Clima e línguas

Dos mais de 7 mil idiomas e dialetos existentes no mundo atualmente, quase 30% estão concentradas apenas em três países: Papua Nova Guiné (851 línguas diferentes), Indonésia (mais de 700 línguas) e Nigéria (525). Em comum, todos estão na região de clima tropical, e isso não é uma coincidência.

Distribuição de línguas com tom complexo (pontos vermelhos) e sem tom complexo (pontos azuis) - sombreamento mais escuro no mapa corresponde a valores mais baixos deumidade do ar. Fonte: Everett et al. (2015)
Distribuição de línguas com tom complexo (pontos vermelhos) e sem tom complexo (pontos azuis) – sombreamento mais escuro no mapa corresponde a valores mais baixos deumidade do ar. Fonte: Everett et al. (2015)

A maior diversidade linguística encontrada no mundo está nas regiões mais próximas à linha do Equador, tais como África Equatorial sudeste asiático e partes do pacífico. Isso é semelhante ao que na ecologia é chamado de Regra de Rapoport. Nela, a ideia é de que existe uma maior riqueza de espécies nos trópicos do que nas regiões temperadas e polares do planeta.

Para produzir um som, o pulmão é pressionado para soltar um bloco de ar. Dependendo do modo que a boca mexe ao sair o ar e como as cordas vocais são vibradas, são gerados diferentes sons.

As características climáticas e geográficas de uma região influenciam diretamente a maneira como as pessoas falam e produzem os sons. Isso faz com que as línguas sejam diferentes umas das outras em termos de sonoridade e características acústicas.

Por exemplo: em regiões onde a umidade no ar é menor (ar mais seco), as cordas vocais ficam também mais secas e acabam precisando de mais pressão do pulmão. Essa pressão extra influencia diretamente a entonação da língua e é percebida pelo nosso cérebro como parte fundamental dessa língua.

Por isso que as línguas com sistema de entonação complexo (como o mandarim, na China, e o punjabi, do norte da Índia) se concentram mais em regiões onde a umidade do ar não é tão baixa. Nessas línguas, a pressão exercida pelo pulmão é crucial na compreensão das palavras, podendo mudar completamente o sentido. Por exemplo, “kee ma” dito com intonação baixa significa “gostar de andar a cavalo” mas “keé maá” dito com entonação mais alta é “gosto de cocô de cachorro”.

Essa adaptação da linguagem ao clima não é uma característica só humana. Outras espécies também adaptam suas formas de se comunicar conforme as condições climáticas de onde estão. Quando um inseto quer se comunicar, ele libera substâncias químicas no ar, como feromônio. Essas substâncias devem chegar no outro inseto, que capta a mensagem. Algumas dessas substâncias evaporam mais facilmente em regiões de clima mais quente. Adaptativamente, tiveram que desenvolver substâncias mais resistentes ao clima mais quente. Pensando nisso como um inseto originário de clima frio, é como se desenvolvesse um dialeto para esse outro clima.

Falar uma língua nada mais é que emitir sons com a sua boca e esperar que a outra pessoa reconheça esses barulhos e saiba qual objeto real no mundo esse som se refere.

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