Semeadura de nuvens

Em tempos de excesso ou falta de chuva em algum lugar, é comum aparecer a pauta de semear nuvens para promover a chuva em um lugar desejado e/ou evitá-la em outro ponto. Mas como funciona a semeadura de nuvens? Esse controle sobre a atmosfera realmente é possível?

Desde tempos imemoriais, o ser humano anseia controlar o tempo e o clima. Povos antigos tinham deuses que controlavam os ventos, a chuva e outras forças da natureza cujo funcionamento físico era desconhecido. Surgiram muitos dizendo que conseguiam conversar com os deuses e poderiam controlar o tempo – prática que não deixou de ocorrer.

Cloudbuster

O psicanalista austríaco Wilhelm Reich (1897–1957) projetou um dispositivo que usaria energia orgônica presente na atmosfera para produzir chuva. O Orgônio é um conceito espiritual pseudocientífico descrito como uma energia esotérica ou como uma hipotética força vital universal, que foi descrita inicialmente pelo próprio Reich nos anos 1930.

Reich com um de seus cloudbusters. Fonte: Wikipedia
Reich com um de seus cloudbusters. Fonte: Wikipedia

O dispositivo, formado por uma série de tubos de metal ocos conectados a mangueiras flexíveis e uma porção de água, foi batizado como Cloudbuster. Ele foi projetado para ser usado de forma semelhante a um pára-raios: focalizá-lo em um local no céu e aterrá-lo em algum material que supostamente absorve orgônio (como um balde de água) para retirar a energia orgônica da atmosfera. Desse modo, causaria a formação de nuvens e chuva.

Para quem ficou com a música tema do filme Ghostbusters (Caça fantasmas) ao ler Cloudbuster (Caça nuvens), aqui vai uma paródia:

If the weather is dry on your neighborhood
Who you gonna call? (Cloudbusters)
If there’s somethin’ weird and it never rains
Who you gonna call? (Cloudbusters)

I ain’t afraid of no dry
I ain’t afraid of no dry

If you aren’t seein’ rain fallin’ through your head
Who can you call? (Cloudbusters)

Se você está sozinho, pegue o telefone e ligue, Caça Nuvens! O cloudbuster de Wilhelm Reich foi a inspiração para a canção “Cloudbusting” de 1985, da cantora britânica Kate Bush.

Semeadura por núcleos de condensação

Uma gotícula de nuvem só consegue se formar livremente na atmosfera terrestre a partir da condensação do vapor d’água sobre partículas sólidas suspensas no ar, conhecidas como núcleos de condensação. Somente a partir do acúmulo dessas gotículas é que pode-se promover chuva.

Nos anos 1950 e 1960, a poluição do ar causada pela área industrial de Atlanta resultou em nuvens com gotículas menores que o habitual. Ou seja, o tamanho diminuto das partículas de poluição era ótimo para a formação de nuvens, mas terrível para criar precipitações. Quando a Lei do Ar Limpo entrou em vigor em 1970, a emissão de pequenas partículas (menores que 10 micrômetros) diminui 40% em todo o país nos primeiros cinco anos. Nas duas décadas que se seguiram, a média de chuvas em Atlanta subiu 10% e permaneceu nessa faixa.

Semeadura de nuvens (cloud seeding) a partir da superfície e por avião. Fonte: Wikipedia
Semeadura de nuvens (cloud seeding) a partir da superfície e por avião. Fonte: Wikipedia

Uma das técnicas mais empregadas é a de se bombardear nuvens com substâncias higroscópicas que atraiam a umidade presente no ar para formar mais gotículas e acelerar o processos de formação de nuvens e chuva. Ainda hoje existem muitas dúvidas sobre os mecanismos de formação de chuva, mas algumas hipóteses já servem como base para alguns acreditarem ser possível empregar tecnologias com o intuito de controlar a precipitação.

O cientista americano Bernard Vonnegut (1914-1997) descobriu que o iodeto de prata poderia ser usado efetivamente na semeadura de nuvens para produzir neve e chuva. Como os iodetos de prata têm uma estrutura cristalina similar à do gelo, eles formam um recife artificial onde os cristais podem crescer. Podem ser usadas outras substâncias, como óxido de alumínio, mas a ideia é que o vapor d’água sublime (passe para o estado sólido) sobre elas, formando os cristais de gelo.

Outras substâncias podem ser utilizadas. O sal de cozinha se mostrou especialmente eficaz em nuvens mais aquecidas, como as do México e África do Sul, porque os cristais de sal geram gotículas maiores do que se esperaria e se precipitam das nuvens mais prontas. Lembrando que, se o ar estiver muito seco, de nada adianta colocar um monte de partículas sólidas.

Semeadura por gelo seco

Em 1946, Vincent Schaefer desenvolveu um sistema de nuvens super refrigerado (vapor d’água a quase 0°C) a partir de um congelador em seu laboratório. Nesse sistema, pôde estudar os efeitos do crescimento de cristais de gelo em uma variedade de meios: pó de talco, sal de cozinha, solo superior, etc. Nesse experimento, a nuvem consistia em uma grande bafo de ar exalado dentro do congelador.

Em um dia quente de verão, o congelador simplesmente não conseguia trabalhar a ponto de manter a câmara fria o bastante, então Schaefer deu uma ajudinha ao processo jogando um pouco de gelo seco lá e, nesse momento, descobriu uma forma de transformar instantaneamente vapor d’água super gelado em gelo. Novos experimentos replicaram com sucesso o efeito, com -40°C sendo definido como o limite transformador para a água líquida super gelada.

Diferentemente do iodeto de prata, que dá um ponto de partida aos cristais, o método do gelo seco simplesmente baixa a temperatura o bastante para incitar a cristalização espontânea enquanto produz um vapor super saturado. Eles são normalmente entregues por aviões, que liberam feixes de iodeto de prata quando voam por entre as nuvens, ou por sistemas em solo como os Howitzers ou baterias anti-aéreas.

Ionizadores de nuvens

Dispositivos de brisa iônica são ionizadores gigantes montados no topo de grandes mastros de aço. Eles geram íons carregados positivamente que são jogados de volta para o chão, enquanto que os negativos são elevados à atmosfera. Enquanto sobem, os íons negativos coletam partículas de poeira pelo caminho, que funcionarão como núcleos de condensação. Desde que a umidade do ar seja de pelo menos 30%, o sistema teoricamente funciona mesmo com o céu limpo, sem nuvens.

Ionizadores de ar para formar nuvens. Fonte: Istoé
Ionizadores de ar para formar nuvens. Fonte: Istoé

No verão de 2010, 100 ionizadores foram espalhados em mais de cinco áreas na região de Al Ain, nos Emirados Árabes Unidos. Durante julho e agosto, quando normalmente não chove nessa área, foram registrados 52 eventos de chuva, com ocorrências frequentes de rajadas de vento e, algumas vezes, até granizo. O estudo foi monitorado pelo Instituto Max Planck de Meteorologia.

O projeto é patenteado pela empresa suíça Meteo Systems International. Os inonizadores custam cerca de US$ 10,5 milhões cada para serem construídos e US$ 8,9 milhões por ano para operarem.

Bombardeio com gotículas de água

Através do monitoramento por radares e aviões, pode-se detectar as nuvens carregadas e bombardeá-las com gotículas de água. Isso permite apressar os processos de colisão e coalescência das gotículas das nuvens a ponto de ficarem pesadas o suficiente para seguirem a gravidade e precipitarem. As nuvens devem ter de 1 km a 6 km de diâmetro para serem elegíveis e, após um período de 15 a 20 minutos, a técnica induz a chuva no local, segundo a empresa ModClima, que utiliza a técnica.

Em 1998, a técnica foi implementada pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que contratou a ModClima para provocar chuvas artificiais na cabeceira dos sistemas Cantareira e Alto Tietê, responsáveis pelo abastecimento de 18 milhões de pessoas na Grande São Paulo. Foram mais de 500 voos, com ocorrências positivas de chuva em 50% deles.

As chuvas também foram empregadas no Nordeste a pedido de prefeituras da Bahia. Os municípios de Mirorós e Gentio do Ouro, localizados no semiárido brasileiro, sofriam com a seca intensa entre 2008 e 2009 e com a redução do nível da represa que abastecia esta região. Foram feitos 25 voos nessas localidades para fortalecer os lençóis freáticos e 17 deles tiveram resultados positivos, segundo a empresa.

Mas funciona ou não funciona?

Em 1948, o prefeito de Alexandria (Virgina/EUA) ordenou a semeadura de nuvens com gelo seco e foi quase que imediatamente recompensado com 21,6 mm de chuva. De março de 1967 a julho de 1972, os militares do 54º Esquadrão de Reconhecimento Climático dos EUA realizaram a Operação Popeye: um grande trabalho de semeadura de nuvens visando estender o período de monções sobre o Vietnã, na esperança de afundar a trilha Ho Chi Mihn por mais 30~45 dias por ano.

Entre os anos de 1950 e 1970, as Forças Armadas norte-americanas tentaram conduzir experimentos de nucleação de nuvens de furacões, visando a diminuir sua intensidade. Não conseguiram avançar, porque foi impossível provar que tal modificação artificial não alteraria a trajetória de um furacão, podendo atingir outros países.

Durante as Olimpíadas de 2008, a China organizou uma grandiosa cerimônia de abertura. O governo do país tinha 30 aviões, 4 mil lançadores de foguetes e 7 mil baterias anti-aéreas preparadas para acabar com qualquer precipitação em potencial.

No Carnaval 2020, a produtora de bebidas Ambev (patrocinadora do Carnaval paulistano) bancou bombardeamento por gotículas de água pela empresa ModClima para que não chovesse no Carnaval, e sim sobre o sistema de abastecimento Cantareira. A assessoria de imprensa da Skol afirmou que foram realizados mais de 15 voos desde o início do projeto. Cada aeronave despeja cerca de 300 litros de água na atmosfera.

Na segunda-feira (24/02), de acordo com o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), foram registrados 40 milímetros de chuva na região central de São Paulo – onde não deveria chover.

“Essa ação não impede que as tempestades diminuam. Infelizmente continuam com essa história. Na época da crise hídrica [entre 2014 e 2016], essa empresa de semeadura de nuvens atuou e, de fato, não fez chover”, comentou o meteorologista Augusto Pereira Filho, do IAG-USP, à DW Brasil. Ele ainda disse que essa ideia começou ainda no fim dos ano 1980 no Brasil, mas a eficácia nunca foi comprovada.

De acordo com o climatologista e meteorologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), “Na teoria parece ter lógica, mas na prática dificilmente funciona” e que “não havia chovido nada” na região da Cantareira.

“A chuva artificial pode funcionar em algumas áreas pequenas, mas nem sempre chove onde queremos que chova. Esta técnica é aplicada em Israel, mas muitas vezes a chuva ali semeada cai na Jordânia ou na Palestina, ou seja, fora de Israel”, exemplifica o climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP).

De acordo com o professor de física atmosférica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Theotonio Pauliquevis, “o método pode fazer apenas pequenos ajustes em nuvens. Se for uma nuvem muito carregada, por exemplo, ele pode fazer ela chover, mas ela vai chover na Cantareira, e provavelmente atingirá São Paulo. Por outro lado, tem nuvens que podem nem chover. Então, tem que ser uma nuvem que já ia chover um pouco”.

“Apesar do enorme progresso nesse campo ao longo das últimas sete décadas, a eficácia da propagação de nuvens ainda permanece controversa na comunidade científica”
Acadêmicos norte-americanos no artigo 100 Years of Progress in Applied Meteorology, publicado recentemente no periódico Meteorological Monographs

Existem casos de acidentes envolvendo a semeadura de nuvens na Rússia e na China: veja nos posts Chuva de cimento na Rússia e Foguete meteorológico mata homem e explode seu corpo na cremação.

Fontes

Espalhe a mensagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.