A Sonata do Raio

Após ser atingido por um raio, um médico de Oneonta (NY, EUA) tem uma experiência extracorpórea e adquire um novo dom. Parece o surgimento de um super herói de histórias em quadrinhos? Mas isso realmente aconteceu em 1994 com o ortopedista americano Anthony Cicoria ao ser atingido por um raio, ter sobrevivido e ainda adquiriu uma obsessão por ouvir e tocar piano.

Tony Cicoria ao piano. Fonte: arquivo pessoal
Tony Cicoria ao piano. Fonte: arquivo pessoal

O que normalmente acontece quando uma pessoa é atingida por um raio?

O raio é uma descarga elétrica com corrente entre 200 e 300 mil amperes que dura milésimos de segundo e pode gerar temperaturas acima de 50 mil graus Celsius. O raio não precisa necessariamente atingir em cheio para causar danos físicos. O que acontece até com mais frequência é quando ele atinge um objeto próximo que, em vez de encaminhar a corrente para o solo, a faz saltar para uma pessoa próxima, e só então a carga passa através dela para o chão.

Na melhor das hipóteses, a corrente elétrica corre pela superfície do corpo e segue adiante, resultando em queimaduras de segundo grau – principalmente na pele junto a adornos de metal. Caso a corrente flua para dentro do corpo através da cabeça, ela procura uma via de entrada pela orelha, narinas, boca ou órbitas oculares, e daí penetra na medula espinhal.

Muitas funções corporais funcionam por meio de eletricidade, como os músculos ou os nervos cerebrais, e uma forte descarga atrapalha esse sistema. Algumas vítimas tombam ou apresentam problemas cardíacos, já outras sofrem parada cardíaca, necessitando imediata reanimação. Se os músculos são afetados, ficam flácidos e não podem mais ser controlados. A vítima tomba ao chão, fica caída e não consegue se mexer, paralisada.

Até mesmo nervos responsáveis pela percepção de temperatura ou de dor são destruído. O cérebro pode sofrer danos cerebrais que só vão aparecer muito mais tarde. Lesões na cabeça podem evoluir para transtornos de personalidade, com comprometimento da capacidade de concentração, lapsos de memória e dificuldade em fazer associações.

Que raio foi esse?

Como único ortopedista do condado onde morava, Tony Cicoria trabalhava de 12 a 14 horas por dia. Em um fim de semana de agosto de 1994, ele viajou com a mulher e os filhos para Sleepy Hollow Lake (NY, EUA) para participar de uma reunião de família. Enquanto preparava o churrasco, começou a pingar. Mesmo assim, foi até um telefone público para ligar para a mãe.

Um enorme raio de luz saiu do telefone, gerando um estalo muito alto, atingindo-o no rosto e o jogando para trás. “Parecia que eu tinha levado um coice de cavalo e voado para trás”, acrescenta Tony. Ele sofreu queimaduras na face e no pé esquerdo.

Logo após ser atingido pela descarga elétrica, ele também conta que teve uma experiência extracorpórea, achando que havia morrido. Ele chegou a ver seu próprio corpo estendido no chão, com uma senhora ao lado tentando fazer massagem cardíaca. Ele relata que conseguia ver e ouvir as pessoas, mas apesar de suas tentativas, ninguém era capaz de vê-lo ou escutá-lo. Até chegou a entrar em casa como uma bola de energia, atravessar paredes e ver sua esposa com as crianças

Depois, voltou da parada cardíaca que havia sofrido. Quando a polícia chegou, ele ainda estava um pouco desorientado e se recusou a ser levado para o hospital. Voltou para casa, onde se recuperou por duas semanas até voltar ao trabalho.

A obsessão pelo piano

Depois da segunda semana que foi atingido pelo raio, Tony começou a ter uma vontade irresistível de ouvir música de piano. Isso era uma grande mudança, pois não era algo que fazia normalmente. Seu desejo era tão forte que chegou a ir para outra cidade para comprar um CD, que ouvia o dia todo – como se fosse uma droga.

Quando uma das babás de seus filhos pediu para guardar o piano na casa dele, coincidiu que ele havia percebido que não bastava ouvir, mas que ele deveria tocar também. Chegou a comprar partituras e até sonhou com uma melodia que nunca havia escutado – ou seja, já estava até compondo mas não sabia ler/escrever músicas. Aos 42 anos, começou a ter aulas de piano às 5h da manhã – único horário livre. Todo tempo livre investia no piano, até o cansaço vencer por volta de 1h da manhã.

Ainda em 2006, o caso de Cicoria despertou o interesse do neurologista e escritor britânico Oliver Sacks (1933-2015). Tony foi entrevistado e acabou sendo personagem de seu livro “Alucinações Musicais”, em que o neurologista reúne diversos casos clínicos para ilustrar a relação entre o cérebro e a música. Na obra, ele diz que “estavam ocorrendo mudanças nas semanas subsequentes, quando seu cérebro estava se reorganizando — preparando-se, digamos, para a musicofilia.”

Sacks sugeriu para Tony escrever a melodia com que sonhou. A partir deste dia, ele conta que passou “cada minuto livre escrevendo a melodia”. Sete meses depois, nasceu a composição The Lightning Sonata (“A Sonata do Raio”, em tradução livre). Em 2007, foi convidado para fazer seu primeiro concerto.

Dez anos depois do acidente, a mulher pediu o divórcio pois Tony negligenciava muito a vida fora da música. No entanto, depois que colocou a música do sonho no papel, sentiu um certo sentimento de liberdade e chegou a reatar o casamento. Ele ainda toca muito piano, mas não de uma forma tão invasiva em sua vida – agora se ficar um dia sem tocar não vai ser “o fim do mundo” como era.

Em 2008, o Dr. Cicoria lançou um CD de sua música chamado “Notes From An Accidental Pianist and Composer”. Sua canção mais conhecida do álbum é a “The Lightning Sonata”, que pode ser apreciada em seu canal no Youtube:

Especialistas afirmam que esse pode ser um caso de “Síndrome de Savant Adquirida”. A Síndrome de Savant (nome derivado do francês para “sábio”) apresenta pessoas com transtornos do espectro do autismo com habilidades muito desenvolvidas em alguma área. O termo “adquirido” refere-se aos que não nasceram com essa habilidade; em vez disso, desenvolveram essas capacidades por meio de um distúrbio de saúde específico ou incidente físico, como um derrame ou ferimento grave na cabeça.

Fontes

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