a maior parte do aquecimento, aumentando seu nível em cerca de 19 cm entre 1901 e 2010 devido à expansão térmica das águas e se acidificando devido à continuada absorção de gás carbônico;
  • A manifestação do fenômeno sobre o mundo, bem como dos seus efeitos, não é uniforme, e o Ártico é onde o aquecimento se faz sentir com maior intensidade;
  • O regime de chuvas, as correntes marinhas e o padrão dos ventos estão sendo perturbados, aumentando a tendência de secas e enchentes;
  • Mesmo que as emissões cessassem imediatamente, haveria um aquecimento adicional pela lentidão de algumas reações e pelos efeitos cumulativos;
  • Se as emissões continuarem dentro das tendências atuais, o aquecimento vai aumentar, podendo chegar a 4,8 °C até 2100, os efeitos negativos se multiplicarão e perturbarão todos os componentes do sistema climático, com graves repercussões sobre o bem estar da humanidade e de todas as outras formas de vida.

Grupo de Trabalho 1

O documento Fifth Assessment Report (AR5), The Physical Science Basis, Workgroup 1 é composto de 14 capítulos, 6 anexos e outros documentos. Cada capítulo é direcionado para uma área: atmosfera, oceano, criosfera, paleoclima, ciclos bioquímicos, nuvens e aerossóis, forçante antropogênica, modelos climáticos, etc. Todos os capítulos começam com um sumário executivo, que resume seus principais tópicos.

O capítulo 1 conta com uma introdução, comparando os avanços feitos nos últimos relatórios, indicadores de mudanças climáticas (temperatura, concentração de gases de efeito estufa, eventos extremos e indicadores climáticos, como nível do mar, acidificação dos oceanos e gelo), tratamento de incertezas e avanços na modelagem.

Indicadores independentes de um clima global em mudança - todos os conjuntos de dados foram normalizados para um período comum de registro. Fonte: IPCC, FAQ 2.1, Figura 2
Indicadores independentes de um clima global em mudança – todos os conjuntos de dados foram normalizados para um período comum de registro. Fonte: IPCC, FAQ 2.1, Figura 2

O capítulo 2 aborda alterações na composição atmosférica, no balanço radiativo, no ciclo hidrológico, em eventos extremos e na circulação atmosférica. Cada item termina com um resumo da tendência observada para a variável em questão, assim como o grau de confiança nessa informação. Por exemplo, “é provável (likely) que tenha havido um declínio abrupto na precipitação do hemisfério sul em latitudes médias no início de 2000, consistente com a secagem intensificada que se recuperou muito recentemente”.

Nesse capítulo, comenta-se que é improvável que quaisquer efeitos de ilhas de calor urbanas não corrigidos e efeitos de mudança de uso no solo tenham aumentado as tendências de temperatura do ar próximo da superfície terrestre da média global centenária estimadas em mais de 10% da tendência relatada (alta confiança, com base em evidências robustas e alta concordância). Este é um valor médio; em algumas regiões com rápido desenvolvimento, os impactos das mudanças de efeitos de ilha de calor e de mudança no uso do solo nas tendências regionais podem ser substancialmente maiores.

Sobre as nuvens, as observações baseadas na superfície mostram variações específicas da região e da altura e tendências de nebulosidade, mas permanece uma ambiguidade substancial em relação às variações e tendências de nuvem em escala global. Ainda mais as observações de satélite. Embora as tendências de cobertura de nuvens sejam consistentes entre conjuntos de dados independentes em certas regiões, uma ambiguidade substancial e, portanto, baixa confiança, permanece nas observações da variabilidade e tendências da nuvem em escala global.

Grupo de Trabalho 2

O documento Fifth Assessment Report (AR5), Impacts, Adaptation and Vulnerability, Workgroup 2 contém partes A e B, 5 anexos e outros documentos. A parte A abrange aspectos globais e setorizados, tratando de: Recursos e sistemas naturais e gerenciados; Assentamentos humanos, indústria e infraestrutura; Saúde, bem-estar e segurança humana; Adaptação; Impactos, riscos, vulnerabilidades e oportunidades multissetoriais. Na parte B, os mesmos temas são tratados em capítulos para cada região: África, Europa, Ásia, Australasia, América do Norte, Américas Central e do Sul, regiões polares, pequenas ilhas e oceano.

O capítulo 14 trata das “Necessidades e opções de adaptação”. Desde o Quarto Relatório de Avaliação (AR4), o enquadramento da adaptação mudou ainda mais de um foco na vulnerabilidade biofísica para os impulsionadores sociais e econômicos mais amplos da vulnerabilidade e da capacidade das pessoas de responder.

As necessidades de adaptação referem-se às circunstâncias que requerem informações, recursos e ações para garantir a segurança das populações e dos ativos em resposta aos impactos climáticos. As opções de adaptação são o conjunto de estratégias e medidas disponíveis e apropriadas para atender às necessidades. Essas opções tecnológica e de engenharia ainda são as respostas adaptativas mais comuns, embora haja uma experiência crescente do valor das medidas baseadas no ecossistema (institucionais e sociais), incluindo o fornecimento de redes de segurança ligadas ao clima para aqueles que são mais vulneráveis.

A adaptação envolve a redução de risco e vulnerabilidade; busca de oportunidades; e desenvolvimento da capacidade de nações, regiões, cidades, setor privado, comunidades, indivíduos e sistemas naturais para lidar com os impactos do clima, bem como mobilizar essa capacidade por meio da implementação de decisões e ações. Vulnerabilidade é a propensão ou predisposição de um sistema para ser adversamente afetado.

As avaliações de adaptação demonstraram que levaram a uma consciência geral entre os tomadores de decisão e as partes interessadas sobre os riscos climáticos e as necessidades e opções de adaptação. No entanto, essa consciência frequentemente não se traduz em ação de adaptação.

Também existe a má adaptação, que surge não apenas de ações de adaptação mal planejadas inadvertidamente, mas também de decisões deliberadas onde considerações mais amplas colocam maior ênfase em resultados de curto prazo ante os de longo prazo, ou que descontam, ou deixam de considerar, toda a gama de interações decorrentes das ações planejadas.

Resumo das mudanças observadas no clima e outros fatores ambientais em regiões representativas da América Central e do Sul. Fonte: IPCC, Figura 27.7
Resumo das mudanças observadas no clima e outros fatores ambientais em regiões representativas da América Central e do Sul. Fonte: IPCC, Figura 27.7

O capítulo 27 aborda os tópicos nas Américas Central e do Sul: maiores alterações recentes e projeções; impactos, vulnerabilidades e adaptações (água, sistemas costeiros, áreas baixas, produção/segurança alimentar, assentamentos humanos, indústrias, infraestrutura, energia renovável e saúde); oportunidades, restrições e limites de adaptação; interações entre adaptação e mitigação.

Observaram-se tendências crescentes na precipitação anual no sudeste da América do Sul no período 1950-2008 e aquecimento (desde os anos 1970) no sudeste da América do Sul (alta confiança). Aumentos nos extremos de temperatura foram identificados na maior parte da América do Sul tropical e subtropical (confiança média), enquanto chuvas extremas mais frequentes têm favorecido a ocorrência de deslizamentos de terra e enchentes (confiança média).

As mudanças nas chuvas variam geograficamente até 2100 na América do Sul, mais notadamente mostrando uma redução de –22% no nordeste do Brasil e um aumento de +25% no sudeste do continente (baixa confiança). Por volta de 2100, as projeções mostram um aumento nos períodos de seca na América do Sul tropical a leste dos Andes, e dias e noites quentes na maior parte do continente (média confiança).

O aumento do escoamento na bacia do rio La Plata na segunda metade do século 20 foram associados a mudanças na precipitação (alta confiança). O risco de escassez de abastecimento de água aumentará devido às reduções de precipitação e aumentos de evapotranspiração nas regiões semi-áridas (alta confiança), afetando assim o abastecimento de água para as cidades (alta confiança), geração de energia hidrelétrica (alta confiança)e agricultura.

As práticas atuais para reduzir o descompasso entre a oferta e a demanda de água podem ser usadas para reduzir a vulnerabilidade futura (confiança média). As reformas constitucionais e legais em andamento para uma gestão e coordenação mais eficientes e eficazes dos recursos hídricos constituem outra estratégia de adaptação (confiança média).

A mudança no uso da terra, contribui significativamente para a degradação ambiental, exacerbando os impactos negativos das mudanças climáticas (alta confiança). O desmatamento e a degradação da terra são atribuídos principalmente ao aumento da agricultura extensiva e intensiva, afetando ecossistemas frágeis, como as margens da floresta amazônica e o Cerrado. A conversão de ecossistemas naturais é a principal causa da biodiversidade e da perda de ecossistemas na região, e é um impulsionador das mudanças climáticas antropogênicas (alta confiança). Espera-se que as mudanças climáticas aumentem as taxas de extinção de espécies (confiança média).

Com muita confiança, as alterações relacionadas ao clima estão associadas a doenças respiratórias e cardiovasculares, doenças transmitidas por vetores e água (malária, dengue, febre amarela, leishmaniose, cólera e outras doenças diarreicas), hantavírus e rotavírus, doenças renais crônicas, e trauma psicológico. A poluição do ar está associada a resultados relacionados à gravidez e diabetes, entre outros. As vulnerabilidades variam com a geografia, idade, sexo, raça, etnia e status socioeconômico e estão aumentando nas grandes cidades (confiança muito alta).

Fontes

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