Vasco da Gama: Volta do Mar e monções

As Grandes Navegações foram expedições marítimas realizadas ao longo dos séculos XV e XVI que permitiram a exploração do Oceano Atlântico. O português Vasco da Gama (1469-1524) foi um dos grandes expoentes da época, quando realizou a primeira grande expedição de Portugal às Índias pelo oceano. Ele comandou a expedição que zarpou em 1497 com duas naus, uma caravela e um navio de transporte de mantimentos.

Mapa com trajetos de ida (Outward Route, vermelho) e volta (Return route, verde) de Vasco da Gama. Fonte: Wikipedia
Mapa com trajetos de ida (Outward Route, vermelho) e volta (Return route, verde) de Vasco da Gama. Fonte: Wikipedia

Bartolomeu Dias havia atingido o Cabo da Boa Esperança, ao sul do continente africano, em 1488. Como navegou perto da costa, apresentaram muita dificuldade na viagem de ida após atravessar a linha do Equador. Isso ocorreu porque o vento e as correntes marítimas giram no sentido anti-horário no Atlântico Sul, e nesse trecho tiveram que navegar contra essa tendência natural de movimento.

As condições meteorológicas são de vital imprtância para a navegação à vela, especialmente o regime de ventos. Esse conhecimento foi incorporado na expedição de Vasco da Gama, levando a um desvio da rota para oeste após passarem por Serra Leoa. Dessa forma, navegaram em mar aberto, mas a favor da corrente e evitando regiões da calmaria, em direção ao Cabo da Boa Esperança. Essa manobra é chamada de Volta do Mar.

Na sequência, os portugueses rumaram em águas desconhecidas para eles ao longo da costa da África Oriental – chamada de Contra Costa. No Canal de Moçambique, também enfretaram a corrente marítima contrária ao deslocamentos deles. Durante os primeiros dias de março de 1498, a frota não encontrava ventos que possibilitasse a navegação em direção norte.

A falta de conhecimento do regime dos ventos e das correntes no canal de Moçambique fez com que a frota permanecesse fundeada durante semanas, envolvendo-se em vários incidentes com navegantes árabes e populações litorâneas. Inclusive, isso os levou à guerra e conquista de Moçambique pelos europeus décadas depois – que ficou como colônia lusitana até a década de 1970.

Em Melinde (atual Quênia), os portugueses contraram dois navegadores indianos (ou árabes), que tinham conhecimento do regime de ventos até as Índias. Apenas em 24 de abril as velas foram enfunadas pelo vento da monção, permitindo o avanço em direção a Índia. Com a ajuda destes ventos monçônicos, em apenas 3 semanas de navegação, aportaram em Calicute (Índia) em 20 de maio de 1498.

O nome monção tem origem na palavra árabe “mausin” que significa estação. Uma de suas principais características é a mudança de direção dos ventos. O mecanismo de formação é uma combinação entre o deslocamento meridional do anticiclone subtropical e a elevação da temperatura da superfície do continente.

No Oceano Índico, próximo ao período maio-agosto, a zona de convergência tropical desloca-se em direção norte, e com a elevação da temperatura da superfície do continente asiático, forma-se uma baixa térmica, reforçando o deslocamento da zona da convergência em direção norte. Como consequência, os ventos de superfície sopram em direção norte ininterruptamente durante meses.

Após vários meses aportado ao longo do litoral indiano, em 24 de Agosto de 1498 levantaram âncoras para regressar a Portugal, quando sua frota foi atingida por vento de terra que lhe era favorável. No entanto, sem os pilotos locais, a navegação em direção sul transcorria muito lentamente e encontraram novamente ventos contrários e com ondas persistentes em outubro.

Às vezes, longas calmarias eram interrompidas por tempestades. Dependendo da temperatura da superfície do mar, ocorre um fluxo de umidade bastante intenso para o continente, provocando chuvas torrenciais com enchentes e enormes prejuízos. Elas foram cantadas pelo poeta Luís de Camões (1524-1580):

Assim dizendo, os ventos que lutavam
Como touros indómitos bramando,
Mais e mais a tormenta acrescentavam
Pela miúda enxárcia assoviando.
Relâmpados medonhos não cessavam,
Feros trovões, que vêm representando
Cair o céu dos eixos sobre a terra,
Consigo os elementos terem guerra.

Durante 3 meses, a armada ficou presa no Oceano Índico. Apenas no início de 1499 puderam navegar rumo ao sul, quando a monção perdeu a força. Voltaram para Portugal em 10 de julho de 1499, sendo que Vasco da Gama chegou somente em 29 de agosto pois havia ficado para trás para sepultar o irmão Paulo da Gama (comandente de outra nau da frota). Pelo relato do diário de bordo de Vasco da Gama, os navegantes árabes tinham pleno conhecimento dos ventos e características das monções muito antes da chegada dos portugueses à região.

Fontes

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