Trapoeraba

A trapoeraba, também conhecida como capoeraba ou olho-de-santa-luzia, é uma planta conhecida pelos agricultores por ser uma das ervas daninha mais difíceis de se eliminar. No entanto, ela apresenta belas flores com forte tom azul que nascem toda manhã e se recolhem antes do meio-dia, além de ser uma Planta Alimentícia Não Convencional (PANC).

Flores de trapoeraba. Foto: ViniRoger
Flores de trapoeraba. Foto: ViniRoger

Descrição

Ela pertence à família Commelinaceae, que está representada no Brasil por 14 gêneros nativos. O gênero Commelina sp, algumas de suas principais espécies são:

  • benghalensis – de folhas largo-ovaladas, apresenta a bráctea espatácea fechada apenas na base e laterais (simulando um barco) e as flores apresentam as 2 pétalas maiores afastadas entre si e a terceira com coloração diferente;
  • diffusa – apresenta a bráctea espatácea conivente, ou seja, com as margens fortemente encostadas, mas não soldadas, e as flores com as 3 pétalas iguais no tamanho, e a terceira diferindo-se apenas no formato;
  • erecta – bráctea espatácea fechada no dorso e as flores apresentam as 2 pétalas maiores bem encostadas, e a terceira muito reduzida;
  • obliqua – diferencia-se da diffusa pela bráctea espatácea menor e pela pétala ventral alvo-transparente.

Da mesma família ainda existem a trapoerabinha (Murdannia nudiflora), a trapoeraba-branca (Tradescantia fluminensis) e a trapoeraba-rosa (Tripogandra diuretica), com flores mais diferenciadas.

Em comum, todas são ervas anuais ou perenes com caules carnosos, eretos ou prostrados e radicantes ao longo dos nós, com folhas simples com bainha fechada e flores trímeras azuis protegidas por brácteas. Apresenta folhas lanceoladas ou lineares, verdes, macias e de margens arroxeadas, onduladas e com cílios brancos. As hastes são eretas a ascendentes e facilmente enraízam quando os nós tocam o solo.

A propagação se dá por meio de fragmentação do rizoma, fragmentação do caule aéreo e algumas vezes por sementes. Apresenta fruto do tipo capsular e pode atingir até 40 cm de altura. Ela pode resistir a longos períodos de seca, caso segmentos das suas ramificações sejam deixados no solo. Desta forma, a trapoeraba permanece em estado de “dormência” até que as condições ambientais se tornem favoráveis ao seu desenvolvimento, período em que ela rebrotará.

Agricultura e paisagismo

É uma planta muito rústica e resistente, nascendo espontâneamente em locais geralmente destinados à culturas agrícolas. Desse modo, costuma competir por recursos (luz, água e nutrientes) e por espaço com outras plantas, reduzindo a produtividade da lavoura. Como possuem alto teor de água no caule e se espalham muito, também afetam negativamente a colheita de grãos. Tolerante ao glifosato, costuma-se usar outros herbicidas para seu controle.

Realizando-se o manejo e controle eficiente da sua presença, é possível mantê-la com efeitos paisagísticos. Adequada para a formação de maciços e renques junto a muros, também é uma opção para cobrir o solo em torno do tronco das árvores e em vasos. As folhas delgadas e flores cor azul royal chamam a atenção no período da manhã. Fornece néctar e pólen durante todo o ano para abelhas nativas, cumprindo importante papel ecológico.

Alimentação

As PANCs são plantas que podemos consumir mas que não são produzidas em grande escala. Muitas delas até eram frequentemente consumidas mas caíram no esquecimento – globalização e latifundiais de monocultura têm pelo menos um dedo de culpa nessa história. Essas espécies vegetais costumam ser mais resistentes (muitas delas nascem espontaneamente) e apresentam necessidades sazonais distintas das culturas mais tradicionais, sendo viáveis na agricultura local. Às vezes, até certas partes das plantas convencionais são comestíveis mas a maioria da população acaba por descartá-las.

Outra vantagem é que, devido a sua maior resistência e cultivo em horta, são dispensados os venenos e adubos químicos. Usar as PANCs na alimentação traz vários dos nutrientes que o nosso organismo precisa e ainda amplia o repertório de gostos, ajudando a criar novas receitas. Algumas tem um gosto mais amargo, assim como algumas verduras mais tradicionais, que não é o caso da trapoeraba.

Uma das formas de se consumir a trapoeraba é in natura, através de saladas ou sucos. Também pode ser cozida ou refogada. O sabor da trapoeraba remete ao ora-pro-nobis, mas de forma mais suave e com menos baba. Na panela, amacia rapidamente e possuem um aroma muito bom. Depois de cozida, pode virar bolinhos, fritadas, suflês, ingrediente para pães e tortas, refogados, ensopados, preparada com arroz e no cozimento de omeletes. As flores também podem ser consumidas “in natura” em saladas ou utilizadas para decorar pratos.

É rica em proteínas, fibras e sais minerais como ferro, cálcio, magnésio e zinco. Possui ação anti-inflamatória e antirreumática. Em forma de chá, na medicina popular, é usada para evitar retenção de líquidos, eliminar toxinas do organismo e na prevenção do envelhecimento precoce – para fazer o chá, deve-se ferver a água junto com as folhas (caule e flores podem entrar também) e deixar mais uns 15 minutos no abafamento, para que o chá ganhe sabor.

Seu consumo é amparado por uma série de pesquisas científicas, que indica não só a segurança de seu uso, mas suas propriedades nutricionais. Isso desde que cultivada em local não contaminado. Assim como outros vegetais, apresenta substâncias que não são digeridas pelo organismo humano, sendo naturalmente eliminadas pela urina. Dentre elas, estão o oxalato (ou ácido oxálico) e o fitato, que quando consumidos em excesso, podem contribuir para a formação de pedras nos rins e atrapalhar na absorção de minerais como cálcio, zinco e magnésio.

Assim, uma sugestão geral é que ela seja consumida com moderação – como grande parte dos alimentos, principalmente os industrializados. O cozimento, o remolho (deixar o alimento de molho em água por umas horas) ou deixar os vegetais em uma salmoura ácida são procedimentos que diminuem o teor de ácido oxálico dos alimentos.

Fontes

  • Mato no prato – Trapoeraba
  • Manual de Identificação de Plantas Infestantes, de Henrique José da Costa Moreira e Horlandezan Belirdes Nippes Bragança (2011)
  • Plantas alimentícias não-convencionais da região metropolitana de Porto Alegre, de Valdely Ferreira Kinupp
  • Oliveira, A. P., & Naozuka, J. (2021). Iron species and proteins distribution in unconventional food plants. Brazilian Journal of Food Technology, 24, e2020294. https://doi.org/10.1590/1981-6723.29420
  • Agropos – Trapoerabas
  • Guia prático sobre PANCs: plantas alimentícias não convencionais, coordenação de Guilherme Reis Ranieri
  • Tua Saúde – Alimentos ricos em oxalatos
  • Nutritotal – O que são fitatos?
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