Artigo científico

Ao entrar em contato com a ciência e a área acadêmica, é comum ouvir falar sobre “artigo” (ou também conhecido como o termo em inglês “paper“). Pois saiba que esse tal “artigo científico” é bem diferente de um artigo (texto sobre algum assunto) de jornal ou revista que estamos acostumados a ver (como os da IstoÉ, Folha, Globo, Superinteressante, Scientific American, etc) ou textos da internet.

Textos de divulgação científica são voltados para o público leigo: pessoas que não são dessa área acadêmica, mas que se interessam no tema. Podem ser escritos por jornalistas ou qualquer outro profissional que goste de ciências e saiba se comunicar bem. Já artigos científicos são voltados para a comunidade científica. Eles possuem uma estrutura bem caraterística e aplicam o método científico para sua elaboração, além da “revisão por pares”. Para quem nunca viu um artigo, segue um modelo de artigo científico básico (com normas da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas) para saber o jeitão que ele tem:

O que é método científico?

Intensamente aplicado nas pesquisas para a elaboração de um artigo, o método científico é um conjunto de regras básicas dos procedimentos para se produzir um novo conhecimento, correção ou complementação. Esse gráfico dá uma boa ideia geral de como a Ciência funciona:

Esquema de funcionamento do método científico. fonte: Wikipedia

Interessante notar que “teoria” na ciência não tem o mesmo significado do senso comum, que seria algo que se pode acreditar ou não. Também note que é um ciclo, ou seja, não existe um fim para a geração de novos conhecimentos.

Resumidamente, o método científico é composto dos seguintes elementos:

  • Caracterização – observações (sempre executadas com os mesmos critérios) e quantificações (medidas representadas através de valores numéricos);
  • Hipóteses – Explicações hipotéticas das observações e medidas;
  • Previsões – Deduções lógicas das hipóteses;
  • Experimentos – Testes dos três elementos acima;
  • Observações – sempre executadas com os mesmos critérios, controladas com o objetivo de que seus resultados correspondam à verdade e não a ilusões advindas das deficiências inerentes próprias dos sentidos humanos em obter a realidade;
  • Descrição – o experimento necessita ser replicável (capaz de ser reproduzido);
  • Previsão – as hipóteses precisam ser tidas e declaradas como válidas para observações realizadas no passado, no presente e no futuro;
  • Controle – toda experiência deve ser realizada com técnicas que permitem descartar as variáveis passíveis de mascarar o resultado;
  • Falseabilidade – toda hipótese deve ser passível de teste, para verificar se é falsa ou verdadeira;
  • Explicação das Causas – as causas precisam ser condizentes com as observações, e as correlações entre observações e evidências devem realmente implicar relação de causa efeito (ou seja, uma é a causa de outra, nessa ordem).

Por isso é dado tanto valor quando se fala de algo “cientificamente comprovado”. São tantas etapas e pessoas envolvidas que fica difícil passar alguma coisa errada. Mesmo assim, a ciência não é uma verdade absoluta, podendo haver resultados que não corroborem as teorias e devendo haver uma reconstrução desse conhecimento. Esse mecanismo de auto-regulação da ciência é que a faz evoluir.

“Em todo país, deveríamos ensinar às nossas crianças o método científico e as razões para uma Declaração de Direitos (…) se não praticarmos esses hábitos rigorosos de pensar, não podemos ter a esperança de solucionar os problemas verdadeiramente sérios com que nos defrontamos”

Carl Sagan em seu livro O mundo assombrado pelos demônios

O que é um artigo científico?

Um artigo científico é um documento que contém a descrição de descobertas inéditas (ou uma revisão bibliográfica) na ciência onde está inserido. Contém a descrição do método, análises dos resultados e as conclusões dos autores, baseados nas evidências. Após elaborado, ele deve ser exposto a uma criteriosa avaliação cética por vários membros acadêmicos e cientistas – o que é chamado de “revisão por pares”. Passando por essas etapas, ele poderá ser publicado em uma revista especializada à qual o artigo foi submetido para avaliação.

Após publicado, outros cientistas ainda podem tentar reproduzir seu conteúdo para verificar seus resultados, ampliar o escopo de suas explicações e/ou diminuir sua margem de erro. Se for muitas vezes citado em outros artigos científicos, essa pesquisa ganha prestígio na comumidade científica. Caso seja descoberto algum erro, outros pesquisadores devem fazer outro artigo para refutá-lo, seguindo os mesmos procedimentos – um termo para isso é “retracted”. E assim a ciência vai sendo construída.

Geralmente, o autor publica um artigo associado ao seu orientador (no caso de estudadnte de graduação/iniciação dientífica, mestrado, doutorado ou pós-doutorado) ou em conjunto com outros pesquisadores envolvidos na pesquisa e/ou análise dos resultados (da mesma instituição de pesquisa/ensino e/ou de outras instituições). Somando esforços, é possível juntar mais conhecimento e verbas de pesquisa (geralmente de agências de fomento, como CNPq, Capes, Fapesp, etc) para um melhor resultado.

Como é feito um artigo científico?

Ao estudar determinado tema, você (cientista/pesquisador) encontrou um problema interessante. Primeiramente, deve-se fazer uma revisão bibliográfica para ver se alguém já encontrou uma solução para este problema. Caso ainda não exista solução, você pode elaborar um projeto de pesquisa, que após ser realizado, pode resultar em uma solução adequada. Nesse caso, é preciso divulgar sua descoberta à comunidade acadêmica, para ser discutida e avaliada por outros cientistas.

Eessa divulgação pode ser feitas em congressos científicos (em formato de poster ou apresentação com sldies), que publicam anais com resumos de todos os trabalhos apresentados). No entanto, para realmente ser utilizada por outros pesquisadores, a pesquisa deve ser publicada em um artigo científico.

Primeiro, deve-se escolher o periódico – nome dado à revista que rebe e publica os artigos periodicamente. Existem revistas que são referência em cada área, e que publicam artigos com o mesmo enfoque da pesquisa em questão. Outros aspectos considerados: áreas de trabalho dos membros do comitê editorial, público-alvo da revista, fator de impacto no Journal Citation Reports e classificação Qualis da Capes (ou seja, se aparecer nessas listas, ela é considerada uma revista indexada, sendo possível avaliar sua qualidade com relação às outras, onde considera-se a periodicidade, impacto de suas publicações, etc). Periódicos em inglês costumam ser mais lidos no mundo todo, já que esse virou um “idioma universal” na ciência.

De modo geral, os artigos possuem a seguinte estrutura (apesar de não serem escritos nessa ordem):

  1. Título – deve refletir o tema principal do artigo e ser o menor possível (apesar de alguns terem algumas linhas só de título);
  2. Resumo – texto que apresenta, em poucas frases, a pesquisa e suas conclusões, de modo que até uma pessoa de outra área consiga compreender, em linhas gerais, do que se trata o artigo; também é costume montar uma tradução dele em inglês, chamada de “abstract“;
  3. Introdução – apresenta-se a motivação e importância do estudo a ser apresentado, descrição do problema a ser resolvido, assim como uma revisão bibliográfica do que já foi estudado por outros autores até então e aspectos teóricos importantes para embasar a pesquisa realizada; o último parágrafo apresenta o objetivo do trabalho de forma bem clara;
  4. Materiais e Métodos – define-se o local e condições/controles experimentais, variáveis envolvidas e análise estatística;
  5. Resultados – tabelas são formas concisas de se apresentar valores numéricos, enquanto que gráficos e figuras facilitam a observação dos resultados; deve-se utilizar estatísticas descritivas (médias, desvio padrão e correlações) e inferenciais;
  6. Análise/Discussão – apresentar e interpretar conclusões, comparando os resultados obtidos nessa pesquisa com as hipóteses formuladas e com os resultados obtidos por outros pesquisadores; consideram-se eventuais limitações, confiança quantitativamente estimada nos valores (aplicando-se estatística) e recomendações para pesquisas futuras;
  7. Conclusões – conclusões que têm embasamento nos resultados obtidos;
  8. Agradecimentos – a instituições que forneceram infraestrutura para a pesquisa ser feita e/ou que forneceram os dados, a agências de fomento, a pesquisadores que inspiraram alterações, etc;
  9. Referências Bibliográficas – todos os estudos citados ao longo do trabalho devem ser listados aqui seguindo um padrão, para que possam ser consultados por outras pessoas.

O texto pronto costuma receber o nome de manuscrito (apesar de não ser mais escrito à mão). Quando o manuscrito é submetido à revista, o editor pode o recusar prontamente ou aceitá-lo. Nesse caso, o texto será submetido aos revisores (ou “referees“): grupo de cientistas de alta competência que irão ler e revisar o trabalho submetido. Cada revisor faz sua avaliação individualmente, também buscando na literatura outros trabalhos semelhantes, para evitar plágio e também para comparar resultados conflitantes. Depois, ele pode emitir um parecer de aceitar o manuscrito, ou recomendar alterações/correções/inclusões, ou recusá-lo. O manuscrito volta ao autor, para que tome as providências necessárias. Depois, este volta novamente para os revisores para que confiram se as correções ou inclusões foram devidamente feitas e se as respostas são satisfatórias.

Finalmente, se aceito, o artigo entrará “no prelo”, isto é, na fila para publicação. Hoje em dia, o artigo já está disponível para leitura mesmo nesta etapa, de maneira exclusivamente online. Todo artigo científico tem um DOI (Digital Object Identifier): um número padrão para identificação de documentos em redes de computadores, como a Internet.

Existem sites como o Science Direct, Web of Science ou Google Scholar que permitem fazer buscas em diversos periódicos científicos usando palavras-chave. Boa parte dos períodicos tem acesso pago, mas no Brasil o governo federal paga para que computadores de Universidades ou outros Institutos de Pesquisa (identificados pelo número IP na internet) possam realizar buscas sem se preocupar com pagamentos para ter acesso a um artigo.

Cada pesquisador possui um currículo na Plataforma Lattes, listando todos os seus trabalhos (artigos, livros, palestras, etc). Quanto mais artigos e publicações, e com mais citações por outros trabalhos, melhor é classificado o pesquisador, o que pode resultar em uma progressão funcional e/ou mais verbas para mais pesquisas.

Fontes