Nevoeiro de Stephen King

No conto “O Nevoeiro” (1985), de Stephen King, uma pequena cidade do Maine é subitamente envolvida por um nevoeiro denso e sobrenatural que surge após um misterioso acidente militar. Presos dentro de um supermercado, os moradores descobrem que o nevoeiro esconde criaturas monstruosas vindas de outra dimensão, tornando qualquer tentativa de sair quase suicida. À medida que o medo cresce, a tensão entre os sobreviventes se intensifica: alguns tentam manter a racionalidade e buscar soluções, enquanto outros se entregam ao fanatismo religioso e ao desespero. A história mostra não apenas a luta contra os monstros externos, mas também contra os monstros internos – o pânico, a desconfiança e a fragilidade das relações humanas diante do desconhecido.

Cena do filme "The Misy" (2007) - adaptação do conto para o cinema
Cena do filme “The Misy” (2007) – adaptação do conto para o cinema

Como surge o nevoeiro?

No conto, há a sugestão de que cientistas militares abriram uma brecha para outra dimensão. Os monstros que vieram daí são variados — desde insetos gigantes até seres colossais — e não pertencem ao ecossistema terrestre. Eles são apresentados como habitantes de uma dimensão paralela, às vezes associada ao “Todash Darkness”, onde a escuridão é o elemento dominante (um conceito que aparece em outros livros de King, como “A Torre Negra”).

O nevoeiro é um efeito da abertura dimensional causada pelo experimento militar. O autor não explica cientificamente como o nevoeiro se forma. Mas podemos especular algumas teorias físicas plausíveis, que podem ocorrer em conjunto, para imaginar como esse fenômeno poderia surgir:

  • Resfriamento súbito do ar por transferência de energia: A abertura dimensional poderia liberar radiação ou partículas que absorvem calor local. Isso resfriaria rapidamente o ar até o ponto de orvalho, condensando o vapor d’água já presente.
  • Injeção de partículas higroscópicas: A fenda poderia liberar aerossois (micropartículas) vindos da outra dimensão. Essas partículas funcionariam como núcleos de condensação, facilitando a formação de gotículas de água.
  • Alteração da pressão atmosférica local: A abertura poderia causar uma queda brusca de pressão (como uma explosão inversa). Com menor pressão, o ar se expande e esfria adiabaticamente. Esse resfriamento súbito levaria à condensação do vapor d’água, formando o nevoeiro.
  • Radiação ionizante e nucleação induzida: Partículas energéticas vindas da outra dimensão poderiam ionizar moléculas do ar. Íons funcionam como centros de nucleação, acelerando a formação de gotículas.
  • Mistura de atmosferas entre dimensões: Se a outra dimensão tivesse uma atmosfera diferente (mais fria, saturada ou rica em gases pesados), ao se misturar com a nossa criaria condições supersaturadas. O resultado seria um nevoeiro espesso, como se duas massas de ar incompatíveis colidissem.

Apesar do nevoeiro estar associado à formação do portal transdimensional, isso abre ideia para pensar em um planeta com um nevoeiro permanente, onde os animais teriam se adaptado a viver nesse ambiente.

Um planeta-nevoeiro

Um nevoeiro é essencialmente uma nuvem stratus com base junto ao solo, composta por gotículas minúsculas de água que reduzem a visibilidade para menos de 1 km. Para se formar e persistir, precisa de ar próximo da saturação e um mecanismo que mantenha a condensação junto à superfície sem dissipar rapidamente as gotículas. Veja algumas situações que satisfazem essas condições:

  • Umidade quase saturada: Umidade relativa ≥ 90–100% de forma persistente, mantendo o ar no ponto de orvalho próximo ao solo.
  • Superfície fornecendo resfriamento contínuo: Solo/água frios criando inversão térmica rasa, de modo que o ar úmido seja resfriado por baixo e condense.
  • Mistura fraca, advecção suave: Ventos fracos a moderados (1-3 m/s, o suficiente para repor umidade, mas não para dispersar), e baixa turbulência que evite evaporar as gotículas.
  • Fonte constante de umidade: Oceanos rasos, lagos extensos, ou evapotranspiração eficiente, com balanço hídrico fechando em saturação quase contínua.
  • Aerossois para nucleação: Núcleos de condensação suficientes para formar gotículas pequenas e numerosas (típicas de nevoeiro).
  • Radiação e energia: Baixo fluxo de radiação solar líquida na superfície (céu frequentemente nublado, alto albedo, ou distância/ângulo solar desfavorável), limitando o aquecimento diurno que evaporaria o nevoeiro.

No nevoeiro, gotículas de raio em torno de 5–15 µm são comuns; quanto menores, mais lentamente sedimentam. A gravidade mais baixa reduz a sedimentação e aumenta o tempo de residência das gotículas, facilitando um nevoeiro praticamente contínuo, desde que a saturação e o resfriamento persistam. Para gotículas de raio \(r = 10\ \mu\mathrm{m}\), densidade da água \(\rho_p \approx 1000\ \mathrm{kg/m^3}\), ar \(\rho \approx 1.2\ \mathrm{kg/m^3}\), viscosidade do ar \(\mu \approx 1.8 \times 10^{-5}\ \mathrm{Pa \cdot s}\):

\(v \approx \frac{2}{9}\frac{r^2(\rho_p – \rho)g}{\mu} \approx 0.00123\ g\)

  • Com \(g_{\oplus} \approx 9.81\ \mathrm{m/s^2}\), \(v \approx 0{,}012\ \mathrm{m/s}\) (≈1,2 cm/s), as gotículas caem 100 m em ~2,3 h.
  • Com \(g = 0{,}3\ \mathrm{m/s^2}\), \(v \approx 0{,}00037\ \mathrm{m/s}\) (≈0,37 mm/s), caem 100 m em ~75 h, permitindo manutenção do nevoeiro com reposição mínima.

Quanto menor o planeta, menor sua gravidade. Se a gravidade for muito baixa, as moléculas de gás escapam facilmente para o espaço. A velocidade de escape é a velocidade mínima que uma molécula precisa para sair da atração gravitacional do planeta. O planeta precisa de velocidade de escape pelo menos 6 vezes maior que a velocidade térmica média das moléculas que deseja reter. Isso significa que planetas com raio menor que ~1.000 km dificilmente conseguem manter atmosfera densa, a menos que sejam muito frios e ricos em gases pesados como CO₂.

Assim, qual seria o tamanho desse planeta? Acompanhe os cálculos e as condições consideradas.

Critério de retenção e velocidade térmica

  • Velocidade rms das moléculas: \(v_{\mathrm{rms}}=\sqrt{\frac{3k_B T}{m}}\)
  • Critério de retenção a longo prazo: \(v_e \ge 6\,v_{\mathrm{rms}}\)
  • Velocidade de escape: \(v_e=\sqrt{\frac{2GM}{R}}=\sqrt{\frac{8\pi G \rho}{3}}\,R\)

Parâmetros adotados

  • Molécula alvo: vapor d’água, \(m_{\mathrm{H_2O}}=18\,\mathrm{u}=18\times 1{,}6605\times 10^{-27}\ \mathrm{kg}\approx 2{,}99\times 10^{-26}\ \mathrm{kg}\).
  • Temperatura média: \(T=280\ \mathrm{K}\).
  • Constantes: \(k_B=1{,}380649\times 10^{-23}\ \mathrm{J/K}\), \(G=6{,}674\times 10^{-11}\ \mathrm{m^3/(kg\cdot s^2)}\).
  • Densidade média do planeta (rochosos): \(\rho=3000\ \mathrm{kg/m^3}\).

Cálculo da velocidade térmica e velocidade de escape mínima

  • Velocidade rms do \(\mathrm{H_2O}\): \(v_{\mathrm{rms}}=\sqrt{\frac{3k_B T}{m}}=\sqrt{\frac{3\cdot 1{,}380649\times 10^{-23}\cdot 280}{2{,}99\times 10^{-26}}}\approx 623\ \mathrm{m/s}\)
  • Velocidade de escape mínima: \(v_{e,\min}=6\,v_{\mathrm{rms}}\approx 6\cdot 623\ \mathrm{m/s}\approx 3740\ \mathrm{m/s}\)

Raio, diâmetro e gravidade de um planeta rochoso que atende ao critério

  • Relação entre \(v_e\), \(\rho\) e \(R\): \(v_e=\sqrt{\frac{8\pi G \rho}{3}}\,R\quad\Rightarrow\quad R=\frac{v_e}{\sqrt{\frac{8\pi G \rho}{3}}}\)
  • Raio mínimo para \(v_e\approx 3740\ \mathrm{m/s}\) e \(\rho=3000\ \mathrm{kg/m^3}\): \(R\approx \frac{3740}{\sqrt{\frac{8\pi\cdot 6{,}674\times 10^{-11}\cdot 3000}{3}}}\approx 2{,}89\times 10^{6}\ \mathrm{m}\)
  • Dimensões e gravidade: \(D=2R\approx 5{,}78\times 10^{6}\ \mathrm{m}\quad (\text{diâmetro }\approx 5780\ \mathrm{km})\); \(g=\frac{4\pi G \rho}{3}\,R\approx 2{,}42\ \mathrm{m/s^2}\)

Altura de escala da atmosfera (para ar dominado por \(\mathrm{N_2}\))

A altura de escala da atmosfera (também chamada de scale height) é um conceito da física atmosférica que descreve a distância vertical ao longo da qual a pressão atmosférica diminui por um fator de e (a base dos logaritmos naturais, aproximadamente 2,718). Para Terra, esse valor é de 8,5 km. Temperatura maior implica em altura de escala maior; Moléculas mais pesadas, em altura de escala menor; Gravidade maior, em altura de escala menor.

  • Altura de escala: \(H=\frac{k_B T}{m_{\mathrm{ar}}\,g}\)
  • Com \(m_{\mathrm{ar}}\approx 28\,\mathrm{u}=4{,}65\times 10^{-26}\ \mathrm{kg}\), \(T=280\ \mathrm{K}\), \(g\approx 2{,}42\ \mathrm{m/s^2}\): \(H\approx \frac{1{,}380649\times 10^{-23}\cdot 280}{4{,}65\times 10^{-26}\cdot 2{,}42}\approx 3{,}43\times 10^{4}\ \mathrm{m}\quad (\approx 34\ \mathrm{km})\)

Assim, para reter vapor d’água a \(280\ \mathrm{K}\) por tempos geológicos, um planeta rochoso precisa de \(v_e\approx 3{,}7\ \mathrm{km/s}\), o que corresponde, com \(\rho\approx 3000\ \mathrm{kg/m^3}\), a um raio de cerca de \(2900\ \mathrm{km}\) e gravidade \(\approx 2{,}4\ \mathrm{m/s^2}\). Planetas “muito pequenos” (raios abaixo de ~\(1000\ \mathrm{km}\)) não atingem esse limiar em temperaturas amenas, a menos que sejam extremamente frios ou ricos em gases muito pesados.

Perspectiva artística feita por IA de planeta dominado por nevoeiro
Perspectiva artística feita por IA de planeta dominado por nevoeiro

Por fim, o sistema precisa fechar o balanço: evaporação suficiente para repor o vapor e resfriamento constante para condensar, sem choques térmicos que dissipem o nevoeiro. Em planeta pequeno, magnetosfera fraca pode alterar núcleos de condensação; porém, com cobertura de nuvens/nevoeiro, a superfície recebe menos UV. Mudanças sazonais e orbitais (obliquidade, excentricidade) também podem quebrar a permanência; minimizar essas variabilidades ajuda a manter o nevoeiro contínuo.

Simbolismo do nevoeiro

O nevoeiro em Stephen King funciona como muito mais do que um fenômeno físico: ele é um símbolo do medo do desconhecido e da fragilidade das relações humanas quando a realidade cotidiana se dissolve em incerteza. Ele impede que os personagens vejam além de alguns metros. Isso traduz a ideia de que o futuro é incerto e que qualquer passo pode trazer perigo.

Além disso, o nevoeiro corta a ligação com o mundo exterior, transformando o supermercado em uma espécie de microcosmo social. Ele é o veículo pelo qual o “inexplicável” entra no cotidiano – criaturas de outra dimensão, mas também o medo, a paranoia e a superstição. Dentro do supermercado, King mostra como o medo coletivo reorganiza as relações sociais.

No começo, há uma tentativa de união e racionalidade; as pessoas se ajudam, compartilham informações e recursos. Com o tempo, o medo corrói a confiança. Grupos se formam, cada um com sua visão de como sobreviver. A personagem Mrs. Carmody representa como o medo pode ser instrumentalizado. Ela interpreta o nevoeiro como um castigo divino e atrai seguidores, mostrando como o pânico pode levar ao fanatismo. David Drayton tenta manter a calma e a lógica, mas enfrenta a dificuldade de convencer os outros em meio ao caos.

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