No conto “O Nevoeiro” (1985), de Stephen King, uma pequena cidade do Maine é subitamente envolvida por um nevoeiro denso e sobrenatural que surge após um misterioso acidente militar. Presos dentro de um supermercado, os moradores descobrem que o nevoeiro esconde criaturas monstruosas vindas de outra dimensão, tornando qualquer tentativa de sair quase suicida. À medida que o medo cresce, a tensão entre os sobreviventes se intensifica: alguns tentam manter a racionalidade e buscar soluções, enquanto outros se entregam ao fanatismo religioso e ao desespero. A história mostra não apenas a luta contra os monstros externos, mas também contra os monstros internos – o pânico, a desconfiança e a fragilidade das relações humanas diante do desconhecido.

Como surge o nevoeiro?
No conto, há a sugestão de que cientistas militares abriram uma brecha para outra dimensão. Os monstros que vieram daí são variados — desde insetos gigantes até seres colossais — e não pertencem ao ecossistema terrestre. Eles são apresentados como habitantes de uma dimensão paralela, às vezes associada ao “Todash Darkness”, onde a escuridão é o elemento dominante (um conceito que aparece em outros livros de King, como “A Torre Negra”).
O nevoeiro é um efeito da abertura dimensional causada pelo experimento militar. O autor não explica cientificamente como o nevoeiro se forma. Mas podemos especular algumas teorias físicas plausíveis, que podem ocorrer em conjunto, para imaginar como esse fenômeno poderia surgir:
- Resfriamento súbito do ar por transferência de energia: A abertura dimensional poderia liberar radiação ou partículas que absorvem calor local. Isso resfriaria rapidamente o ar até o ponto de orvalho, condensando o vapor d’água já presente.
- Injeção de partículas higroscópicas: A fenda poderia liberar aerossois (micropartículas) vindos da outra dimensão. Essas partículas funcionariam como núcleos de condensação, facilitando a formação de gotículas de água.
- Alteração da pressão atmosférica local: A abertura poderia causar uma queda brusca de pressão (como uma explosão inversa). Com menor pressão, o ar se expande e esfria adiabaticamente. Esse resfriamento súbito levaria à condensação do vapor d’água, formando o nevoeiro.
- Radiação ionizante e nucleação induzida: Partículas energéticas vindas da outra dimensão poderiam ionizar moléculas do ar. Íons funcionam como centros de nucleação, acelerando a formação de gotículas.
- Mistura de atmosferas entre dimensões: Se a outra dimensão tivesse uma atmosfera diferente (mais fria, saturada ou rica em gases pesados), ao se misturar com a nossa criaria condições supersaturadas. O resultado seria um nevoeiro espesso, como se duas massas de ar incompatíveis colidissem.
Apesar do nevoeiro estar associado à formação do portal transdimensional, isso abre ideia para pensar em um planeta com um nevoeiro permanente, onde os animais teriam se adaptado a viver nesse ambiente.
Um planeta-nevoeiro
Um nevoeiro é essencialmente uma nuvem stratus com base junto ao solo, composta por gotículas minúsculas de água que reduzem a visibilidade para menos de 1 km. Para se formar e persistir, precisa de ar próximo da saturação e um mecanismo que mantenha a condensação junto à superfície sem dissipar rapidamente as gotículas. Veja algumas situações que satisfazem essas condições:
- Umidade quase saturada: Umidade relativa ≥ 90–100% de forma persistente, mantendo o ar no ponto de orvalho próximo ao solo.
- Superfície fornecendo resfriamento contínuo: Solo/água frios criando inversão térmica rasa, de modo que o ar úmido seja resfriado por baixo e condense.
- Mistura fraca, advecção suave: Ventos fracos a moderados (1-3 m/s, o suficiente para repor umidade, mas não para dispersar), e baixa turbulência que evite evaporar as gotículas.
- Fonte constante de umidade: Oceanos rasos, lagos extensos, ou evapotranspiração eficiente, com balanço hídrico fechando em saturação quase contínua.
- Aerossois para nucleação: Núcleos de condensação suficientes para formar gotículas pequenas e numerosas (típicas de nevoeiro).
- Radiação e energia: Baixo fluxo de radiação solar líquida na superfície (céu frequentemente nublado, alto albedo, ou distância/ângulo solar desfavorável), limitando o aquecimento diurno que evaporaria o nevoeiro.
No nevoeiro, gotículas de raio em torno de 5–15 µm são comuns; quanto menores, mais lentamente sedimentam. A gravidade mais baixa reduz a sedimentação e aumenta o tempo de residência das gotículas, facilitando um nevoeiro praticamente contínuo, desde que a saturação e o resfriamento persistam. Para gotículas de raio \(r = 10\ \mu\mathrm{m}\), densidade da água \(\rho_p \approx 1000\ \mathrm{kg/m^3}\), ar \(\rho \approx 1.2\ \mathrm{kg/m^3}\), viscosidade do ar \(\mu \approx 1.8 \times 10^{-5}\ \mathrm{Pa \cdot s}\):
\(v \approx \frac{2}{9}\frac{r^2(\rho_p – \rho)g}{\mu} \approx 0.00123\ g\)
- Com \(g_{\oplus} \approx 9.81\ \mathrm{m/s^2}\), \(v \approx 0{,}012\ \mathrm{m/s}\) (≈1,2 cm/s), as gotículas caem 100 m em ~2,3 h.
- Com \(g = 0{,}3\ \mathrm{m/s^2}\), \(v \approx 0{,}00037\ \mathrm{m/s}\) (≈0,37 mm/s), caem 100 m em ~75 h, permitindo manutenção do nevoeiro com reposição mínima.
Quanto menor o planeta, menor sua gravidade. Se a gravidade for muito baixa, as moléculas de gás escapam facilmente para o espaço. A velocidade de escape é a velocidade mínima que uma molécula precisa para sair da atração gravitacional do planeta. O planeta precisa de velocidade de escape pelo menos 6 vezes maior que a velocidade térmica média das moléculas que deseja reter. Isso significa que planetas com raio menor que ~1.000 km dificilmente conseguem manter atmosfera densa, a menos que sejam muito frios e ricos em gases pesados como CO₂.
Assim, qual seria o tamanho desse planeta? Acompanhe os cálculos e as condições consideradas.
Critério de retenção e velocidade térmica
- Velocidade rms das moléculas: \(v_{\mathrm{rms}}=\sqrt{\frac{3k_B T}{m}}\)
- Critério de retenção a longo prazo: \(v_e \ge 6\,v_{\mathrm{rms}}\)
- Velocidade de escape: \(v_e=\sqrt{\frac{2GM}{R}}=\sqrt{\frac{8\pi G \rho}{3}}\,R\)
Parâmetros adotados
- Molécula alvo: vapor d’água, \(m_{\mathrm{H_2O}}=18\,\mathrm{u}=18\times 1{,}6605\times 10^{-27}\ \mathrm{kg}\approx 2{,}99\times 10^{-26}\ \mathrm{kg}\).
- Temperatura média: \(T=280\ \mathrm{K}\).
- Constantes: \(k_B=1{,}380649\times 10^{-23}\ \mathrm{J/K}\), \(G=6{,}674\times 10^{-11}\ \mathrm{m^3/(kg\cdot s^2)}\).
- Densidade média do planeta (rochosos): \(\rho=3000\ \mathrm{kg/m^3}\).
Cálculo da velocidade térmica e velocidade de escape mínima
- Velocidade rms do \(\mathrm{H_2O}\): \(v_{\mathrm{rms}}=\sqrt{\frac{3k_B T}{m}}=\sqrt{\frac{3\cdot 1{,}380649\times 10^{-23}\cdot 280}{2{,}99\times 10^{-26}}}\approx 623\ \mathrm{m/s}\)
- Velocidade de escape mínima: \(v_{e,\min}=6\,v_{\mathrm{rms}}\approx 6\cdot 623\ \mathrm{m/s}\approx 3740\ \mathrm{m/s}\)
Raio, diâmetro e gravidade de um planeta rochoso que atende ao critério
- Relação entre \(v_e\), \(\rho\) e \(R\): \(v_e=\sqrt{\frac{8\pi G \rho}{3}}\,R\quad\Rightarrow\quad R=\frac{v_e}{\sqrt{\frac{8\pi G \rho}{3}}}\)
- Raio mínimo para \(v_e\approx 3740\ \mathrm{m/s}\) e \(\rho=3000\ \mathrm{kg/m^3}\): \(R\approx \frac{3740}{\sqrt{\frac{8\pi\cdot 6{,}674\times 10^{-11}\cdot 3000}{3}}}\approx 2{,}89\times 10^{6}\ \mathrm{m}\)
- Dimensões e gravidade: \(D=2R\approx 5{,}78\times 10^{6}\ \mathrm{m}\quad (\text{diâmetro }\approx 5780\ \mathrm{km})\); \(g=\frac{4\pi G \rho}{3}\,R\approx 2{,}42\ \mathrm{m/s^2}\)
Altura de escala da atmosfera (para ar dominado por \(\mathrm{N_2}\))
A altura de escala da atmosfera (também chamada de scale height) é um conceito da física atmosférica que descreve a distância vertical ao longo da qual a pressão atmosférica diminui por um fator de e (a base dos logaritmos naturais, aproximadamente 2,718). Para Terra, esse valor é de 8,5 km. Temperatura maior implica em altura de escala maior; Moléculas mais pesadas, em altura de escala menor; Gravidade maior, em altura de escala menor.
- Altura de escala: \(H=\frac{k_B T}{m_{\mathrm{ar}}\,g}\)
- Com \(m_{\mathrm{ar}}\approx 28\,\mathrm{u}=4{,}65\times 10^{-26}\ \mathrm{kg}\), \(T=280\ \mathrm{K}\), \(g\approx 2{,}42\ \mathrm{m/s^2}\): \(H\approx \frac{1{,}380649\times 10^{-23}\cdot 280}{4{,}65\times 10^{-26}\cdot 2{,}42}\approx 3{,}43\times 10^{4}\ \mathrm{m}\quad (\approx 34\ \mathrm{km})\)
Assim, para reter vapor d’água a \(280\ \mathrm{K}\) por tempos geológicos, um planeta rochoso precisa de \(v_e\approx 3{,}7\ \mathrm{km/s}\), o que corresponde, com \(\rho\approx 3000\ \mathrm{kg/m^3}\), a um raio de cerca de \(2900\ \mathrm{km}\) e gravidade \(\approx 2{,}4\ \mathrm{m/s^2}\). Planetas “muito pequenos” (raios abaixo de ~\(1000\ \mathrm{km}\)) não atingem esse limiar em temperaturas amenas, a menos que sejam extremamente frios ou ricos em gases muito pesados.

Por fim, o sistema precisa fechar o balanço: evaporação suficiente para repor o vapor e resfriamento constante para condensar, sem choques térmicos que dissipem o nevoeiro. Em planeta pequeno, magnetosfera fraca pode alterar núcleos de condensação; porém, com cobertura de nuvens/nevoeiro, a superfície recebe menos UV. Mudanças sazonais e orbitais (obliquidade, excentricidade) também podem quebrar a permanência; minimizar essas variabilidades ajuda a manter o nevoeiro contínuo.
Simbolismo do nevoeiro
O nevoeiro em Stephen King funciona como muito mais do que um fenômeno físico: ele é um símbolo do medo do desconhecido e da fragilidade das relações humanas quando a realidade cotidiana se dissolve em incerteza. Ele impede que os personagens vejam além de alguns metros. Isso traduz a ideia de que o futuro é incerto e que qualquer passo pode trazer perigo.
Além disso, o nevoeiro corta a ligação com o mundo exterior, transformando o supermercado em uma espécie de microcosmo social. Ele é o veículo pelo qual o “inexplicável” entra no cotidiano – criaturas de outra dimensão, mas também o medo, a paranoia e a superstição. Dentro do supermercado, King mostra como o medo coletivo reorganiza as relações sociais.
No começo, há uma tentativa de união e racionalidade; as pessoas se ajudam, compartilham informações e recursos. Com o tempo, o medo corrói a confiança. Grupos se formam, cada um com sua visão de como sobreviver. A personagem Mrs. Carmody representa como o medo pode ser instrumentalizado. Ela interpreta o nevoeiro como um castigo divino e atrai seguidores, mostrando como o pânico pode levar ao fanatismo. David Drayton tenta manter a calma e a lógica, mas enfrenta a dificuldade de convencer os outros em meio ao caos.




