O que a arte pode nos contar sobre a atmosfera?

Artistas representaram o céu de maneiras que vão muito além da estética, e suas pinturas podem carregar registros visuais das mudanças atmosféricas de suas épocas. Na palestra “O que a arte pode nos contar sobre a atmosfera?” (28/05/2025), a doutoranda em Meteorologia do IAG-USP, Gabriela Lima da Silva, apresentou como o sistema de classificação de nuvens criado por Luke Howard inspirou representações fiéis do céu, como a Revolução Industrial alterou a paleta de cores de pintores como Monet e Turner, e de que forma grandes erupções vulcânicas influenciaram os tons dramáticos retratados nas telas dos paisagistas. Também foi apresentado como fenômenos atmosféricos raros podem ter inspirado obras icônicas como O Grito, de Edvard Munch, e como a ciência contemporânea, com o uso de tecnologias como machine learning, está investigando pinturas históricas para revelar informações valiosas sobre a atmosfera do passado.

A plaestra foca em pintura europeia, onde há mais trabalhos sobre o assunto, e começa com uma breve história das representações do céu e da atmosfera na arte — algo em que raramente paramos para pensar. Voltando muito no tempo, as representações do céu não eram o foco principal. O céu funcionava como um pano de fundo, e as nuvens serviam para contextualizar cenas maiores, muitas vezes ligadas ao divino. Por exemplo, em um mosaico da Roma Antiga apresentado, as nuvens não são realistas, pois o objetivo do artista não era retratá-las com precisão, mas sim usá-las como símbolo de algo transcendente.

Ao longo da história europeia, essa tendência continua: o céu ganha cores e profundidade, mas ainda como cenário para narrativas bíblicas ou mitológicas. Algumas pinturas, no entanto, capturam fenômenos meteorológicos reais. Em uma obra sueca, por exemplo, são vistos efeitos ópticos como halos e sun dogs ao redor do sol — fenômenos que conhecemos hoje na meteorologia.

A mudança radical ocorreu por volta de 1600, quando os artistas começaram a se afastar de temas religiosos e a buscar representações mais realistas da natureza. Técnicas como o chiaroscuro (contraste de luz e sombra) permitiram retratos mais fiéis das nuvens e da atmosfera. Mas o grande salto veio no final do século XVIII, com as revoluções científica e industrial. Os pintores, muitos deles cientistas amadores, passaram a enxergar o céu não apenas como pano de fundo, mas como um elemento digno de estudo e admiração. Além disso, a Revolução Industrial alterou drasticamente a paisagem e o céu — a poluição trouxe novas cores e tons, inspirando artistas a capturar essas mudanças.

Em 1802, o meteorologista amador Luke Howard propôs o primeiro sistema de classificação de nuvens, usando termos em latim como cirrus, cumulus e stratus. Esse sistema foi popularizado até mesmo por Goethe, que escreveu poemas sobre as nuvens.

O pintor John Constable, um entusiasta da ciência, aplicou esse conhecimento em suas obras. Ele produziu centenas de estudos de céus, buscando capturar nuances meteorológicas com precisão. Algumas de suas obras estão expostas no Museu do Louvre, em Paris. Recentemente, pesquisadores usaram machine learning para analisar suas pinturas e confirmaram que suas nuvens seguem fielmente as classificações de Howard — especialmente os cumulus, com bordas bem definidas (Zhang et al., 2024). Constable era tão metódico que, em uma de suas obras, um arco-íris foi adicionado posteriormente. Um meteorologista conseguiu determinar a data exata em que esse fenômeno ocorreu, revelando que Constable o incluiu no dia da morte de um amigo.

Pinturas de Monet em Londres sob diferentes condições atmosféricas em slide transmitido da palestra
Pinturas de Monet em Londres sob diferentes condições atmosféricas em slide transmitido da palestra

A Revolução Industrial não só mudou a sociedade, mas também o céu. A queima de carvão liberou partículas que dispersavam a luz, criando pores do sol mais avermelhados e céus esbranquiçados. Dois artistas se destacaram ao retratar esses efeitos:

  • J.M.W. Turner: Fascinado pelas mudanças atmosféricas, pintou cenas com névoa intensa e cores vibrantes, muitas vezes associadas à poluição industrial.
  • Claude Monet: Sistematicamente pintava o mesmo local sob diferentes condições de luz e poluição. Estudos mostram que suas obras em dias mais poluídos têm menos contraste e cores mais difusas — um reflexo direto da atmosfera londrina e parisiense da época. Curiosamente, Monet adorava a neblina de Londres. Ele chegava a lamentar quando o céu estava limpo, pois perdia a oportunidade de capturar tons únicos

O estudo de Albright & Peter Huybers (2023) mostra que mudanças estilísticas em seus trabalhos em direção a contornos mais nebulosos e uma paleta de cores mais branca são consistentes com as mudanças ópticas esperadas de maiores concentrações de aerossóis atmosféricos. Esses resultados indicam que as pinturas de Turner e Monet capturam elementos da transformação ambiental atmosférica durante a Revolução Industrial.

Edvard Munch, 1893, The Scream, National Gallery of Norway. Fonte: Wikipedia
Edvard Munch, 1893, The Scream, National Gallery of Norway. Fonte: Wikipedia

Por fim, a plaestra fala sobre uma das pinturas mais enigmáticas envolvendo a atmosfera: O Grito, de Edvard Munch. O céu ondulado e avermelhado gerou debates: seria um efeito da erupção do vulcão Krakatoa (1883) ou algo mais raro? A hipótese mais aceita hoje é que Munch testemunhou nuvens estratosféricas polares (nuvens madre-pérola), fenômenos raros que ocorrem em condições extremamente frias (Fikke, 2017). Essas nuvens criam padrões ondulados e cores intensas no pôr do sol — exatamente como descrito por Munch em suas cartas.

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