Entrevista: Rubens Junqueira Villela

O que você acha em viajar para a Antártida, um lugar remoto e perigoso em que poucos humanos já se aventuraram a pisar? Pois saiba que um cientista brasileiro, o meteorologista Rubens Junqueira Villela, já realizou 12 viagens de pesquisa ao continente Antártico, estando presente na inauguração da Base Brasileira “Comandante Ferraz” e foi o primeiro brasileiro a pisar no Pólo Sul geográfico.

Conheça essas e outras histórias interessantíssimas deste pesquisador nessa sequência de posts, com uma entrevista exclusiva ao Monolito Nimbus. Nessa primeira parte, vamos falar sobre sua vida e formação como meteorologista.

Rubens Junqueira Villela com traje que usou na Antártida
Rubens Junqueira Villela com traje que usou na Antártida

Nascido em 02 de abril de 1930 na cidade de São Paulo, passou maior parte de sua infância em uma fazenda em Franca/SP. Desde os 13 anos de idade já tinha interesse por aviação, quando aprendeu o código morse e monitorava voos de aeronaves por radiotelegrafia. Concluiu o ensino médio no Colégio São Luiz, em São Paulo. Seu primeiro emprego foi aos 18 anos, como radiotelegrafista em uma agência de notícias. O conhecimento do código Morse seria de grande utilidade para seu aprendizado de meteorologia, já que possibilitaria obter diretamente dados emitidos via rádio.

Mudou-se para os EUA em 1950, a fim de fazer o curso de engenharia no Colorado. Como gostava de radiocomunicação, mudou de faculdade e começou fazendo engenharia elétrica em Maryland, mas apaixonou-se por meteorologia ao fazer uma matéria optativa desta disciplina. Mudou-se para a Florida State University para completar o bacharelado em meteorologia, formando-se “Bachelor of Science” em 1957.

Em seus estudos, ele mesmo fazia a recepção dos sinais radiotelegráficos em código morse com as informações meteorológicas (SYNOP) de diferentes estações emissoras e plotava em um mapa, permitindo fazer suas próprias cartas sinóticas. O código morse é formado por uma combinação de sinais curtos (pontos) e longos (traços), cuja combinação forma letras e números para transmitir uma mensagem.

Chegou a fazer estágio no Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC, National Hurricane Center), em Miami, entre 1954 e 1956. Enquanto estava fazendo estágio no Weather Bureau, no aeroporto de Washington DC, passou o furacão Carrie no Oceano Atlântico, em setembro de 1957.

Durante seu estágio no National Hurricane Center entre os anos de 1954 e 1956, chegou a fazer o acompanhamento da passagem de algum grande furacão pela Flórida?

Sim, além do NHC em Miami, também estive em West Palm Beach de onde partiam os voos de reconhecimento dentro de furacões na época, e em Tallahassee, onde ficava a Florida State University, em que me formei. Meu professor Noel LaSeur era um dos participantes nestes voos, para grande preocupação de sua esposa, pois certa vez o Prof. LaSeur foi atingido por um raio dentro do avião; ele usava um sapato com proteção metálica na sola e foi onde a faísca pegou… Na FSU, nossa aula um dia foi interrompida pela passagem do furacão “Flossy” enquanto o professor LaSeur nos dizia, “Não olhem, este furacão não devia estar aqui” (obviamente alguém devia ter errado a previsão). Aprendi muito sobre furacões e sua estrutura nesta época durante o estágios, graças ao acesso constante aos dados e sua discussão pelos meteorologistas, mas também pelo meu próprio trabalho de monitoramento direto pelo rádio dos aviões de reconhecimento da Marinha, que transmitiam por radiotelegrafia (no código morse) (fui radiotelegrafista profissional). O caso mais impactante – e trágico – vivi durante meu estágio no aeroporto nacional de Washington após minha formatura na FSU em 1957, que foi o afundamento no meio do Atlântico Norte pelo furacão “Carrie” do veleiro-escola alemão “Pamir”, com perda de 84 marinheiros. Fiz análises da carta sinótica de superfície o que me permitiu acompanhar a trajetória do “Carrie” e como foi que o “Pamir” se viu apanhado na tempestade por falhas de previsão. Fica óbvio como os atuais dados de satélite (e outros) realmente salvam vidas!

Já em 1958, entrou para a Real Aerovias Brasil como chefe do setor de meteorologia. Era responsável por dar apoio nessa área às operações de voo da companhia e administrava a própria rede de observações meteorológicas. Seu trabalho consistia de receber os dados via telégrafo das estações meteorológicas, gerar mapas e previsões, interpretar os resultados e elaborar avisos e boletins. Fundada em 1945 como “Real Aerovias – Redes Estaduais Aéreas Ltda”, sua frota chegou a 117 aeronaves em 1957, o que colocou a empresa em 7° lugar no ranking da IATA – a mais alta posição já ocupada por uma empresa aérea brasileira até então. Foi adquirida pela Varig em 1961, mesmo ano em que saiu da empresa.

Como foi sua experiência como meteorologista na Real Aerovias?

No início foi um choque, pois depois de 8 anos de trabalho e estudos no ambiente organizado e sério dos EUA, o Brasil me pareceu o caos! Mas procurei entender essa diferença e passei a entender melhor não só a Real como o próprio o Brasil. Pensava, logo que ingressei na Real em 1958, meu primeiro emprego depois de formado: a aviação, que depende tanto de organização e respeito às regras, como pode funcionar nesta empresa? Eu era “chefe” do setor de meteorologia do Departamento de Operações… Vi que a empresa funcionava, parecendo um milagre que se repetia a cada dia, principalmente um milagre de improvisação.

Uma causa era que um seu companheiro de trabalho, do qual outro dependia, nunca falhava no seu serviço e te deixava na mão, mas se virava e cumpria o que tinha de fazer, de alguma forma, em que ambos se safassem (ou se saíssem resguardados).

Eu também fui solicitado a dar aulas de meteorologia na Escola da Real e isto me ajudou muito a conhecer os colegas. Afinal, acabei adorando o trabalho na aviação, e o meu entusiasmo se expandiu para todos seus aspectos, inclusive o voo em si e o desejo de tornar-me piloto, o que realizei no voo a vela, de planador, em perfeita combinação com a meteorologia.

Outra boa experiência minha na Real foi o trabalho de intercâmbio técnico com a Aerolíneas Argentinas em 1959, visando a próxima introdução pela Real de jatos no Brasil. Fiz voos em “Comet” a Santiago do Chile, uma emoção cruzar os Andes a grande altura, vendo as nuvens lenticulares formadas pelas ondas de montanha, que têm permitido aos planadores baterem surpreendentes recordes de altitude e distância. Além disso, convivi com a notável atmosfera de fraternal amizade e cooperação entre o pessoal de terra e de voo existente na Aerolíneas.

Ainda falando da área de aviação, Villela viria a tornar-se piloto de planador em 1964. Essa técnica de voo vem desde a antiguidade, quando falcões eram devidamente treinados para caça, e seu tipo de voo, mais complexo (com manobras, ganho de altura, etc) além de simples planeio, era assim denominado: “voo a vela”. É preciso conhecimento refinado para mapear as correntes térmicas tão desejadas pelos pilotos dessas aeronaves sem motor. As nuvens lenticulares denunciam a ocorrência de uma onda atmosférica, denominada onda de montanha ou onda de sotavento, cujas correntes ascendentes, que formam as nuvens, permitem aos planadores alcançar incríveis altitudes (mais de 14 km) e percorrerem grandes distâncias (até 3.000 km).

Em 1961, participou de duas expedições à Antártida (veja mais na próxima parte da entrevista), sendo o primeiro brasileiro a pisar no pólo sul geográfico, em 17 de novembro desse ano.

Estagiou no Goddard Space Flight Center, da NASA, entre 1962 e 1963. Participou do lançamento de foguetes-sonda (concebidos para transportar instrumentos científicos à altitudes que variam entre 50 e 1.500 km em um voo sub-orbital) da base de Wallops Island (de onde também funcionava a estação de recepção e telecomando dos 10 satélites meteorológicos TIROS, lançados entre 1960 e 1965). Com isso, participou da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CNAE), que nasceu do Grupo de Organização da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (GOCNAE), criado em 1961 sob direção do cientista e cel. aviador Aldo Weber Vieira da Rosa. Sediada em São José dos Campos/SP, a CNAE deu lugar ao atual Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

O que mais lhe marcou no estágio que fez na NASA?

Foi o trabalho de equipe, vivido sobretudo nas horas dos lançamentos de foguetes de sondagem realizados na base da ilha Wallops, na Virginia. A emoção de ingressar ativamente na era da astronáutica, que antes me parecia mais ficção científica. O fato de ter sido aceito pelos colegas, e com plena confiança, como membro da equipe, tanto é que logo me deram, para meu susto, a responsabilidade de coordenar um lançamento simultâneo de sondagem da ionosfera com a base canadense em Fort Churchill. Os participantes técnicos da NASA eram super especializados, e para eu adquirir uma visão geral de tudo que se fazia ali, tinha que conversar com diversos deles; por exemplo, um só cuidava da instalação no foguete da antena de DOVAP usada para o sistema de “tracking” (posição e acompanhamento), e se perguntasse a ele sobre outra coisa, diria que não era com ele. Curiosamente, quando externei aos colegas meu grande desejo em visitar a base da NASA no Cabo Canaveral, tentaram me dissuadir, dizendo que não valia a pena, que lá não tinha “nenhuma ciência”, que era uma bagunça e tudo show… Já o grupo científico no Goddard Space Flight Center era composto por nomes de elevado nível profissional, sobretudo os administradores (“managers”) dos projetos, no meu caso, o Dr. William Nordberg – esses sim, tinham um conhecimento de toda e qualquer parte dos seus respectivos projetos. Chamou-me a atenção também a atmosfera de liberdade e simplicidade de trato entre as pessoas na NASA. Outro sinal dessa abertura de relacionamento foi o fato de colegas cientistas do GSFC me terem perguntado sobre UFOs ao saberem que eu havia testemunhado um na Antártida. Pediram-me um relatório, que enviaram à sociedade de estudos criada pelo Major Donald Keyhoe e que o publicou em um dos seus boletins.

A seguir, duas páginas da Revista Visão, de 1 de fevereiro de 1963, falando sobre Villela e o uso de foguetes meteorológicos com granadas detonadas a intervalos regulares. Pela diferença de tempo e da direção com que o som era captado em superfície com relação ao som de duas explosões sucessivas, calculava-se a temperatura e a densidade do ar, assim como a direção e a velocidade do vento nessa camada atmosférica. Os estudos tinham como objetivo conhecer melhor a atmosfera entre 30 e 300 quilômetros de altitude (teto máximo dos balões atmosféricos e teto mínimo dos satélites artificiais, respectivamente).

Primeira página do artigo de Villela na NASA
Primeira página do artigo de Villela na NASA (clique na imagem para ampliar)
Segunda página do artigo de Villela na NASA
Segunda página do artigo de Villela na NASA (clique na imagem para ampliar)

O texto também fala sobre foguetes que formavam uma nuvem de sódio na ionosfera para estudo do vento e da turbulência nessa camada e a relação com sua estrutura elétrica. Cada explosão gerada por um lançamento resultava na formação de um fenômeno luminoso comparável à aurora polar. Na ionosfera que ocorre a reflexão de certas ondas de rádio, fundamental para as radiocomunicações.

Em 1974, começou a atuar na USP como professor assistente no então Instituto Astronômico e Geofísico e atual IAG/USP (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo) até sua aposentadoria. Ministrou as disciplinas de Meteorologia básica, Meteorologia Sinótica e Meteorologia Operacional no IAG. A disciplina “ACA442 – Meteorologia Operacional” não é mais oferecida, mas segundo o catálogo de graduação tinha 4 créditos (4 horas de aula por semana) e sua ementa era:

“Serviços e redes meteorológicas. Elementos de meteorologia aeronáutica. Tratamento de dados para estudos de projeto e operações de aeroportos (meteorologia aeroportuária). Temperatura de referência e orientação de pistas. Categorias operacionais da ICAO. Elementos de meteorologia marítima e previsão para a navegação. Tratamento de dados de vento para estudos de dispersão atmosférica.”

O senhor foi professor da USP durante muitos anos. Como foi seu ingresso nessa importante universidade como professor? E quanto ao mestrado, como foi a escolha do tema?

Meu ingresso se deu em 1974 (e minha aposentadoria em 2000), a convite do Prof. Giorgio Giacaglia, a quem conheci num congresso de astronomia em S. Paulo. Com a participação minha, do Prof. Paulo Marques do Santos e outros, e de professores americanos como Vernon Kousky da Universidade de Washington, foi criado o Departamento de Meteorologia do Instituto Astronômico e Geofísico da USP. Ministrei principalmente as disciplinas, Meteorologia Básica e Meteorologia Sinótica. Meu tema do mestrado, obtido em 1985, foi “Meteorologia Aeroportuária da Ilha da Madeira”, e foi escolhido em parte por conveniência, aproveitando o trabalho que fiz para a firma Hidroservice Engenharia, como consultor dos estudos de viabilidade do novo aeroporto intercontinental da Ilha da Madeira. Trabalhando com os escritórios do Eng. Edgar Cardoso e o Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica, fiz várias visitas à ilha, uma região autônoma de Portugal, incluindo voos de reconhecimento para observação dos ventos e da turbulência gerada pela topografia acidentada, inserida na corrente dos ventos alísios de nordeste do Atlântico Norte. Minha dissertação ensina como se emprega a metodologia desenvolvida a partir da II Guerra Mundial para a orientação de pistas, construção e operação de aeroportos.

Não perca a continuação dessa entrevista em breve, com as aventuras vividas em suas viagens ao continente gelado.

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2 comentários

  1. Tive a oportunidade de assistir a uma palestra do prof. em 2015 durante a Virada Científica na USP, sobre Antártida. Interessei-me por sua história e por seu trabalho (e conheci o traje da foto!) e agora, sinto-me contemplada por este site. Parabéns ao professor por sua trajetória e parabéns ao Vinícius por sua iniciativa em documentá-la. Aguardo a continuação.

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