Nuvens, de Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges (1899-1986) foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino. Quando regressou à Argentina em 1921, Borges começou a publicar seus poemas e ensaios em revistas literárias surrealistas. Seus livros mais famosos, Ficciones (1944) e O Aleph (1949), são coletâneas de histórias curtas interligadas por temas comuns: sonhos, labirintos, bibliotecas, religião. Suas obras destacam-se por abordar temáticas como a filosofia (e seus desdobramentos matemáticos), metafísica, mitologia e teologia.

Sua última coletânea de poemas é intitulado “Os Conjurados” – o último poema, que dá nome ao livro, faz referência aos cruzados e heróis suíços, país esse onde chegou a passar parte de sua vida. Além dos outros clássicos elementos de suas obras, o habitante principal de seus versos, tecidos na penumbra, é sem dúvida a morte. A contemplação da natureza é outro elemento muito presente, que se mescla à contemplação da vida face à morte mas sem lamentar: “devemos entrar na morte como quem entra em uma festa”.

Nuvens sobre as montanhas (Ouro Preto/MG). Foto: ViniRoger
Nuvens sobre as montanhas (Ouro Preto/MG). Foto: ViniRoger

Dentre os poemas dessa coletânea, estão “Nuvens I” e “Nuvens II”. Neles, as nuvens são tratadas como uma analogia da própria existência.

Nuvens I
Não haverá uma só coisa que não dê ideia
de uma nuvem. O são as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o templo renderá. O é a Odisseia,
que muda como o mar. Algo há distinto
cada vez que a abrimos. O reflexo
de teu rosto já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também aquilo que está perdido.

Em “Nuvens I”, catedrais (religiosidade materializada) e odisseia (histórias humanas) são comparadas às nuvens no sentido da efemeridade. As nuvens são um estado transitório no ciclo da água. Elas mudam de posição e de formato em questão de minutos, podendo aparecer e crescer ou desaparecer na mesma escala de tempo. Catedrais e histórias podem durar séculos, mas tem uma finitude – de existência, de integridade ou mesmo de finalidade. Tudo mudando e se desfazendo, como as nuvens.

O reflexo do rosto também muda com o passar dos anos, sumindo com a morte. O dia a dia é comparado a um labirinto. Mas qual o significado do labirinto na obra de Borges? No mito clássico do Minotauro, a história começa em uma praia onde, numa noite, a rainha vê no mar um touro branco: o animal sagrado de Creta. Desse encontro nasceu o Minotauro. Quando o rei Minos vê o monstro, contrata Daedalus para fazer um labirinto e escondê-lo. E quem entrava nessa casa jamais saía vivo.

Disso podemos tirar que o Minotauro é uma criatura solitária, perdida em um labirinto. A vida tem suas semelhanças com um labirinto, por momentos de abrigo mas também de prisão. No livro Atlas, Borges dedica a ele um poema, cujo último verso diz: “Este é o labirinto de Creta cujo centro era o Minotauro que Dante imaginou como um homem com cabeça de touro, e em cuja rede de pedra tantas gerações nos perdemos nessa manhã e continuamos perdidos, neste outro labirinto”.

Em outro conto, Borges já tinha comparado o próprio tempo a um labirinto: “O jardim dos caminhos que se bifurcam”. Diz o mesmo livro: “Ts’ui Pên [protagonista da história] acreditava em uma série infinita de tempos, num crescente de tempos divergente e convergente”. E a esses tempos são dadas todas as chances, e eles podem gerar novas situações. O livro é como um jardim cujos caminhos divergem infinitamente. Um labirinto infinito, e misturado ao tempo! (E o pessoal achando que multiverso é novidade da Marvel rsrs)

Em “Os conjurados”, podemos optar entre dois labirintos: o do mundo fechado e absurdo ou o que é uma aventura com um significado final. Isso pode ser observado no poema “O fio da fábula”: “O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este afundasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro (…) Nosso bonito dever é imaginar que há um labirinto e um fio”.

Posteriormente, a nuvem é comparada diretamente com nós humanos, já que ambos se desfazem. A nuvem se desfaz no poente devido à redução de convecção gerada pelo aquecimento solar da superfície, e o ser humano se desfaz com sua morte, quando o sol da vida se põe.

Concluindo, todas as coisas (as rosas, as nuvens, o mar) mudam e serão esquecidas mais cedo ou mais tarde. O que nos resta é como vamos viver nesse labirinto da vida. (Como diria a bruxa do 71, “quando duas almas gêmeas se encontram no labirinto da vida, as palavras nada dizem” rsrs)

Nuvens II
Pelo ar andam plácidas montanhas
ou da sombra de cordilheiras trágicas
que obscurecem o dia. São as mágicas
nuvens. As formas podem ser estranhas.
Shakespeare observou uma. Parecia
um dragão. Essa nuvem de uma tarde
em sua palavra resplandece e arde
e a seguimos vendo todavia.
Que são as nuvens? Uma arquitetura
do azar? Deus, talvez, as necessita
para a execução de Sua infinita
obra e são fios da trama obscura.
Talvez a nuvem seja não menos vã
do que o homem que a olha de manhã.

Em “Nuvens II”, as nuvens que são comparadas com montanhas serenas ou sombrias. E observando bem, até que guardam uma semelhança com montanhas nevadas (nuvens de bom tempo) ou mais escuras (nuvens de tempestade). A questão do poeta em cada um de nós observar padrões em formas aleatórias também foi mencionada, dizendo que pode-se observar o formato de dragão em uma nuvem. Com o laranja e vermelho do sol em um final de tarde, ela pode ganhar uma coloração mais viva e quente – da mesma forma como um poeta coloca emoções ao juntar as palavres.

Novamente as nuvens aqui se prestam à analogia de que tudo passa na vida. Ao falar sobre as nuvens serem uma “arquitetura do azar”, a palavra “azar” está relacionada a aleatoriedade. Ou seja, é levantada a hipótese de que tudo ocorreria aleatoriamente, sem determinismo. No entanto, o sentido da vida pode ser obscuro para nós e claros para Deus, difícil de compreendermos dada Sua infinita sabedoria. Para nós, as nuvens parecem efêmeras, mas conforme a escala de tempo, nossa existência pode ser considerada efêmera também. E qual a importância dela ou da nossa existência para o restante da existência?

No poema seguinte de sua coletânea, “On his blindness”, ele fala sobre “uma insistente neblina de luz”. O escritor começou a ficar cego na infância, devido a uma degeneração genética da retina, herdada do pai. Em 1950, já não conseguia ver, e dependia de parentes e amigos para colocar suas obras no papel.

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