A impressionante nuvem rolo

A nuvem rolo (“roll cloud” em inglês) é um fenômeno meteorológico relativamente raro e que chama muita atenção quando ocorre, devido ao seu formato tubular e bem definido – parece que está “rolando” na horizontal. Ela pode atingir até 1.000 km de comprimento e de 1 a 2 km de largura, deslocando-se a velocidades de até 60 km/h com sua base uma altura entre 100 e 200 metros.

Nuvem rolo em Peruíbe/SP. Foto: Márcio Ribeiro/Arquivo Pessoal
Nuvem rolo em Peruíbe/SP. Foto: Márcio Ribeiro/Arquivo Pessoal

Ainda não há um consenso sobre sua formação, sendo a teoria mais aceita atualmente de que acontece quando há o choque de ventos em direções contrárias, com temperaturas, umidade e altitudes específicas, soprando de forma contínua. Podem durar várias horas e desfazem-se com o aumento da temperatura à medida que o Sol se eleva ou quando atinge o continente, devido ao ar mais seco.

Devido ao seu processo de formação, elas costumam aparecer associadas a fenômenos com encontro de massas de ar com temperatura e umidade bem contrastantes, como frentes frias e regiões litorâneas.

Tecnicamente, a nuvem rolo é definida como a espécie volutus, que está relacionada com os gêneros Altocumulus e Stratocumulus. Ou seja, pode ser uma Altocumulus volutus (formada mais alta e menos alongada) ou Stratocumulus volutus (mais baixa e mais alongada). Essa espécie foi oficialmente incluída no Atlas Internacional de Nuvens em 2017 – veja mais no post Oficina de Identificação de Nuvens.

Morning Glory

Na Austrália, é popularmente conhecida como “Morning Glory” (Glória da Manhã), sendo mais observada no golfo de Carpentária, devido ao formato da costa. Ocorrem com certa regularidade no período de setembro a novembro, atraindo turistas para a cidade de Burketown, como pilotos de planadores. Os aborígenes australianos já registravam este tipo de evento em suas histórias tribais, sendo chamada kangólgi.

Morning Glory vista de um avião. Fonte: Wikipedia
Morning Glory vista de um avião. Fonte: Wikipedia

Dentre os fenômenos meteorológicos mais marcantes na região durante sua formação estão as circulações de mesoescala, associadas às brisas marinhas que se desenvolvem sobre a península e o golfo, os sistemas frontais que cruzam a Austrália central e a alta pressão no norte da Austrália. Quando uma forte brisa do mar sopra no dia anterior, existe um aumento forte aumento da umidade, sendo um sinal de formação da nuvem. Detalhadamente, uma das teorias do que acontece é a seguinte:

Mapa da região. Fonte: Adaptado de Google Maps
Mapa da região. Fonte: Adaptado de Google Maps
  1. O Cabo York, que é a península que fica a leste do golfo, é grande o suficiente para que a brisa do mar se desenvolva em ambos os lados, assim, durante o dia, a brisa da costa do Mar de Coral sopra do leste e a brisa do golfo sopra do oeste;
  2. As duas brisas se encontram no meio da península, forçando o ar a subir ali e formar uma linha de nuvens sobre a espinha da península;
  3. Quando a noite chega, o ar esfria e desce, enquanto uma inversão de superfície (onde a temperatura do ar aumenta com a altura) se forma sobre o golfo, formando uma camada estável com densidades de ar diferentes acima e abaixo da inversão;
  4. O ar que desce da península para o leste passa por baixo da camada de inversão e isso gera uma série de ondas (ou cilindros rolantes) que viajam através do golfo;
  5. Esses cilindros de ar rolam ao longo da parte inferior da camada de inversão, de modo que o ar sobe na frente da onda e afunda na retaguarda;
  6. No início da manhã, o ar está saturado o suficiente para que o ar que sobe na frente produza uma nuvem, que forma a borda dianteira do cilindro, e evapora na parte de trás, formando o rolo;
  7. A nuvem dura até que a inversão da superfície desapareça com o aquecimento do dia.

Note que, devido à série de ondas formadas no fluxo de ar, podem surgir várias nuvens paralelas entre si. Elas podem ser vistas da superfície, voando nas proximidades ou em imagens de satélite.

Ocorrências no Brasil

A nuvem rolo tem ocorrência rara no Brasil também, tendo a maioria de seus relatos no litoral do Sul e Sudeste. A umidade do oceano e a passagem de frentes frias estão por trás da formação do fenômeno. Aqui vão alguns episódios documentados no país, com vídeos e matérias:

Essa ocorrência de setembro de 2020 estava associada à passagem de uma frente fria no Sul e Sudeste do Brasil, com atmosfera turbulenta e um forte contraste entre uma massa de ar seca e quente no sudeste e úmida e fria no sul. Uma banda de nuvens formou-se no litoral até mar aberto, sendo registrada no litoral de todos os estados entre Santa Catarina e Espírito Santo.

Imagens do satélite GOES-16 do dia 12/09/2020 mostrando trem de nuvens entre Iguape e Cananeia. Fonte: NASA
Imagens do satélite GOES-16 do dia 12/09/2020 mostrando trem de nuvens entre Iguape e Cananeia. Fonte: NASA

Uma série com 17 nuvens rolo em paralelo pode ser vista em imagens de satélite sobre o litoral de São Paulo – a primeira com mais de mil quilômetros! Uma sequência de imagens de satélite mostra a nuvem rolo atingindo o litoral nesse link do RAMMB.

Nuvens rotor

Apesar de semelhantes visualmente, a nuvem rotor tem um processo de formação diferente da nuvem rolo. A nuvem rotor é uma manifestação visível das ondulações de fluxo de ar atmosférico, conhecidas como ondas estacionárias. A forma mais comum destas são as ondas orográficas – na verdade ondas de gravidade internas da atmosfera.

Em 1933, dois pilotos de planador alemães perceberam mudanças periódicas de pressão atmosférica, temperatura e altura ortométrica em um fluxo laminar de ar, causadas por uma perturbação vertical quando o vento sopra sobre uma montanha ou platô. A perturbação orográfica força um movimento ondulatório a sotavento, de forma análoga à ondulação produzida na superfície da água em corredeiras.

Normalmente um vórtice horizontal turbulento é gerado logo após a baixada da primeira ondulação, o chamado rotor. Se houver umidade suficiente na massa de ar e um deslocamento vertical suficiente para resfriá-la ao ponto de orvalho, pode-se formar a nuvem rotor. Costuma ser uma nuvem do tipo Cumulus fractus. Pode apresentar um pileus acima da montanha ou da nuvem Cumulus que a gerou.

Tais nuvens estão em processo contínuo de formação e dissipação, ou seja, se mantêm em uma posição mais ou menos estacionária em relação à perturbação orográfica que gerou a onda – sem se deslocar a sotavento, como ocorreria com outras nuvens levadas pelo vento.

Fontes

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