Meteorologia popular

O corpo do ser humano é capaz de perceber mudanças das condições atmosféricas e fazer uma previsão de como ficará o tempo. Os animais são mais vulneráveis à variação de pressão, vento e temperatura do ambiente e, assim, começam a procurar abrigo antes de uma tempestade. Observando o comportamento dos animais, podemos ter uma ideia do tempo que a natureza está armando. Veja alguns exemplos de como o homem, observando padrões de comportamento da natureza, conseguiu fazer previsões de tempo caseiras durante milhares de anos, resultando em ditados e versinhos populares.

Pedra do tempo.

Pedra do tempo.

Etnometeorologia

Um cruzamento entre as ciências atmosféricas e a antropologia, a etnometeorologia trata de como os povos lidam com o tempo e o clima frente a seus impactos sobre a sociedade ao longo da história humana (cultura, economia, etc), assim como de reconhecer padrões de comportamento da atmosfera e arriscar previsões. Desde o início da humanidade, os seres humanos observam a natureza e buscam entender seu funcionamento. Desse modo, podem prever suas ações e também tentar dominá-la, seja através da religião ou da ciência.

Condições meteorológicas podem ter muita influência sobre o ser humano. Por exemplo, mudanças bruscas de temperatura “bagunçam” o sistema de defesa no organismo, podendo causar doenças. Temperaturas altas deixam as pessoas mais tensas e violentas, enquanto que o frio deixa as pessoas mais reservadas. Até mesmo quando sua tia diz que, quando alguma região inflamada dói, é porque tá vindo chuva, isso tem um fundo de razão, pois a queda de pressão do ar está associada com chuvas, e quando a pressão do ar cai, a pressão sanguínea sobe e a inflamação fica doendo mais.

Em algumas espécies animais, a temperatura desempenha um papel fundamental na determinação do sexo de seus indivíduos. Nesses casos, a temperatura pode suplantar a instrução genética do DNA. O Dicentrarchus labrax, espécie de robalo comum no Oceano Atlântico, a partir de uma população dividida meio a meio entre fêmeas e machos, é possível chegar a uma população inteiramente masculina aumentando a temperatura da água nos estágios precoces de desenvolvimento. Os lagartos femininos do dragão barbudo podem mudar de sexo dentro dos ovos se a temperatura do ambiente aumentar – quando os ovos estão encubados em temperaturas que variam de 34 a 37°C, os lagartos nascem na proporção de 16 fêmeas para apenas 1 macho.

Os animais tem um senso mais apurado para mudanças climáticas por questão de sobrevivência (algo que talvez o ser humano tenha perdido no caminho da evolução). Por exemplo, O João-de-barro sempre faz a entrada se sua casa no sentido contrário do vento, para evitar que entre chuva e detritos levados pelo vento. Outro exemplo, a minhoca só desova quando o clima é fresco e úmido, já que em um clima quente os filhotes não sobreviveriam. Pássaros voam baixo quando vai chover, pois a pressão diminui e deixa o ar menos denso, o que é ruim para o voo. Dessa forma, é possível observar os animais para prever o tempo a curtíssimo prazo.

Essas observações são simples observações lógicas que a população vem fazendo ao longo dos anos, o que não significa que funcionam o tempo todo. Por exemplo, diz-se que insetos alvoroçados e animais inquietos, fazendo seus sons característicos, são sinais de que estão buscando um abrigo e avisando seus companheiros devido a proximidade de chuva. No entanto, moscas vivem curtos períodos de tempo, sendo as mais novas bem mais agitadas que as velhas. Se você ver um agrupamento de moscas jovens, pode vir a pensar que se aproxima chuva, enquanto na verdade estão apenas buscando acasalamento.

Dizeres da Meteorologia popular

As condições médias da atmosfera variam bastante de lugar para lugar, por isso é importante a conversa com habitantes do lugar para saber os padrões reconhecido por eles. A região da cidade de Blumenau (SC) foi primeiramente habitada por indígenas, que moravam nas serras. Os colonizadores, que se fixaram no vale do rio Itajaí, perceberam o porquê disso depois de sofrerem com as primeiras enchentes. Veja alguns versinhos e ditados populares com uma possível explicação de sua eficácia:

“Céu pedrente, chuva ou vento”

Céu com nuvens escuras e cumuliformes indicam que pode ter vento e/ou chuva.

“Vermelho ao Sol pôr / Alegria do pastor” ou “Vermelho ao mar / Sol de rachar”

Foi observado que, ao Sol se pôr vermelho, no dia seguinte não choveria e faria tempo aberto, e assim colocaram o fato observado em verso. O tempo normalmente fica aberto sob condições de alta pressão, onde o ar frio desce e retém a poeira próximo ao solo. Assim, o pôr-do-sol fica mais vermelho que de costume.
Caso o Sol amanheça vermelho, quer dizer que esse fenômeno causado pela alta pressão está no leste. Como nas latitudes médias do hemisfério norte os sistemas de tempo caminham de Oeste para Leste, quer dizer que a alta pressão já se foi e deve se aproximar uma região de baixa pressão, com chuvas. Daí vem os versos “Vermelho ao sol nascer / Deve o pastor se precaver”, que quer dizer que o fato de o Sol nascer vermelho indica que poderá haver chuva, assim como:
“Vermelho de manhã / É capa de lã”;
“Vermelho ao nascente / Chuva de repente”;
“Barra vermelha, água na orelha”;
“Arrebóis ao anoitecer / água ou vento ao amanhecer”;
“Aurora ruiva, ou vento ou chuva” e tantos outros. Arrebol é o vermelhidão no nascer ou pôr-do-sol.

“Arco-íris pela manhã é sinal de chuva”

Pela manhã, o Sol está a Leste. O arco-íris sempre se forma do lado oposto ao Sol (nesse caso, portanto, a Oeste) e onde há chuva. Como o tempo nas latitudes médias do hemisfério norte caminha aproximadamente de Oeste para Leste, quer dizer que o vento está trazendo a chuva de oeste. Se o arco-íris ocorre com o pôr-do-sol, a chuva está no Leste se indo.

“Noite clara, geada ao amanhecer”

Se à noite o céu está sem nuvens, ocorrerá geada ao amanhecer. Isso ocorre porque à noite a superfície da terra esfria, devido à ausência do Sol, e perde o calor para o espaço. Se tivesse nuvens, elas formariam um manto que refletiria o calor de volta para a terra. Como fica frio, é mais provável aparecer geada ao amanhecer, que é o horário mais frio do dia. Se estiver ventando pouco e frio o suficiente, poderá haver formação de geada.

“Cerração baixa, Sol que racha”

Observou-se que quando uma cerração (nevoeiro) forte escondendo o céu é céu aberto na manhã do dia seguinte. Muito falado no Rio Grande do Sul. O nevoeiro se forma pelo resfriamento da atmosfera durante a madrugada, fazendo atingir a temperatura suficiente para saturação do ar de umidade. Conforme o Sol aquece, a água vai voltando ao seu estado de vapor.

“Gato a se lamber, mau tempo vai fazer”

O gato, ao coçar-se numa árvore ou deitar de boca para cima, pode ter esse comportamento devido a aumento da eletricidade estática quando chega uma tempestade (ao coçar-se no chão ou na árvore, estaria reequilibrando suas cargas). É o mesmo que “quando os cavalos rolam na terra é sinal de chuva” (dito na Noruega e Suíça) e “Vaca preta coçando as costas, sinal de mau tempo” (dito na Noruega).

“Lua com circo, água no bico” ou “circo na lua, lama na rua”

Halo (“circo”) formado em torno da Lua quando da passagem de uma nuvem do tipo Cirrostratus, que traz uma frente fria, tempestades e chuvas. É semelhante ao ditado índios Zuni do Novo México: “Quando o Sol está em casa (dentro de um halo), a chuva não tarda”.

“Madrugada alta e tardia é sinal de ventania”

Madrugada alta é quando o Sol surge sobre um monte de nuvens. De certo isso se relaciona a algum distúrbio sinótico (passagem de frentes, por exemplo).

“Inverno quente, feijão doente; verão chuvoso, feijão formoso”

No Brasil, grande parde das regiões agrícolas tem invernos secos que também ficam quentes quando ocorrem os “veranicos”. Tempo seco prolongado é prejudicial para certas culturas, como a do feijão.

“O peixe salta antes da tempestade” (França, Alemanha)

Peixes nadando próximo à superfície pode também ser sinal de chuva, pois com ela aumenta a oxigenação da água e também pode ocorrer queda de insetos.

“Quando sente cheiro de temporal, o gado se junta no curral”

Animais agitados, buscando abrigo ou reunindo-se em grupos, podem indicar que estão percebendo uma queda de pressão e proximidade de uma tempestade. Carneiros e galinhas reunidos também pode ser sinal de chuva, pois estão tentando se proteger em grupo. Sapos precisam estar sempre úmidos, e quando se avizinha uma chuva, eles podem sair da água para reprodução, e começam a coaxar (caso contrário, ficam calados). Veja outros exemplos:

  • “Galinha numa perna só e escondida, chuva garantida” (Irã);
  • “Maçarico cantando, chuva chegando” (Irlanda);
  • “Gaivotas na areia, primavera e meia; gaivotas no barranco, inverno e tanto” (Reino Unido);
  • “Formiga carregando ovos barranco acima, é chuva que se aproxima” (Índia, Japão);
  • “Teias de aranha ao amanhecer, bom dia vai fazer” (Japão, Espanha, Uruguai);
  • “Silvar de cobra, chuva de sobra” (França, Espanha, América hispânica);
  • “Rã cantando em campo aberto, chuva três horas perto” (Índia);
  • “Asas abertas no galinheiro, sinal de aguaceiro” (Índia);
  • “Rebanho barulhento, tempestade e muito vento” (Itália);
  • “Bugio ronca na serra, chuva na terra” (Brasil)
  • “Cabras tossindo e espirrando, o tempo está mudando” (Brasil)
  • “Se o cuspe flutua na água, bom tempo; se afunda, chuva” (Japão)

Os dois últimos ditados são engraçados, mas não encontrei uma boa explicação.

Além disso, a queda de chuva no solo pode liberar uma substância aromática, conhecida popularmente somo “cheirinho de chuva“, bem percebido principalmente por animais com olfato apurado – veja mais clicando no post.

Mesmo através de uma fogueira é possível saber um pouco sobre as condições de tempo. Se a fumaça subir, isso indica uma atmosfera instável e possibilidade de formação de nuvens e chuvas. O inverso acontece a noite: se a fumaça se espalhar na horizontal em vez de subir, isso indica atmosfera estável, ou seja, permanecerão as condições presentes de tempo.

Finalizando, Malba Tahan, em seu livro “A Caixa do Futuro”, faz um interessante comentário, durante uma passagem em que um ancião cego diz ter certeza de que no céu não há nuvens pelo cantar dos pássaros e por não ouvir o ruído de uma queda d’água que fico do outro lado de um rochedo:

“Esse curioso fenômeno já tem sido observado em várias localidades de nosso país. Em S. Domingos (Goiás), o povo sabe se o tempo está firme ou ameaçador, pela maior ou menor intensidade com que ouve o ruído de uma queda d’água situada a poucos quilômetros da cidade.”

Quando chove na cabeceira ou em uma parte mais alta de um rio, seu volume de água aumenta, fazendo crescer também o barulho da água baendo nas pedras.

Veja mais sobre como funciona a previsão do tempo e outras formas de previsão de tempo “não ortodoxas” (como os profetas do tempo de Quixadá) e sobre a influência da umidade, radiação ultravioleta e pressão do ar sobre o corpo humano clicando nos links.

Humor

Com a aproximação do inverno, os índios foram ao cacique perguntar:

– Chefe, o inverno este ano será rigoroso ou ameno?

O chefe não tinha havia desenvolvido as técnicas de observação da natureza da mesma forma que seus ancestrais. Para não demonstrar insegurança, olhou para o céu por algum tempo, estendeu as mãos para sentir os ventos e em tom sereno e firme disse:

– Teremos um inverno muito forte. É bom colher muita lenha!

Na semana seguinte, preocupado com a previsão, ligou para o serviço de Meteorologia e ouviu a resposta:

– Sim. O inverno deste ano será muito frio!

Sentindo-se mais seguro, dirigiu-se a seu povo novamente:

– É melhor recolhermos mais lenha, teremos um inverno rigoroso!

Uma semana depois, ligou novamente para o Serviço Meteorológico para confirmar a previsão:

– Como vocês sabem que teremos um inverno tão rigoroso?

– É que este ano os índios estão recolhendo lenha pra caramba…

Fontes

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