Viaje bem, viaje VASP

A comissária Arlete de Lucca já voou pelas companhias VASP e Transbrasil e atualmente é coordenadora da Escola de Aviação CEAB. Arlete contou aqui histórias da Transbrasil e agora nos fala sobre como foi o processo seletivo, treinamento e a formatura no curso de comissários da VASP.

Um pouco de história da VASP: em 1933, um grupo de empresários e pilotos reuniu-se para criar a Viação Aérea São Paulo, apresentando ao público na sua base do Campo de Marte (São Paulo) seus primeiros aviões, dois Monospar ST-4 ingleses. Os primeiros voos comerciais foram para São José do Rio Preto (com escala em São Carlos) e Uberaba (com escala em Ribeirão Preto). Posteriormente transferiu sua base de operações para Congonhas e estatizada em 1935. Em 1939 a VASP comprou a Aerolloyd Iguassu, pequena empresa de propriedade da Chá Matte Leão, que operava na região sul do país.

A VASP anunciava vagas para comissários. Seguindo um desses anúncios, Arlete se cadastrou, e depois de uma semana foi chamada para participar do processo seletivo. Esse processo envolvia aproximadamente 7 etapas, que contavam com testes escritos, entrevista com psicólogo, uma caminhada pela passarela (para ver o porte ao andar e se estava de acordo com o perfil da profissão) e terminava com uma entrevista com a diretoria no prédio da VASP (Aeroporto de Congonhas).

Era costume das companhias aéreas investir diretamente na formação de sua tripulação. Para isso, possuíam centros de treinamento, como o da VASP, que ficava na Rua Sebastião Pais. O curso durava 8 meses, todos os dias da semana, e recebiam uma ajuda de custo (o equivalente a um salário mínimo atualmente). A ementa possuía matérias teóricas e treino no equipamento da aeronave da companhia (no caso, Vickers Viscount e NAMC YS-11 Samurai). Realizou uma prova teórica escrita, aplicada em um auditório do aeroporto de Congonhas pelo DAC (Departamento de Aviação Civil). Aprovada, foi encaminhada ao HASP (Hospital da Aeronáutica), que ficava na Rua Augusta. Os exames eram muito rigorosos, mas foi aprovada. Assim, recebeu a licença de voo e deveria voar por 15 dias na presença de um checador, que ainda lembra o nome: Bonin.

Ao término do curso, os alunos de comissário faziam uma cerimônia de formatura. No caso da cms. Arlete, foi realizada uma missa na Igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo (muito conhecida pelos grandiosos casamentos de milionários e famosos).

Foto no dia da Missa de Formatura de pilotos e comissários da VASP, em frente à Igreja N. Sra. do Brasil (todos já uniformizados, inclusive com luvas de couro)
Foto no dia da Missa de Formatura de comissários da VASP, em frente à Igreja N. Sra. do Brasil (todos já uniformizados, inclusive com luvas de couro)

Na cerimônia, foi realizada uma missa e também foi lida uma mensagem por um dos colegas para todos os presentes:

“Ser comissário é…
Morar no mundo e passar de vez em quando em casa!! Estar longe dos problemas da terra!! Sonhar mais alto… conhecer novas culturas, lugares e pessoas. Acordar no Sul e dormir no Nordeste… Voar sempre mais alto!! Sair dessa rotina… Ter estado ontem em Santiago, hoje em Buenos Aires, amanhã em São Paulo, depois de amanhã em casa. E sentir saudades… daquelas poltronas lotadas de gente, até das ‘turbulências’, onde tudo para e os olhares arregalados só focam os seus movimentos.
Ter bom senso e confiança, ser equilibrado, sério, gentil. Ao mesmo tempo, ser médico, psicólogo, pai, neto, amigo, até central de informações. ‘Saber sempre separar a razão do coração’ no momento de uma emergência… Sorrir quando se tem vontade de chorar… Poder chegar ao final de um voo e receber de volta o sorriso de cada pessoa durante a despedida no desembarque… Deixar do lado de fora as nossas particularidades, fazer tudo para realizar o sonho daquela pessoa, quem sabe é a primeira vez?!?! Ouvir que sua empresa é uma porcaria e ainda assim ter pique para sorrir enquanto seu coração dói… Isso… É ter amor ao que faz.”

Cms. Arlete trabalhando dentro de um BAC 1-11 - repare nos "bagageiros" (fingers) abertos (um perigo no caso de turbulência!)
Cms. Arlete trabalhando dentro de um BAC 1-11 – repare nos “bagageiros” (fingers) abertos (um perigo no caso de turbulência!)

O BAC 1-11 (foto acima, conhecido com “one eleven“)  é um avião a jato de curto alcance desenvolvido pela Hunting Aircraft e produzido pela British Aircraft Corporation (BAC) após a Hunting ter se fundido com outras empresas britânicas em 1960. O 1-11 foi desenvolvido para substituir o modelo a turbo-hélices Vickers Viscount nas rotas da British European Airways (BEA) e outras operadoras. Foi o segundo avião a jato de carreira a entrar em serviço (o francês Sud Aviation Caravelle foi o primeiro), muito utilizado desde o início da década de 1960 até sua aposentadoria na década de 1990, devido a restrições de ruído.

Também trabalho no Boeing 727, um avião para 120 passageiro (ou mais, conforme disposição das poltronas) com galley¹ central. Ele tem uma particularidade bem interessante. Caso o trem de pouso não possa ser  acionado a partir da cabine de comando (elétrica ou mecanicamente), o comissário deve acioná-lo manualmente: retira-se o carpete na região da aeronave próxima ao trem de pouso (na frente dos passageiros), abre-se uma tampa e deve-se puxar uma alavanca que libera o trem de pouso, que, ao cair, deverá travar-se devido ao próprio peso (tinha um visor com espelho para conferir a situação). Outra curiosidade é a escada escamoteável localizada na cauda da aeronave.

O Boeing 737 (modelo de avião comercial mais vendido da história) também possui escada escamoteável, que pode ser visto na foto abaixo. Internamente, existe um botão para ligar/desligar e armar. Para o desembarque, a escada sai da fuselagem na horizontal e segue até um ponto onde deve abrir e descer uma parte da escada para tocar o chão. Veja o procedimento neste vídeo. Depois, o comissário deve puxar uma barra do interior da escada, ligá-la em uma trava presa à fuselagem e travar o corrimão em toda sua extensão. Deve repetir o procedimento inversamente para guardar a escada.

Boeing 737 - destaque para a escada e o uniforme das comissárias
Boeing 737 – destaque para a escada e o uniforme das comissárias. O estilista Clodovil (1937-2009) foi responsável pelo uniforme dos tripulantes da Vasp por dez anos, a partir de 1963.

No início da década de 1990, a VASP foi privatizada. Seu novo presidente, Wagner Canhedo, iniciou uma agressiva expansão internacional: Ásia, Estados Unidos, Europa e até mesmo o Marrocos entraram no mapa da empresa. Aproveitou a quebra do monopólio para voos internacionais da Varig e também começou a fazer voos utilizando o conceito de tarifas de baixo custo. Aumentou a frota, trazendo entre outros três DC-10-30 e depois nove MD-11. Criou o VASP Air System, após adquirir o controle acionário do Lloyd Aéreo Boliviano, Ecuatoriana de Aviación e da argentina Transportes Aéreos Neuquén. A VASP parou de voar no final de janeiro de 2005, quando o DAC cassou sua autorização de operação após deixar de pagar obrigações, salários, leasings e até taxas de navegação.

Turma de formandos de comissário e pilotos da VASP
Turma de formandos de comissário e pilotos da VASP

Alguns comerciais fizeram história, como aquele de 1976, em que foca na comissária, e aquele dos anos 80 (“céu azul, leste ou oeste, norte ou sul…”). Esse post contou um pouco sobre a VASP e a vida da comissária Arlete. Veja mais sobre aviação na categoria do link.

1 – GALLEY – Local onde são embarcadas e armazenadas a comida e as bebidas que serão servidas durante o voo. Na galley também encontram-se os fornos elétricos para aquecer as refeições, caixas de gelo, copos descartáveis, trolleys e todo material necessário para a execução do serviço de bordo. Fonte: Blog No Ar

Saiba mais: Na era dourada da aviação, serviço de bordo no Brasil já foi campeão (UOL, 06/07/2012)