Vampiros: origens e fatos

Depois da matéria sobre zumbis, vamos falar sobre os vampiros. Vampiro é um ser mitológico ou folclórico que sobrevive se alimentando da essência vital de criaturas vivas (geralmente sob a forma de sangue), independentemente de ser um morto-vivo ou uma pessoa viva. Sua figura foi popularizada mundialmente através do romance de 1897 de Bram Stoker, intitulado Drácula. O folclore do vampiro surgiu na região dos Bálcãs (Europa Oriental), porém existem relatos em outras culturas e em outras épocas ao redor do mundo.

Esquerda: Cena do filme mudo alemão de 1922 "Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens", realizado por F. W. Murnau e apresentando a primeira representação cinematográfica de Drácula. Direita: O ator Bela Lugosi, estrelando uma das mais célebres adaptações do Conde Drácula para o cinema, o filme Dracula (1931)
Esquerda: Cena do filme mudo alemão de 1922 “Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens“, realizado por F. W. Murnau e apresentando a primeira representação cinematográfica de Drácula. Direita: O ator Bela Lugosi, estrelando uma das mais célebres adaptações do Conde Drácula para o cinema, o filme Dracula (1931)

Acredita-se que o Conde Drácula pode ter sido inspirado no voivode (príncipe) Vlad Tepes, que nasceu em 1431 e governou o território que corresponde à atual Transilvânia, região administrativa da Romênia. Nessa época, a região estava dividida entre cristãos e muçulmanos, e Vlad III ficou conhecido pela perversidade com que tratava seus inimigos. Utilizava inclusive técnicas cruéis como o empalamento (método de tortura e execução que consiste na inserção de uma estaca pelo ânus, vagina, ou umbigo até a morte do torturado). Certa vez, dois súditos se esqueceram de tirar o chapéu para reverenciar sua chegada e, por causa disso, Vlad mandou pregar o chapéu em suas cabeças. Isso tudo com certeza alimentou o imaginário da população, criando crenças ao redor de sua figura.

O pai de Vlad III, Vlad II, era membro de uma sociedade cristã romana chamada Ordem do Dragão, criada por nobres da região para defender o território da invasão dos turcos otomanos. Por isso Vlad II era chamado de Dracul (dragão), e, por consequência, seu filho passou a ser chamado Draculea (filho do dragão) – a terminação “ea” significa filho. A palavra “dracul”, entretanto, possuía um segundo significado (“diabo”) que foi aplicado aos membros da família Draculea por seus inimigos e possivelmente também por camponeses supersticiosos.

A crença que o conde Drácula é morto vivo veio de um fato que em uma de suas muitas batalhas ele levou um forte golpe na cabeça, que o deixou em coma, e depois de um tempo acordou como se nada tivesse acontecido. Com relação a outras pessoas, por vezes o povo suspeitava de vampirismo quando um cadáver não apodrecia com a velocidade que estavam acostumados. Os cadáveres incham à medida que os gases resultantes da decomposição se acumulam no torso, e o aumento de pressão força o sangue a derramar-se pela boca e nariz, trazendo uma aparência de “mais bem alimentado” ao morto. O estacamento de um corpo inchado e em decomposição causaria o sangramento do corpo, e forçaria o escape dos gases acumulados, o qual poderia causar um som semelhante a um gemido. Após a morte a pele e gengivas perdem fluidos e contraem-se, expondo as raízes do cabelo, as unhas, dentes, e mesmo dentes que até então estavam ocultos na mandíbula. Isto pode produzir a ilusão do cabelo, unhas e dentes terem crescido após a morte.

Outra hipóteses para o surgimento dos vampiros entre a população está a das pessoas enterradas vivas (de propósito ou por engano). Em alguns casos em que foram reportados sons que emanavam de um caixão em particular, este foi mais tarde desenterrado e foram descobertas marcas de unhas no interior, causadas pela vítima tentando escapar. A Catalepsia patológica é uma doença rara em que os membros se tornam moles, mas não há contrações, e quem passa por ela pode ficar horas nesta situação. Esse estado de morte aparente pode surgir em casos de asfixia, intoxicação, soterramento, afogamento, enfarte fulminante ou hipotermia.

A população em geral sempre teve medo de ser enterrado vivo (e isso realmente pode acontecer se a morte for atestada incorretamente). Para evitar isso, no século XVIII recomendava-se seguir certos procedimentos para se ter certeza do óbito ou fazê-lo ressuscitar: levar o defunto a espirrar com “errinos, sucos de cebolas, alho e raiz forte”, estimular a pele com “brotos e urtigas”, introduzir medicamentos cáusticos no reto, puxar violentamente os braços e as pernas, dar “gritos medonhos” e produzir “barulhos excessivos”. Um clérigo francês propunha, como último recurso, atiçador flamejante no ânus. (Galeria de Curiosidades Médicas, Jan Bondeson – Ed. Record)

Em 1985, o bioquímico David Dolphin propôs uma ligação entre um raro distúrbio sanguíneo conhecido como porfiria e o folclore vampírico. Porfirias são um grupo de distúrbios herdados ou adquiridos que envolvem certas enzimas participantes do processo de síntese do heme (ferro no sangue). O nome vem do grego e significa “pigmento roxo”, uma referência à coloração arroxeada dos fluidos corporais dos pacientes durante um ataque. Estes distúrbios se manifestam através de problemas na pele e/ou com complicações neurológicas. Dolphin sugeriu que o consumo de grandes quantidades de sangue poderia resultar de alguma maneira no transporte do hemo através da parede do estômago e para a corrente sanguínea, porém toda essa tese já foi desmentida em pesquisas médicas.

A susceptibilidade a alho e à luz pode resultar da hipersensibilidade, um dos sintomas da raiva. A doença pode também afetar partes do cérebro, causando um distúrbio nos padrões normais do sono (e assim um comportamento noturno) e ferocidade. Lendas antigas diziam que um homem não tinha raiva se conseguisse olhar para o seu próprio reflexo – uma alusão à lenda sobre vampiros não terem reflexo. Lobos e morcegos, que são muitas vezes associados a vampiros, podem ser portadores de raiva. A doença pode também levar a um desejo de morder os outros e a espumar sangue da boca. O Drácula da literatura transforma-se em morcego muitas vezes no romance, porém as três espécies de verdadeiros morcegos-vampiros são endêmicas da América Latina, e não há nenhuma evidência que sugira que alguma vez tenham tido parentes no Velho Mundo.