Vigorexia – Síndrome de Adônis

por Maria Auxiliadora Roggério

Um carro é uma máquina que se destina a uma função. Para desempenhá-la com eficiência, precisa de condições ideais: é preciso abastecer de combustível, lubrificar engrenagens, manter níveis adequados de água, o óleo deve ser o apropriado para cada tipo de motor, manutenções periódicas, revisões programadas… O tanque de combustível tem uma capacidade que não pode ser ultrapassada ou mantida em níveis muito baixos. Se não for respeitado o limite de ocupantes e observada a carga máxima a ser transportada, problemas na suspensão, gastos irregulares nos pneus podem ocorrer. E por aí vai.

Porém, distorções sempre acontecem: vez ou outra excedemos a quantidade de ocupantes em nosso carro; viajamos com bagagem demais; demoramos a trocar o óleo vencido; utilizamos combustível de má qualidade, geralmente sem saber, o que compromete o sistema de alimentação e danifica o motor; procrastinamos manutenções e revisões… Ou seja, aumentamos o desgaste e, consequentemente, reduzimos a vida útil do nosso carro. Uma luzinha no painel nos avisa de alguma anomalia e temos a oportunidade de efetuar o reparo. Mas…Ok. Quando tudo estiver muito ruim, podemos trocar por um carro novo.

Se pensarmos no corpo humano também como uma máquina, sabemos que, para funcionar necessita de alimentos, de água, de cuidados variados. Como um mantra, todos já ouvimos que para ter um corpo saudável, um corpo ideal, é preciso de alimentação e hidratação adequadas, atividade física constante e regularidade do sono.

Na medida do possível, todos tentamos beber bastante água, servir-nos de alimentos naturais, exercitar o corpo e dormir bem. Boa parte de nós visita dentistas e médicos regularmente para efetuar “manutenções periódicas”. Outros esquecem que nosso “tanque de combustível” também tem limites e constantemente o desrespeitam em termos quantitativos e/ou qualitativos, ou permanecem sem “abastecer” por demorados intervalos de tempo. Tanto o excesso quanto a escassez do que ingerimos, ou a inadequação dos alimentos, pobres em nutrientes, podem levar ao desgaste precoce do corpo como um todo, gerando distúrbios funcionais, comportamentais, psicológicos.

A qualidade do sono é importante porque é durante o sono que ocorrem o fortalecimento do sistema imunológico; secreção de hormônios; regulação do metabolismo; o processo de consolidação da memória. Noites mal dormidas interferem no cotidiano dos relacionamentos profissionais, sociais e familiares, acarretam estresse, ansiedade, complicações cardiovasculares e outras doenças.

A atividade física é recomendada para a vida toda; exercícios diários, respeitando-se limites pessoais, para a obtenção de um bom condicionamento físico capaz de contribuir na promoção da saúde em geral e, quem sabe, na longevidade com boa qualidade de vida.

A visão que cada pessoa tem a respeito de como se alimentar e se exercitar passa por determinantes culturais e sociais. Em algumas culturas, a base da alimentação é essencialmente peixes, noutras, são as massas ou carnes, ou vegetais e frutas, etc. A ancestralidade é, inicialmente, um determinante na escolha dos alimentos.

Em busca de adequação individual, criamos nossa rotina alimentar modificando hábitos e preferências adquiridos nos ambientes familiares e sociais. As escolhas de nossos avós ou as comidas da moda e as preferências orientadas por resultados de estudos (alimentos bons, que se tornaram vilões e foram excluídos e que retornam triunfantes como excelentes, como ovo, abacate, etc; as sementes; os super grãos…) por si só, não garantem ou prejudicam nossa saúde, no entanto, podem refletir em nossa constituição corpórea a ponto de gerar insatisfações indutoras de doenças, como exemplo, os transtornos alimentares (obesidade, anorexia, bulimia).

A morte de Adonis, por Giuseppe Mazzuoli (1709). Fonte: Wikipedia
A morte de Adonis, por Giuseppe Mazzuoli (1709). Fonte: Wikipedia

A obsessão pelo corpo idealizado pela sociedade de consumo em massa leva à utilização indiscriminada de suplementos, dietas restritivas, inadequadas e extremamente prejudiciais.

Se, para ter saúde deve-se levar em conta o trinômio alimentação adequada/sono regular/atividade física, não se pode esquecer a genética, a hereditariedade, fatores ambientais, familiares e psicológicos, contexto sociocultural.

O corpo humano possui um sistema de autorregulação que funciona bem em condições ideais e que nos avisa quando algo não está bom. A luzinha no painel, ou melhor, sintomas como dor ou febre surgem sinalizando que o corpo foi muito exigido e devemos investigar a origem e reparar os danos. É bem verdade que o corpo humano é bastante resiliente e deve ser mais resistente do que um carro. Diante das consequências de nossa negligência nos cuidados com um ou com o outro, demoraremos mais tempo para notar seus efeitos negativos em nosso corpo do que no carro e, ao contrário da solução proposta anteriormente, não podemos trocar nosso corpo por um novo.

No pain no gain

Não é de hoje que se sabe da importância de cuidar da alimentação e do corpo, e dedicar-se aos exercícios físicos é altamente benéfico. Porém, já há alguns anos, estes cuidados têm sido exagerados, ocorrendo de modo descontrolado e compulsivo.

“Tem que correr, tem que suar, tem que malhar (vamos lá!)
Musculação, respiração, ar no pulmão (vamos lá!)
Tem que esticar, tem que dobrar, tem que encaixar (vamos lá!)
Um, dois e três, é sem parar, mais uma vez
(Verão chegando) Quem não se endireitar não tem lugar ao sol (…)”

trecho de Estrelar, canção de 1983 de Marcos Valle

As pessoas acreditam que, para conquistar um objetivo, precisam trabalhar muito e arduamente. Depende. Cada objetivo envolve um planejamento e dedicação, mas conta com a potencialidade de quem tem o plano, todas as variáveis contextuais e a viabilidade do projeto. Então, ter como meta um corpo escultural, semelhante à modelos famosos jamais se cumprirá, mesmo com todas as dietas, exercícios físicos e cirurgias plásticas que puder realizar, pois cada um tem um biotipo específico e suas limitações. Ainda assim, há pessoas que ultrapassam todas as fronteiras sem se dar conta do quão prejudicial esse comportamento pode ser.

A ideia de que é preciso sofrer para vencer, para conseguir atingir algum status, remonta à expressão American way of life. Esta cultura cresceu com o advento da sociedade de consumo em massa a partir dos Estados Unidos da América com esse estilo de vida que tinha como ideário exacerbar o nacionalismo, o liberalismo, o consumismo e a valorização do poder aquisitivo do povo norte-americano. Surgiu para fazer esquecer os horrores cometidos nas guerras mundiais. Pela TV, filmes e propagandas, foram sendo divulgados padrões de comportamento, de vida e de beleza construindo uma imagem de uma sociedade feliz, perfeita e igualitária, na qual havia fartura de alimentos e de bens materiais (como TV e automóveis, cobiçados por todos), tempo livre para compras e lazer. Esse estilo de vida só foi possível nos EUA, graças ao poderio bélico e superioridade tecnológica desenvolvidos no pós guerras, mas serviu de referência aos países capitalistas. Entretanto, nestes países, a maioria da população não tinha outra alternativa para imitar os norte-americanos senão endividar-se para conseguir adquirir bens de consumo e, supostamente, a felicidade.

Essa cultura lançava a premissa de que, qualquer pessoa, independente de seu histórico de vida, poderia ter uma boa vida no futuro se agisse com determinação, habilidade e trabalho duro. No início, como instrumento de controle, a intenção foi eliminar tudo o que pudesse desviar os homens do trabalho por meio de práticas austeras e comportamentos disciplinados. A retidão era marcada pela submissão religiosa, a racionalidade e a responsabilidade individual pelo desenvolvimento econômico, sendo o normal, obedecer e produzir. A competitividade e a vontade de ser sempre o melhor, de vencer, eram vistas como qualidades inerentes ao processo e o êxito obtido, como uma prova da eficiência do “eu”, através da autodisciplina. Na sociedade de consumo em massa da cultura pós-moderna, quanto mais se consumia e ostentava, mais sucesso aparentavam.

Consumir gera satisfação, não somente pelo que se está consumindo, mas pelo próprio ato de consumo. A negação do corpo que permitiu a ascensão da burguesia foi substituída por cuidado do corpo (ideais de um corpo jovem, belo e alterado em suas formas originais conforme o desejo de cada um), este agora transformado em objeto de consumo, fonte de uma satisfação ilusória, resultado de grande sacrifício. O investimento exagerado na aparência, principalmente na aparência do corpo, na contemporaneidade, nos mostra que vivemos o tempo não do trabalho e de consumir bens para o corpo, mas o tempo de consumo do próprio corpo e, nesse sentido, a Vigorexia pode ser um sintoma, uma resposta do indivíduo às demandas culturais, um mal-estar como oposição à ordem social internalizada.

Vigorexia ou Síndrome de Adônis ¹

A Vigorexia caracteriza-se pela percepção distorcida da autoimagem corporal e a busca incessante de um corpo musculoso, definido através de práticas específicas que, invariavelmente, acarretam riscos à saúde. Os critérios para diagnóstico ainda não foram bem definidos, porém, alguns autores classificam a Vigorexia como Transtorno Dismórfico Muscular, uma manifestação clínica do Transtorno Dismórfico Corporal. As causas seriam genéticas, a influência da mídia e cobranças sociais; a maior incidência de casos é entre indivíduos do sexo masculino. É, também, considerada uma manifestação do Transtorno Obsessivo-Compulsivo, tanto pela obsessão por musculatura quanto pela compulsão aos exercícios físicos.

Perseguir um corpo idealizado, leva uma pessoa a cometer atitudes insanas: além dos disparates na área alimentar para conseguir magreza extrema, estão os excessos cometidos em busca de corpos perfeitos e belos (seja lá o que quer que venham a ser consideradas a perfeição e a beleza). Estar insatisfeito com a aparência e buscar por mudanças, não é um problema; pensar somente em melhorar a aparência, custe o que custar, não é nada saudável. A obsessão por um corpo imaginado leva a compulsão por exercícios físicos extenuantes.

A academia de musculação é como um lugar sagrado, um templo de culto narcísico do corpo; um lugar no qual é preciso disciplina para realizar um trabalho no corpo, mas, mais do que isso, um lugar para mostrar-se, olhar e ser olhado, contemplar a si mesmo e o corpo do outro através dos inúmeros espelhos estrategicamente posicionados. Os indivíduos se identificam na imagem corporal. As características corporais e as manipulações e intervenções sobre o corpo surgem como sinais de identidade; uma identidade social que se reduz às características corporais. Um interesse pelo corpo direcionado ao olhar do outro.

O indivíduo não precisa de um corpo musculoso, delineado, em que procura “definir” partes específicas (abdome, peitorais, glúteos, etc.) com processos artificiais, ginásticas direcionadas com aparelhos, uso de suplementos e de drogas para aumento de massa/tônus muscular e variadas dietas, mas sua subjetividade cada vez mais está marcada pela necessidade de “esculpir” compulsivamente seu próprio corpo. A tentativa de vencer a angústia por não estar com o corpo desejado conduz a um comportamento obsessivo-compulsivo sintomatológico da vigorexia.

Um indivíduo com sintomas vigoréxicos quer um “corpo sarado”, que seria livre de doença, bonito. Modificar os traços que julga imperfeitos equivaleria, então, a livrar-se da feiura, de um corpo que lhe parece doente. Contudo, o prazer ao final de uma série de exercícios não traz satisfação genuína, por isso continua a ser buscado, alimentando o caráter autodestrutivo de sua satisfação. Alienando-se em relação ao próprio corpo, o espírito e o ego tornam-se enfraquecidos.

Sinais, sintomas e consequências

Os mais evidentes são: dores musculares, ritmo cardíaco alterado mesmo quando em repouso, cansaço, tremores, inapetência, insônia, queda no desempenho sexual, irritabilidade, ansiedade, depressão.

Alguns comportamentos podem ser indicativos de que um processo de vigorexia está em andamento:

O indivíduo passa muito tempo na academia de ginástica em práticas exaustivas, excessivas e inadequadas de exercícios físicos, motivado pela preocupação exagerada com o corpo e a performance. Treina mesmo estando cansado ou machucado. Tem imagem negativa de si mesmo acreditando ser magro, fraco, pequeno e disforme. Preocupa-se demasiadamente em não conseguir comparecer ao treino ou em não conseguir finalizar a série. Necessita manter com rigor um plano de exercícios e dieta restritiva, lançando mão de suplementos alimentares/proteicos e do uso de hormônios esteroides anabolizantes. Não se interessa por outras atividades que não o treino intensivo e, em suas conversas, os assuntos giram em torno de termos relacionados ao seu propósito, como ganho/perda de gordura/massa magra, suplementos, calorias, índices glicêmicos, treinos, equipamentos, etc. Está constantemente relatando seu desempenho e tem o hábito de se comparar com os outros. Olha-se repetitivamente no espelho para certificar-se de algum progresso obtido e massagear seu ego. Envergonha-se por acreditar que não tem um corpo forte, musculoso e, insatisfeito, angustia-se.

Os problemas ocasionados pelo uso frequente de esteroides anabolizantes são insuficiência renal ou hepática, problemas circulatórios, ansiedade, depressão, diminuição dos testículos – o que pode levar à infertilidade masculina -, câncer de próstata.

A obsessão pela beleza física também pode provocar timidez, vergonha exagerada do corpo, sentimentos de inferioridade/baixa autoestima, insegurança social, fobias, sentimentos de culpa.

A insatisfação entre a imagem real e a imagem idealizada é uma condição humana; todos discordamos disso ou daquilo em nosso corpo, gostaríamos de mudar algo e, ocasionalmente, promovemos alguma mudança. O indivíduo com sintomas vigoréxicos, ao contrário, não consegue perceber a imagem corporal real e vive em perseguição de um corpo imaginado.


¹ A Vigorexia também é conhecida como Síndrome de Adônis (aparentemente, apenas para atender à necessidade de mais uma classificação/nomeação do fenômeno, para explicação/entendimento). Adônis foi um caçador – filho do rei Cíniras, de Pafos –, dotado de incomparável beleza e formas perfeitas as quais despertavam admiração de deuses e de homens. Contudo, para Adônis, “o que lhe alegrava era o vigor de sua compleição física perfeita, a rapidez de seus pés, o poder de seus braços, a velocidade de seus alvos certeiros, pois o jovem tinha paixão pela caça e era um caçador sem igual.” (LANG, J., 2002, p. 224).

Ainda que se considerem as mais variadas narrativas mitológicas acerca de Adônis, na apresentação de Jean Lang, Adônis se contentava com o vigor de sua perfeição e desempenho físicos, mas sua paixão era a caça. E, não, o próprio corpo.

De forma análoga, seguindo essa linha mitológica explicativa, talvez, também, se pudesse nomear ou renomear a Vigorexia como Síndrome Narcísica. Diz o mito: Narciso, após uma caçada, aproximou-se de uma fonte para aplacar a sua sede quando deparou-se com o rosto de uma criatura que lhe pareceu encantadoramente bela. Sentiu alegria e notou que a criatura (talvez, uma ninfa, pensou) também partilhava da mesma alegria. Tentava alcançá-la e beijá-la e sentia-se correspondido até que a água fria em seus lábios o desapontava. Esperava a água aquietar-se para novamente poder ver aquela linda criatura que o olhava com tanta adoração e desejo. Permaneceu dias e noites contemplando apaixonado a própria imagem refletida, com enorme sofrimento por viver um amor irrealizado, até que mergulhou na água da fonte para alcançá-la, e sua alma desceu ao reino de Plutão. (LANG, J., 2002).

Em Kohut (apud Zimerman, D., 2001), pacientes que sofrem de algum transtorno do narcisismo podem, entre quatro possibilidades, mostrar-se como personalidade faminta por gemelaridade, isto é, têm a necessidade de encontrar alguém parecido com ele, como um gêmeo, para poder confirmar a existência e aceitação do seu próprio self.

Referências bibliográficas

  • LANG, J. Mitos Universais – Mitos e Lendas dos Povos Europeus – trad. Vilma Maria da Silva; São Paulo : Landy, 2002.
  • ZIMERMAN, DAVID – Vocabulário contemporâneo de psicanálise/David Zimerman – Porto Alegre : ARTMED Editora, 2001, p. 279.
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