Nuvem de poeira do Saara chega à América

No final de junho de 2020, os satélites detectaram uma massa de ar seco com areia saindo do deserto do Saara e cobrindo parte do Oceano Atlântico se movendo em direção ao Caribe. Apelidada de “nuvem de poeira Godzilla”, esse fenômeno natural de transporte de partículas sólidas da África para as Américas costuma acontecer anualmente, mas nesse ano foi particularmente intenso. Como se formam essas nuvens de poeira? E por quê foi tão forte dessa vez?

Imagens de Cancun (México) a 17 mil pés de altitude e de Biloxi (EUA). Fonte: Twitter (@Pepiny2k e @Weatheric)
Imagens de Cancun (México) a 17 mil pés de altitude e de Biloxi (EUA). Fonte: Twitter (@Pepiny2k e @Weatheric)

Uma tempestade de areia (ou tempestade de poeira) ocorre quando a umidade relativa do ar é baixa, permitindo a suspensão de partículas sólidas no ar. Essa massa de areia é deslocada por ventos turbulentos e fortes e elevadas do solo até a uma altura considerável. O resultado pode ser a névoa seca (redução de visibilidade), tempestade de areia (ou poeira) e redemoinhos de vento (“dust devils“).

Todos os anos, são transportados por volta de 240 milhões de toneladas de aerossóis do Saara para o Oceano Atlântico (Kaufman et al., 2005), sendo a maior parte composta de areia do deserto. Esse transporte costuma acontecer com maior intensidade entre junho e agosto. Geralmente se desloca em direção ao Oeste sobre o Oceano Atlântico a cada três ou cinco dias, com uma duração menor do que uma semana.

Boa parte do processo de transporte tem origem na depressão do Bodelé: região de baixa altitude localizada no Chade que teria se formado quando o maior lago da África, o mega-lago Chade, secou há cerca de mil anos. Devido ao relevo, formam-se os jatos de baixos níveis de Bodelé, que sopram na direção oeste. Outra região de origem desse material vai do norte do Mali e Mauritânia até o sul da Argélia, mais próxima ao oceano.

Entre dezembro e maio, a Zona de Convergência Intertropical está mais ao sul, ganhando uma importância maior esse outro tipo de transporte para a região amazônica. Além da areia do deserto, queimas de biomassa na região subsaariana ocorrem com maior intensidade entre dezembro e fevereiro, tendo um maior peso no material transportado nesse outro período do ano. As partículas são depositadas pela ação da gravidade, subsidência ou chuva.

Caso ocorra a presença de ventos suaves em certos períodos, isso torna a massa de ar mais propensa a cruzar o Atlântico e percorrer mais de dez mil quilômetros. A camada geralmente tem entre três e cinco quilômetros de espessura, voando a uma altura de um a dois quilômetros da superfície na atmosfera.

Imagem visível da grande pluma marrom clara de poeira saariana sobre o Oceano Atlântico (18/06/2020, satélite Suomi NPP da NASA-NOAA). Fonte: NASA Worldview
Imagem visível da grande pluma marrom clara de poeira saariana sobre o Oceano Atlântico (18/06/2020, satélite Suomi NPP da NASA-NOAA). Fonte: NASA Worldview

À medida que a pluma atravessa o Atlântico, as partículas maiores caem primeiro, deixando as partículas menores para atingir o solo. Cerca de 50 milhões de toneladas de aerossóis do Saara são depositados na Amazônia todos os anos (Kaufman et al., 2005). Nessa massa, estão 22 mil toneladas de fósforo, elemento importante no ciclo biogeoquímico da floresta.

O calor da camada de areia ajuda a estabilizar a atmosfera (quando o ar quente fica acima do ar mais frio e denso), pois o mineral absorve energia solar e aquece a camada de ar, e isso atua contra a formação de tempestades. O calor, a secura e os fortes ventos associados a esta camada de ar saariana também suprimem a formação e intensificação de ciclones e furacões.

Com relação aos impactos nos humanos, o alto teor de partículas e a baixa umidade pode ser nocivo para pessoas com problemas respiratórios, causando alergias e irritações nos olhos. A redução da visibilidade afeta atividades marítimas, assim como pousos e decolagens de aeronaves e outras atividades decorrentes.

Por quê a nuvem de poeira do Saara dessa vez foi mais intensa?

Essa nuvem com quase 8 mil quilômetros de comprimento atingiu um caribe com muita intensidade nos dias 20 e 21, assim como o México (dia 23), a região sul dos Estados Unidos entre Texas e Flórida (dia 24), a região amazônica e alguns países do norte da América do Sul. Houve mudança do céu azul para uma cor cinza-marrom nebulosa em vários pontos do Caribe, com um pôr do sol mais alaranjado e redução de visibilidade. As concentrações de pequenas partículas, conhecidas como PM10, que subiram acima de 400 µg/m³ na estação de pesquisa de Mayol-Bracero, no nordeste de Porto Rico, e a visibilidade foi reduzida para três milhas.

Primeiro frame da simulação do deslocamento da poeira saariana da NASA (a partir do dia 25/06/2020)
Primeiro frame da simulação do deslocamento da poeira saariana da NASA (a partir do dia 25/06/2020)

Isso tudo aconteceu devido à ocorrência de outros fenômenos meteorológicos que, atuando em conjunto e cada um no momento certo, criaram o que é conhecido como “tempestade perfeita” – essa expressão é um calque morfológico (do inglês “perfect storm“) que se refere à situação na qual um evento, em geral não favorável, é drasticamente agravado pela ocorrência de uma rara combinação de circunstâncias, transformando-se um evento bem mais intenso.

Além do levantamento de areia que já existe nessa época do ano no Saara, tempestades que aconteceram nas regiões do golfo da Guiné e da Etiópia/Sudão apresentaram ventos fortes que intensificaram o fenômeno. Além disso, os ventos que vêm de leste (região da península arábica) estavam muito fracos na primeira metade de junho, o que ajudou a acumular a areia em suspensão na atmosfera ainda na região do Saara. Se esses ventos estivessem acontecendo normalmente, as massas de areia teriam sido transportadas em parcelas menores.

Assim, quando os ventos de leste apareceram, houve um transporte muito concentrado de areia do deserto para o Oceano Atlântico. Como as mudanças climáticas estão relacionadas a tempestades mais intensas e períodos de seca maiores, acredita-se que fenômenos como nuvens de poeira mais intensas sejam cada vez mais frequentes.

Fontes