A série islandesa “Katla” (2021) mergulha no gênero do drama misterioso e catástrofe ao explorar as consequências de uma erupção do vulcão subglacial de mesmo nome. O enredo se passa em um cenário pós-apocalíptico local, especificamente na desolada vila de Vik, situada ao sul do glaciar Mýrdalsjökull, que cobre o vulcão. Após mais de um ano de uma erupção contínua que começou em meio a um inverno rigoroso, a cidade está coberta por cinzas vulcânicas, isolada e abandonada por muitos de seus moradores.
Enredo
O mistério central da trama começa quando uma figura enigmática emerge das geleiras próximas, que se identifica como uma mulher que havia trabalhado no hotel da cidade 20 anos antes. Depois, uma mulher coberta de cinzas que se identifica como Ása, uma filha desaparecida da personagem central, a guarda florestal Gríma, que havia sumido sob circunstâncias trágicas e não resolvidas no ano anterior. Outros seres começam a surgir do gelo, cada um se passando por pessoas que se perderam na região sob diferentes contextos.
O conceito nórdico de “changeling” (em islandês, “skiptingur”) é usado como uma poderosa metáfora para explicar a natureza perturbadora dos recém-chegados. No folclore europeu, um changeling é uma criatura das fadas ou troll que é deixada no lugar de um ser humano sequestrado. Na série, os seres que emergem do Katla não são simplesmente os mortos ressuscitados; eles são cópias imperfeitas, possuindo as memórias, as vozes e a aparência das pessoas desaparecidas, mas carregando uma estranheza perturbadora (“uncanny valley”) e motivações que parecem colidir com a vida que seus “originais” levaram.
A narrativa usa essa lenda para questionar a identidade, o luto e o preço de se ter um desejo realizado de forma distorcida. A chegada de cada “changeling” força os moradores a confrontar seus traumas e segredos mais profundos, pois essas entidades não só replicam as pessoas perdidas, mas também parecem manifestar os conflitos e as culpas não resolvidas que estavam enterradas junto com elas.
Vulcão
O vulcão Katla é um dos sistemas vulcânicos mais poderosos e perigosos da Islândia, e a série utiliza esse fato histórico e geológico como base de sua tensão. Sua erupção seria particularmente catastrófica para a cidade de Vik porque o Katla é um vulcão subglacial, coberto por centenas de metros de gelo do glaciar Mýrdalsjökull. Uma erupção prolongada gera calor intenso, que derrete o gelo instantaneamente, causando enormes inundações glaciais (conhecidas como “jökulhlaup”) que varrem a planície com lama, gelo e detritos em direção ao oceano, soterrando Vik e as áreas costeiras.
A história islandesa já registrou eventos semelhantes em erupções passadas do Katla, como as de 1918, 1755 e, de forma mais devastadora, a erupção do sistema Laki, que faz parte do mesmo complexo vulcânico, em 1783. Na ocasião, a erupção do Laki não só causou uma fome terrível na Islândia, matando um quinto da população, como também liberou gases tóxicos e cinzas que alteraram o clima do Hemisfério Norte, causando colheitas fracassadas e fome em continentes distantes. A série especula que o Katla, que historicamente entra em erupção em intervalos de 40 a 80 anos (sua última grande erupção foi em 1918), está em atraso, tornando uma iminente atividade vulcânica uma ameaça constante e realista.
O ambiente é dominado por um céu cinzento e permanente devido à nuvem de cinzas, e a vida em Vik é drasticamente afetada pela direção do vento. Um elemento crucial da trama é o “vento norte”, que sopra das terras altas onde está o vulcão em direção à cidade. Esse vento é responsável por carregar e depositar as finas partículas vulcânicas (tefra) sobre Vik, tornando o ar irrespirável, forçando os moradores a usarem máscaras e criando uma paisagem apocalíptica e sufocante que isola ainda mais a comunidade.

A personagem que centraliza as narrativas é Gríma Þórsdóttir, cuja parte científica envolve a observação de uma estação meteorológica, com digitação dos dados em computador e envio pela internet. Logo no início do primeiro episódio, ela aparece fazendo leituras em uma estação convencional, zerando um termômetro de máxima e lançando um balão com radiossonda.




