Ennio Morricone

Nascido em 10 de Novembro de 1928, Ennio Morricone é um compositor, arranjador e maestro italiano, considerado um dos maiores autores de músicas para filmes de todos os tempos. Responsável pela composição e arranjo de mais de 500 filmes e programas de televisão dos mais variados gêneros, ficou famoso mesmo graças a sua contribuição revolucionária com as trilhas sonoras dos filmes de faroeste.

Ennio Morricone. Fonte: Site Oficial

Obs.: Os links para vídeos do YouTube com as músicas apresentadas estão após cada trecho com texto, mas você também pode ouvir a playlist no Youtube ou a playlist no Spotify.

Mesmo escrevendo música erudita, ele incluiu elementos da música pop, usando instrumentos mais comuns às bandas de rock ou jazz do que às orquestras, e de música concreta (por exemplo, o uivo dos coiotes, assobios e objetos não usuais para compor sua sonoridade). Os sons ambientes, que fazem parte do universo dos personagens, mesclam-se às músicas, que somente o espectador pode ouvir.

Ouça o tema de abertura do filme “O bom, o mau e o feio”, cuja trilha foi composta por Morriconne. Na história do filme, os conceitos de bom e de mau se misturam em todos os três protagonistas. Essa característica já é antecipada pela música, através da utilização da mesma melodia, com diferença de timbre.

Filho de um trompetista e uma dona de casa, Ennio Morricone foi o mais velho de cinco filhos. Com apenas dez anos de idade, e depois de treinar na orquestra amadora de Constantino Ferri, Morricone inscreveu-se no Conservatório de Santa Cecilia para estudar trompete. Em 1955, ele começou a organizar músicas para filmes, uma atividade que ele interrompeu por seu serviço militar, e depois retomada para séries televisivas. Em 1956, casou-se com Maria Travia, e no próximo tiveram seu primeiro filho, Marco. Sua filha, Alessandra, nasceu em 1961, mesmo ano em que compôs sua primeira trilha sonora para o cinema: o filme era “Il Federale” (O fascista), de Luciano Salce.

Durante as décadas de 1960 e 1970, deu-se um certo renascimento do cinema de faroeste na Itália, também conhecido como “western spaghetti”. Nesses filmes, abusava-se de violência, ação e drama, com muito pó e suor.

Cena do filme “Por um punhado de dólares” repetida em “De volta para o Futuro III” da chapa de metal servindo como colete a prova de balas.

Um grande expoente do gênero foi o cineasta italiano Sergio Leone, que requisitou bastante os trabalhos de Morriconne. Realizou o filme “Por um punhado de dólares”, estrelado pelo ator Clint Eastwood e que teve duas continuações: “Por uns dólares a mais” e “O bom, o mau e o feio” (traduzido também como “Três homens em conflito”). A música de abertura desse último estava no começo do post, e também tem mais duas no final, para fechar com chave de ouro.

Abaixo, estão duas músicas do segundo filme, “Por uns dólares a mais”. A primeira é a abertura do filme. A segunda música toca no duelo final entre o coronel e o perigoso bandido conhecido como “El Índio”. Na verdade, é o som de um relógio de bolso musical da cena, que, aos poucos, vai se mesclando à música de violinos que só tocam para o espectador. O bandido deixa a música tocando, e quando ela acaba, é o momento de descobrir quem atira mais rápido e poderá vencer o duelo de vida ou morte.

Além disso, duas música do filme “O dia da desforra”, de 1966, outro famoso filme western com música de Morricone: “La resa” (ou “a rendição”), que posteriormente foi usada no filme “Bastardos inglórios”, e “Titoli di testa” (ou “manchetes”).

Em 1968, foi lançado outro filme de Sérgio Leone e composição musical de Morricone: “Era uma vez no Oeste”. A trilha sonora foi gravada antes mesmo das filmagens começarem. Assim, os atores e os movimentos de câmera poderiam adequar suas atuações à música. O protagonista novamente não tem nome, indicando a dureza de como eram as coisas no Velho Oeste. O homem com a gaita (interpretado por Charles Bronson) revela, no duelo do final do filme, o porquê de usar uma melodia triste na gaita como principal forma de comunicação. O filme teve duas continuações, todos com música de Morricone: “Era uma vez a revolução“ (de 1971) e “Era uma vez na América“ (de 1984).

Fique agora com o próximo bloco com seis músicas. Para começar, a música do duelo final de “Era uma vez no Oeste”, com a famosa gaita, e a música tema de “Era uma vez na América”, filme esse que fala do surgimento de uma organização mafiosa. Depois, mais duas músicas de filmes de faroeste: “Misterioso e ostinado”, do filme “Quando os brutos se defrontam”, de 1967, e “The Wild horde” de “Meu nome é ninguém”, de 1973, além da música tema desse filme. Para fechar esse bloco, outra música de filme de máfia: o tema de “Corleone”, filme de 1978.

A partir de 1970, começou a trabalhar com o ensino de música. Foi mestre de composição no Conservatório de Frosinone. Posteriormente, aceitou um trabalho nos Estados Unidos, compondo a música para o filme “The Human Factor”, do diretor Edward Dmytryk. Sua primeira indicação ao Oscar viria em 1979, pela música no filme western “Cinzas no Paraíso”. Em 1983 tornou-se membro do Conselho de Administração da associação Nuova Consonanza, dedicada à música contemporânea, e reduziu drasticamente sua produção para o cinema.

Em 1986, ele foi indicado ao Oscar de melhor trilha sonora original no filme “A missão”, com Robert de Niro, cujo contexto histórico é o das Guerras Guaraníticas, no sul do Brasil. Dois anos depois, teve uma terceira nomeação, com a trilha de “Os Intocáveis”, dirigido por Brian de Palma. Ele ainda seria nomeado em duas outras ocasiões: em 1992, por “Bugsy”, de Barry Levinson (outro filme de mafiosos) e em 2001, por “Malena”, de Giuseppe Tornatore. Com esse mesmo diretor, também trabalhou na trilha do filme “Cinema Paradiso”, lançado em 1988.

Ouça agora um bloco com sete músicas, começando pelas músicas que concorreram ao Oscar: música tema de “Cinzas no Paraíso”, duas do filme “A Missão” (“River” e “Gabriel’s Oboe”), a música tema de “Os Intocáveis”, “Act of Faith”, de Bugsy, e a música tema de “Malena”. Para finalizar o bloco, “Love Theme for Nata”, do filme “Cinema Paradiso”.

O diretor Quentin Tarantino é um grande fã do trabalho de Morricone, usando suas músicas em vários filmes, como Kill Bill, Bastardos Inglórios e Django Livre. Após usar algumas músicas e trabalharem em conjunto na composição de outras, o italiano afirmou que a parceria com Tarantino não deve mais acontecer, justificando que o diretor “coloca as músicas sem coerência” nos seus filmes. No entanto, depois afirmou que a frase estava fora de contexto e parece que se entenderam, pois trabalhou também na trilha sonora do filme “Os Oito Odiados”, lançado em 2016.

Para ilustrar um pouco dessa mescla entre Morriconne e Tarantino, vamos para o bloco musical com oito músicas. Duas foram usadas em Kill Bill (volume 2). A primeira é “A Silhouette of Doom”, já usada no filme de 1966 “Navajo Joe”. A segunda, “L’arena”, veio do western “O mercenário”, de 1968, e usada em “Kill Bill” no momento em que a protagonista tenta escapar de seu caixão após ter sido enterrada viva. Também vamos ouvir quatro músicas que tocaram no filme “Bastardos inglórios”, mas que foram compostas para outros filmes dos anos 1960 e 1970: “Represa”, “Algiers November 1, 1954”, “Mystic and Severe” e “Rabbia e Tarantella”. Além disso duas músicas usadas no filme Django: “The Braying Mule” (original do filme “Os abutres tem fome”) e “Ancora Qui” (com letra e voz da cantora italiana Elisa). Para fechar esse bloco musical, “L’Ultima Diligenza di Red Rock”, do filme “Os oito odiados”.

Ennio Morricone venceu cinco prêmios BAFTA entre 1979 e 1992, sendo também nomeado pela Academia de Hollywood para cinco Oscares de Melhor Trilha Sonora Original entre 1979 e 2001, mas não levou nenhum. Somente em 2007, Morricone recebeu pelas mãos de Clint Eastwood um Óscar Honorário “pelas suas magníficas e multifacetadas contribuições musicais ao cinema”. E em 2016, ganhou o Globo de Ouro e o Oscar pela trilha sonora de “Os oito odiados”.

Fazendo 90 anos agora em 2018, Ennio Morricone continua fazendo apresentações como maestro, principalmente na Itália, e também trabalhando em composições quando requisitado.

Para fechar o post, duas músicas do filme “O bom, o mau e o feio”. A primeira, retrata a alegria de um dos personagens ter encontrado o cemitério onde acredita-se estar enterrado um grande tesouro. Ela é chamada “The Ecstasy of Gold”. Já a segunda e última música ambienta sonoramente o duelo entre os três pistoleiros (ou seria um trielo)! Essas músicas são executadas em duas cenas sem diálogos, nas quais a música transmite toda a alegria e toda a tensão de cada momento. A última música foi retirada diretamente do filme, que termina com os tiros do final do embate.

Para conhecer mais sobre os maiores alguns dos maiores compositores/maestros de músicas para o cinema, o RapaduraCast tem a série Jukebox.

Fontes