Tópicos de História da Meteorologia

Os homens pré-históricos foram lentamente desenvolvendo uma sensibilidade intuitiva com relação às variações da atmosfera. Porém, ao longo da história, os homens foram perdendo grande parte dessa intuição ao se afastar da natureza. Desde os homens primitivos existe a preocupação de entender o tempo e tentar prevê-lo. Com o tempo, começaram a perceber que certos tipos de eventos meteorológicos só aconteciam após a ocorrência de determinados fenômenos.

Já na antiga Babilônia, eram feitas observações meteorológicas e foram notados alguns padrões. Uma placa de barro, datada de 4.000 a.C. e atualmente no Museu de Londres consta a inscrição “Quando um anel circunda o Sol, chuva cai”. Veja a explicação desse e outros ditos populares clicando no link para o artigo sobre Meteorologia popular.

Diz-se que Tales de Mileto, filósofo e matemático grego (640-550 a.C.), monopolizou o mercado do azeite de oliva. Seu conhecimento de meteorologia antecipou-lhe que a colheita seria abundante. Portanto, alugou todos os lagares (local onde se produz azeite) que conseguiu e, chegada a hora, alugou-os, estipulando o preço. Assim, obteve uma grande quantia e demonstrou aos seus algozes que os filósofos podem ganhar dinheiro quando se dispõem. Na mesma época, Anaximandro conceituou o vento como “fluxo de ar” e Parmênides classificou o clima em função da latitude  como tórrido, temperado e frio.

Em 370 a.C., Eudoxo escreveu sobre a existência de uma periodicidade nos fenômenos atmosféricos, já falando em prever o tempo. Aristóteles (384-322 a.C.) foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Seus escritos abrangem diversos assuntos, como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia e a zoologia, sendo visto como um dos fundadores da filosofia ocidental. Escreveu o primeiro tratado de Meteorologia de que se tem notícia: “Meteorológica”.

É interessante observar como algumas pessoas entendiam a natureza naquela época. Em um dos trechos desse tratado, Aristóteles diz que “os fatos tornam claros que os ventos são formados pelo recolhimento gradual de pequenas quantidades de exalação, do mesmo modo que os rios se formam quando a terra é molhada”. Nesse caso, a exalação seria algo como uma “fumaça invisível” que sobe, acumula e forma os ventos. Segundo o grego, exalações são produzidas continuamente pela Terra e podem ser úmidas (ou vaporosas) e secas (ou fumarentas), sendo que suas ações explicariam a maioria dos eventos que ocorrem na atmosfera. Ainda sobre os ventos, afirma que “o vento sopra em volta da Terra porque todo o corpo de ar que envolve a Terra segue o movimento dos céus”.

Imagem do livro "Meteorológica", de Aristóteles, no original em grego (esquerda) e traduzido para o inglês.

Imagem do livro “Meteorológica”, de Aristóteles, no original em grego (esquerda) e traduzido para o inglês.

Na imagem do livro acima, Aristóteles afirma que “o vento produz os mesmos efeitos sobre a nuvem no céu como o mar na costa, de modo que quando há uma calmaria, as nuvens que são deixadas ficam retas e finas no ar”. Também observa que “por alguma razão, um terremoto às vezes acontece quando ocorre um eclipse lunar. Ele acredita que a explicação seja que “o ar fica calmo e o vento volta para dentro da Terra [exalação ao contrário]. E isso causa o terremoto antes do eclipse”.

A Torre dos Ventos em Atenas (Grécia), também conhecida como Horologion de Andrônicos, astrônomo grego. Erguida por volta de 100-50 a.C. para medir o tempo, é uma estrutura de mármore octogonal com 12 metros de altura. Era coberta antigamente por um cata-vento com o desenho de um Tritão, que indicava a direção do vento. No friso, relevos representavam as oito divindades gregas para o vento, segundo sua direção (veja mais no post sobre Rosa dos Ventos).

Foto da Torre dos Ventos atualmente em Atenas, Grécia. Fonte: adaptado de Wikimedia Commons

Foto da Torre dos Ventos atualmente em Atenas, Grécia. Fonte: adaptado de Wikimedia Commons

Na Roma antiga, Plínio compilou dois mil trabalhos de autores gregos para formar uma enciclopédia de ciências naturais, a Historia Naturalis, enquanto que Ptolomeu elaborou o Tetrabiblios, com um resumo de sinais meteorológicos. Da antiguidade até o século XVI, geralmente os fenômenos meteorológicos eram explicados com causas sobrenaturais. No século XV, circulavam panfletos com prognósticos do tempo elaborados segundo as regras da astrologia.

O filósofo francês René Descartes foi autor do Discurso do Método (1637), que era originalmente o prefácio de uma obra que reunia três de seus tratados científicos: A Dióptrica, Os Meteoros e A Geometria. “Les Météores” é importante por ser o primeiro trabalho que tenta colocar o estudo do tempo em bases científicas, incluindo uma explicação do arco-íris. Entretanto, muitas de suas colocações científicas estão erradas, sendo que poderiam ser evitadas se ele tivesse feito algumas experiências simples. Por exemplo, Roger Bacon (monge franciscano inventor da pólvora estável) já havia demonstrado o erro da crença de que a água fervida congela mais rapidamente. No entanto, Descartes aí reivindica ter comprovado, pela experiência, que a água que foi levada ao fogo por algumas horas se congela mais rapidamente do que de outra maneira, e dá a razão: suas partículas que podem ser mais facilmente dobradas são expulsas durante o aquecimento, deixando somente aquelas que são rígidos e facilitarão o congelamento. Após a publicação do Les Météores, a obras de Boyle, Hooke e Halley se encarregaram de contestar e corrigir suas postulações falsas.

Com a invenção do termômetro por Galileu (1590), do barômetro por Torricelli (1644), construção do termômetro de mercúrio (1714) por Fahrenheit e do higrômetro de fio de cabelo humano (1783) inventado por Saussure, as observações meteorológicas passaram a ter um aspecto mais quantitativo e regular, permitindo a instalação de algumas estações meteorológicas na Itália. Veja mais sobre estação e instrumentos meteorológicos clicando nesse link. Os fenômenos naturais começaram a ser explicados a partir de teorias embasadas nos trabalhos científicos de Boyle (1659) sobre pressão e volume, Hadley (1735) sobre a influência da rotação da Terra nos ventos alíseos, Franklin (1752) sobre eletricidade atmosférica e Lavoisier (1783) sobre a composição do ar.

A mais antiga estação meteorológica ainda existente em funcionamento fica em Praga (República Tcheca) no Clementinum College. Em 1752, foi realizada a primeira medição meteorológica. Durante 33 anos foram feitas medições não regulares e feitas por estimativas, então considera-se 1775 como o início da série climatológica. Em Clementinum há dois abrigos meteorológicos – um de madeira e outro de ferro. A temperatura é medida no abrigo de madeira e a umidade do ar é obtida no primeiro andar do lado norte do anexo sul. A caixa de ferro está localizada no telhado plano do anexo leste, onde há uma biblioteca técnica. A quantidade de chuvas e duração da luz do sol também são observados a cada dia.

Estação Meteorológica no prédio do Clementinum College de Praga.

Estação Meteorológica no prédio do Clementinum College de Praga.

Em agosto de 1853 foi realizada em Bruxelas, Bélgica, a primeira conferência Meteorológica Internacional. Em 1873 foi fundada em Viena, Áustria, a Organização Meteorológica Internacional (OMI), com o objetivo de organizar a rede de observações meteorológicas existentes na época, disponibilizar as informações para os países membros. Um importante aspecto da OMI foi o de padronizar as técnicas e horários de observação.

No século XIX, George Merryweather, um médico que notou que as sanguessugas ficavam mais agitadas quando uma tempestade estava se aproximando, usou essa observação para inventar o Previsor de Tormenta. O invento consistia de 12 recipientes de vidro dispostos em um círculo, cada um com uma sanguessuga e um pouco de água. As sanguessugas ficariam alteradas devido ao “estado eletromagnético da atmosfera”, subiriam pelo recipiente de vidro e atingiriam um tubo de metal no topo do vidro, fazendo com que um sino grande no topo do arranjo tocasse. Quanto mais intensamente esse sino tocasse, maior a probabilidade de tempestade. Veja mais no post sobre o chamado Barômetro de Sanguessugas (ou Tempest prognosticator) clicando no link.

A primeira previsão de tempo ocorreu em junho de 1860 na Holanda, que alertou para a possível ocorrência de uma violenta tempestade. Graças à invenção do telégrafo, foi possível a rápida transmissão de informações meteorológicas de várias regiões para a elaboração de cartas sinóticas. No início do século XX, Jacob Bjerknes desenvolve a teoria das frentes frias e quentes na Noruega. A invenção da radiossonda permite investigar com regularidade a alta atmosfera, permitindo desenvolvimento de teorias como a das ondas, formulada por Carl-Gustav Rossby e colaboradores na Universidade de Chicago.

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Em 1922, o trabalho do meteorologista Lewis Fry Richardson rendeu um trabalho sobre previsão de tempo por métodos numéricos. Nesse trabalho, conclui que seria necessário o trabalho de 64 mil pessoas para calcular os vários passos de integração das equações, tamanha a complexidade do problema. Somente com o avanço dos computadores eletrônicos, futuramente foi possível retomar o trabalho. O radar meteorológico foi inventado (veja mais no post sobre radar) e a Meteorologia foi fundamental nas ações da Segunda Guerra Mundial (veja o post sobre a Invasão da Normandia e a importância da Meteorologia).

Em 1960 foi lançado o primeiro satélite meteorológico TIROS I, iniciando a era espacial da meteorologia. Dessa forma, conseguem cobrir todo o globo terrestre, medindo diferentes variáveis meteorológicas em variados intervalos de tempo e resoluções espaciais.

Veja mais (fontes)

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