Galo do tempo

Provavelmente você já viu um galinho do tempo na casa de alguém e te disseram que era para prever o tempo. Mas como ele funciona? Será que ele consegue realmente dizer se vai chover ou fazer sol?

galinho tempo
Galinho com indicação de umidade em um dia seco (azul) e chuvoso (roxo). Fotos: ViniRoger

História

O galo original é tradicional de Barcelos (Portugal), onde é pintado com várias cores em vez de ser coberto por cloreto de cobalto. Ele está associado à lenda da intervenção milagrosa de um galo morto na prova da inocência de um homem erradamente acusado. Ele afirmou que estava tão certo de sua inocência quanto do galo assado em cima da mesa cantar. Então o galo cantou e sua história ficou imortalizada. Até hoje, é vendido como um típico souvenir de Portugal.

Sobre a criação do galinho, tudo começou com o português José Dias Cardoso em 1950, em Torres Novas, distrito de Santarém, com a criação de um higrômetro para medir a umidade do ar. A invenção constituía-se de uma ripa de madeira de 15 centímetros com uma tela ao meio, que mudava de cor, lembra o empresário.

Por volta de 1960, aconteceram dois fatos marcantes na vida da empresa: a mudança da sede da J. Dias Cardoso para Fetais, conselho de Loures, perto de Lisboa, e a criação do galo “multicolor” pequeno (12 cm), popularmente conhecido como galo do tempo.

Como estratégia de marketing, José Dias fez uma campanha, em 1966, em Lisboa. Comprou uma “carrinha” (furgão) e contratou seis empregadas, que percorreram Lisboa distribuindo o galo pequeno e uma circular na qual explicava que voltariam alguns meses depois para receber o dinheiro ou o produto de volta. A campanha, que se repetiu na cidade do Porto, foi um sucesso, principalmente pela divulgação que aumentou o número de clientes.

O “boom” de vendas aconteceu até a década de 1970, quando a empresa vendia cerca de 60 mil galos por mês, a maior parte para o Brasil e para turistas que visitavam Portugal. Essa explosão de vendas do galo pequeno durou até por volta de 1980. Entre 1980 e 81, José Dias decidiu fabricar o famoso Galo de Barcelos, em nove tamanhos diferentes (tradicional e multicolor).

O produto era patenteado em Portugal, mas não no Brasil. Aí surgiram os imitadores do galo do tempo no Brasil, que não mudava de cor, o que desacreditou o negócio. Em Portugal, o galo pequeno sempre foi muito procurado; continua a vender bem até hoje.

Como funciona?

O galo do tempo é geralmente feito de plástico, coberto por uma camada de um material aveludado em suas asas e cauda e um sal sensível às condições atmosféricas. Nas instruções de um deles, diz:

  • Branco/cinza com temperatura entre 17 e 26°C;
  • Rosa claro com temperatura abaixo dos 15°C e 100% umidade, ou seja, chovendo e frio;
  • Azul: tempo bom e seco com temperatura acima dos 27°C.

A temperatura do ar pode ser medida usando a propriedade que as substâncias, como o mercúrio, possuem de aumentarem de volume de forma proporcional ao aumento da temperatura. Não é o objetivo aqui, sendo que as temperaturas apresentadas apenas indicam o intervalo de funcionamento ótimo.

Para estimar a quantidade de umidade no ar, podemos usar uma substância química diferente, chamada cloreto de cobalto II, e que tem uma propriedade especial: mudar de cor quando entra em contato com a água. Se o tempo estiver seco, o cloreto de cobalto perde água e fica azul. Quando há muita umidade no ar, o cloreto de cobalto se hidrata e fica rosa.

As variações de temperatura também influenciam na mudança de cor: se o tempo esquenta, o galinho fica azul; se esfria, fica rosado. Para entende como ocorre a influência da temperatura nas cores do galinho, considere constante a quantidade de vapor d’água disponível ao seu redor. Se a temperatura do ar aumenta, a umidade relativa do ar diminui, já que esse volume de ar expande e sua capacidade em receber mais vapor d’água aumenta. Assim , a água presente no galinho começa a evaporar para o ambiente, secando o objeto – ou seja, sua cor vai para o azul. Com a redução de temperatura, ocorre o oposto: o ar perde capacidade em reter vapor d’água, mantendo (ou até transferindo) a umidade para o galinho – e sua cor tende para o rosa.

Como essas reações são reversíveis, o galinho pode continuar funcionando por muitos anos. O cloreto de cobalto também é usado junto com bolinhas de sílica gel para indicar se o ambiente no interior de uma caixa ou equipamento está seco – geralmente a condição ideal de conservação. Assim como o galinho, os grânulos ficam azulados se ainda estão secos e avermelhados se já estão úmidos. Para reaproveitá-la, basta aquecê-la no forno ou em uma panela para que a água evapore. Isso pode ser visto no vídeo a seguir:

A solução aquosa de cloreto de cobalto II na superfície do galinho obedece ao seguinte equilíbrio químico:

\(
[CoCl_4]^{2-}_{(aq)} + 6H_2O_{(l)} \leftrightarrow [Co(H_2O)_6]^{2+}_{(aq)} + 4Cl^{1-}_{(aq)}
\)

O íon \([CoCl_4]^{2-}\) apresenta cor azul, sendo que o seu número de coordenação (quantidade de ânions que cercam o cátion no arranjo cristalino) é 4. Já o íon \([Co(H_2O)_6]^{2+}\) tem seu número de coordenação é igual a 6 – ou seja, juntam seis moléculas de água em volta de cada íon de cobalto – e apresenta cor rosa.

Segundo o Princípio de Le Chatelier, esse equilíbrio pode ser deslocado para a direita, deixando o sal rosa, ou para a esquerda, ficando com a cor azul. Conforme comentado, existem dois fatores no caso dos “galinhos do tempo” que podem deslocar o equilíbrio iônico dessa reação, que são:

  1. Mudança de umidade: quando o tempo está seco o sal fica anidro, visto que a quantidade de água na atmosfera é baixa, o equilíbrio se desloca no sentido da reação inversa e o sal fica azul, indicando que o tempo está seco. No entanto, quando o ar está úmido a reação é deslocada no sentido da reação direta, de formação do sal hidratado, que é rosa, indicando tempo úmido.
  2. Variação da temperatura: em dias quentes (temperatura alta) o equilíbrio da reação se desloca no sentido da reação que absorve calor (endotérmica), que, nesse caso, é a inversa, e o galo fica azul. Já em dias frios, a temperatura baixa faz com que o equilíbrio seja deslocado no sentido da reação que libera calor (exotérmica), que, no exemplo considerado aqui é a direta, e o galo fica rosa.

É dito que a cor azul indica tempo “bom” por estar seco e quente; já a cor rosa indica tempo “ruim”, frio e com possibilidade de chuva. Mas pelo que foi visto até agora, note que o galinho não faz uma previsão do tempo. Na verdade, ele apenas indica as condições do tempo presente. É como aquela piada da “pedra da previsão do tempo”.

pedra do tempo
Pedra do tempo.

Desse modo, o galinho do tempo é um bom previsor para a persistência, ou seja, as condições atmosféricas presentes persistem ao longo de um certo período. Isso porque sua aparência está atrelada às condições presentes de temperatura e umidade. No entanto, certas situações de mudança de tempo anteveem precipitação. Por exemplo, é comum que o aumento de umidade ocorra minutos ou horas antes de começar a chuva.

Ao falar de em acertar ou errar uma previsão de tempo, deve-se tomar muito cuidado. Para começo de conversa, deve-se comparar a previsão sempre para um mesmo local, somente variando o dia, por exemplo. O canal Manual do Mundo fez outro vídeo do galinho do tempo, mas agora após cruzar a aparência do galinho pela manhã e a ocorrência ou não de chuva no dia, em um ponto da cidade de São Paulo. O resultado pode ser visto nesse vídeo:

Dentre as observações que são feitas no vídeo, está que o galinho acerto a previsão na grande maioria dos dias (102 dias de 122, 84% das vezes). No entanto, eles começaram a fazer as observações entre junho e dezembro, que tiveram a maior parte dos dias (98 deles) de sol – inclusive, houve uma seca histórica no Sudeste.

Nos 24 dias restantes, teve alguma chuva. Neles, o galinho mudou de cor 6 vezes, o que dá um acerto de apenas 25%. No entanto, desses números também é interessante observar que 75% das vezes que ele mudou de cor, choveu.

Outro ponto importante levantado no vídeo é que o galinho foi inventado em Portugal, que tem um clima frio e chuvoso. Já em São Paulo, existe um um inverno frio e seco e um verão quente e chuvoso. Como o galinho só fica rosa com muita umidade e temperatura abaixo de 15°C, difícil existir um cenário assim no centro expandido de São Paulo por volta de 9h da manhã (horário das observações) – exceto durante a passagem de alguma frente fria, por exemplo. Por isso que foi comentado no vídeo que o galinho nunca chegou a ficar rosa, somente cinza (ou roxo).

Outra questão a ser considerada, e que não foi comentada no vídeo, é a variabilidade intra-dia. Não é porque um dia começou seco que ele vai ficar assim o dia todo. No caso da capital paulista, ainda existe a aproximação da brisa marítima no meio e final da tarde. Isso aumenta muito a umidade e pode até contribuir na formação de tempestades Isso foi muito observado no mês de janeiro, logo após terminarem as observações.

A sequência de mapas a seguir foi feita pelo meteorologista do SAISP Kleber L. Rocha Filho. Ela mostra o aumento da umidade ao longo da tarde do dia 22/01/2022 sobre São Paulo. Os ventos de sudeste, que carregam a umidade do oceano, promovem um aumento da umidade relativa, que começou por volta de 40% na cidade ao meio dia e passou de 90% em todo o território já por volta de 16 horas. De manhã, o galinho daria tempo seco, acusando chuva somente quando já estivesse bem perto do horário de chover.

Conclusão: o galinho do tempo funciona como uma resposta da temperatura e da umidade no ambiente atual. Apesar de não fazer previsões, seu comportamento pode indicar como vai estar o tempo nas próximas horas conhecendo-se o comportamento médio da atmosfera naquela região.

Fontes

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