Seguro climático

O risco é uma possibilidade de acontecer um evento que seja, externo ao envolvido, acontece de modo acidental e inesperado, ou seja, independente da vontade, e causando prejuízo. Um seguro é o contrato pelo qual uma das partes (o segurador) se obriga a indenizar a outra (segurado) em caso da ocorrência de determinado sinistro, que por sua vez é um evento que tem cobertura no seguro contratado e esteja especificado na apólice. A apólice é um documento que oficializa e comprova a existência do contrato de seguro.

O valor pago pelo segurado à seguradora para que esta assuma o risco de sinistro é chamado de prêmio, enquanto que o valor pago pela seguradora (caso ocorra o sinistro) é chamado de indenização. A franquia é o valor (ou percentual) definido em contrato que representa a participação do segurado nos prejuízos consequentes do sinistro.

Em 1939, o Instituto de Resseguro do Brasil foi criado pelo governo Vargas, com a atribuição de exercer o monopólio (quebrado em 2007) do resseguro no país. O resseguro é o seguro das seguradoras: ele assume o compromisso de indenizar a companhia seguradora pelos danos que possam vir a ocorrer em decorrência de suas apólices de seguro.

Em 1966, surgiu a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), para substituir Departamento Nacional de Seguros Privados e Capitalização como órgão oficial fiscalizador das operações de seguro, estabelecendo-se assim o Sistema Nacional de Seguros Privados.

Para contratação de seguros no Brasil é exigida a intermediação de um corretor de seguros habilitado, que é uma pessoa especializada, com os conhecimentos necessários para orientar o segurado sobre quais seguros contratar, com quais coberturas e com quais limites. O corretor é um representante do segurado e não tem vínculo com as seguradoras, por esta razão, um mesmo corretor é capaz de oferecer seguro de diversas seguradoras.

Em economia, a utilidade, é o grau de rentabilidade ou satisfação que obtemos do uso das coisas. Considerando W o conjunto de todas as alternativas disponíveis, função utilidade é a relação que atribui cada estado Wn a um valor numérico, o que permite ordenar os benefícios percebidos por uma pessoa de acordo com a satisfação que estes lhe trarão.

Um exemplo: quando o gerente de um banco infere sobre o perfil de investidor de um cliente (agressivo, arrojado ou conservador), na verdade, está sendo analisada a função utilidade que caracteriza esse cliente como investidor. A predisposição dos indivíduos de pagar por um prêmio P para evitar a exposição a um determinado risco é representado por um evento incerto X (provido de média e variância). Quanto maior a aversão ao risco, maior o prêmio que o indivíduo está disposto a pagar.

O índice de custo de produção (“Burning-cost”) é um cálculo do setor de seguros sobre as perdas em excesso dividido pelo prêmio total do sujeito. Trata-se de um método de classificação de seguros com base na experiência, comumente usado para as seguradoras quando compram resseguro para se proteger contra o total de sinistros que excedem o total de prêmios cobrados.

O índice de sinistralidade esperada (“expected loss”) é uma técnica usada para determinar a quantidade projetada de sinistros em relação aos prêmios ganhos. É usado quando uma seguradora não possui os dados de ocorrência de sinistros passados adequados para fornecer, devido a alterações em suas ofertas de produto e quando falta uma amostra suficientemente grande de dados para linhas de produtos de cauda longa.

Um déficit (“shortfall”) é um valor pelo qual uma obrigação ou um passivo financeiro excede o montante de caixa disponível. O “Expected Shortfall” é uma medida de risco: um conceito usado no campo da mensuração de risco financeiro para avaliar o risco de mercado ou o risco de crédito de uma carteira.

Seguro rural

Dentre os ramos do seguro rural, estão o seguro agrícola (para culturas permanentes e temporárias), pecuário, florestal e aquícola. As atividades agrícolas são consideradas de alto risco, pois fatores climáticos, biológicos, de logística e de mercado podem promover grandes variações na produção e na renda. Dentre os mecanismos formais privados que visam o compartilhamento do risco, estão os contratos futuros, de opções e também o seguro rural.

Os planos de seguro atualmente comercializados no Brasil cobrem principalmente os riscos associados às intempéries climáticas que determinam prejuízos em termo de produtividade. As indenizações são pagas quando a produtividade obtida for inferior ao nível estabelecido na apólice de seguro, sendo o valor indenizado equivalente à redução de produtividade verificada na colheita.

O valor médio da produtividade considerada pelas seguradoras geralmente é a fornecida pelo IBGE, que desconsidera o nível tecnológico das lavouras que produzem mais. Assim, o valor da indenização acaba sendo menor nos casos das lavouras mais produtivas.

Em alguns casos, a qualidade do produto pode exercer papel fundamental no preço do produto e na receita. Esse fator geralmente é desconsiderado ao tratar das commodities (mercadorias, em inglês): termo utilizado nas transações comerciais de produtos de origem primária nas bolsas de mercadorias (como soja, milho, trigo, etc).

O preço do produto ainda apresenta volatilidade influenciada pelo nível de produção e estoque (geralmente cíclicos e com sazonalidade), taxa de câmbio, preço de insumos, expectativas de mercado, etc.

Estação meteorológica automática junto a pés de laranjeira, na ESALQ/USP. Foto: ViniRoger

Seguro climático

Seguro paramétrico (“parametric insurance”) é um tipo de seguro que não indeniza a perda pura, mas já concorda de antemão em fazer um pagamento na ocorrência de um evento desencadeador. O evento desencadeador é frequentemente um evento natural catastrófico que pode gerar uma perda. Mas os princípios de seguros paramétricos também são aplicados ao seguro agrícola e outros riscos normais que não são da natureza do desastre, se o resultado do risco estiver correlacionado com um parâmetro ou um índice de parâmetros.

O seguro paramétrico de índice climático é voltado a empresas expostas a riscos climáticos. É geralmente demandando pelos setores de energia e do agronegócio, mas inclusive hotéis buscam proteção para eventuais quedas no número de reservas em função de variações no tempo. Dentre os principais índices que impactam a produtividade do agronegócio, estão:

  • Excesso de chuva / Falta de chuva (dias);
  • Calor excessivo / Risco de baixas temperaturas (°C);
  • Falta de variação de temperatura (°C/dias);
  • Índices de vegetação (contra a perda de biomassa).

A cotação envolve identificar os riscos climáticos (através de séries históricas de variáveis meteorológicas), quantificar o valor desses riscos e estruturar uma solução, que nesse caso é a precificação do seguro. Esse preço depende da região, do risco selecionado, do período de contratação, nível de cobertura e valor do risco.

A energia elétrica pode sofrer significativas alterações no preço em função de grandes variações das condições do clima. Agentes do setor de energia, como Geradores e distribuidores, Fundos de Investimento em Energia, Comercializadores e Grandes Consumidores são diretamente afetados, assim como outros setores, como Indústria Têxtil, Construção Civil, Transportes, Agronegócio e Turismo.

O Brasil tem sua matriz energética predominantemente formada por hidrelétricas, cujas vazões dos rios e represamento em reservatórios dependem fortemente do regime de chuva. Outras energias renováveis, como eólica e solar, dependem da intensidade e disponibilidade de ventos e insolação solar, respectivamente. Dentre os principais índices que impactam no fluxo de caixa e na mitigação do risco no Mercado de Energia, estão:

  • Precipitação (mm de chuva, vazão dos rios);
  • Vento (m/s);
  • Temperatura (°C);
  • Irradiação Solar (Wh/m²);
  • Fenômenos Climáticos (índice de anomalia no Oceano Pacifico, índices térmicos de superfície, etc).

A proteção na área de energia hidroelétrica é baseada na vazão dos rios e energia natural afluente, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema (ONS). A cobertura visa mitigar o risco na produção e preço de energia, em função de variações não esperadas nas afluências dos rios que impactem os reservatórios e subsistemas. A estrutura do seguro deve considerar os impactos do modelo atual de planejamento da operação e a sazonalidade das afluências.

No caso da energia eólica: caso os ventos sejam insuficientes para a geração projetada, um seguro pode indenizar o gerador. A proteção pode ser desenvolvida com dados medidos nas turbinas ou observados em instrumentos meteorológicos (locais ou remotos, como satélites).

Para energia solar, o seguro é contra baixa irradiação solar. Seu valor geralmente é obtido através de satélites, sendo que deve ser considarada também a produção dos painéis.

Os derivativos de clima protegem contra outros riscos em que o clima tem grande influência, tal como o risco de declinio da demanda em conseqüência da mudança no tempo e das mudanças de preço que poderiam resultar desta. Por exemplo: um inverno mais quente reduz a demanda de energia para aquecimento, enquanto que um verão mais frio diminui a necessidade de resfriamento de ambientes. Isso impacta diretamente nas atividades e fluxo de caixa das empresas do setor de energia.

Um derivativo é um contrato cujo valor deriva de um outro ativo de mercado, chamado de ativo-objeto. Os derivativos permitem reduzir os riscos inerentes à atividade econômica. O instrumento de derivativos climáticos permite aos usuários “comprar” e “vender” os riscos relacionados ao clima. A área de gestão de risco é uma das que está crescendo mais no setor de energia, principalmente após a liberação e estímulo a competição na indústria de energia.

Fontes