Tempestades de poeira no interior de São Paulo

Na tarde de 26 de setembro de 2021, uma tempestade de poeira atingiu a região de Ribeirão Preto, atingindo outras cidades do norte de São Paulo e do Triângulo Mineiro. Em 1º de outubro, uma nova tempestade de areia de grandes proporções voltou a se formar sobre o norte do estado de São Paulo, na região de Morro Agudo. Até as regiões de Goiânia/GO e de Campo Grande/MS tiveram tempestades assim.

Tempestade de poeira/areia (habub) em Franca/SP em 26/09/2021. Fonte: Clima ao vivo
Tempestade de poeira/areia (habub) em Franca/SP em 26/09/2021. Fonte: Clima ao vivo

Uma tempestade de poeira (ou de areia) surge quando o vento forte (podendo ser uma rajada) sopra partículas de uma superfície seca, transportando as partículas em suspensão para outros lugares. É formada por uma grande massa de partículas de poeira, ou areia que é deslocada por ventos turbulentos e fortes e elevadas do solo até a uma altura considerável. A quantidade de material no ar reduz consideravelmente a quantidade de luz do sol que chega em superfície e o fenômeno pode durar vários dias, seguindo para várias regiões.

À medida que aumenta a força da poeira que passa sobre as partículas frouxamente retidas no solo, as partículas de poeira começam a vibrar e depois a se mover pela superfície em um processo chamado de saltação. Conforme eles batem repetidamente no solo, eles se soltam e quebram partículas menores de poeira que começam a se mover em suspensão. Em velocidades de vento acima da que causa a suspensão do menor, haverá uma população de grãos de poeira movendo-se por saltação, entrando em suspensão na atmosfera e fluindo para outras regiões.

São comuns em regiões desérticas, como o Saara, Oriente Médio, Austrália e Ásia Central, onde grandes diferenças de temperatura podem fortalecer os ventos e arrancar partículas do solo exposto e seco. Inclusive uma das dez pragas do Egito na Bíblia poderia estar relacionada a uma tempestade de areia:

O Senhor disse a Moisés: “Estenda a mão para o céu, e trevas cobrirão o Egito, trevas tais que poderão ser apalpadas”. Moisés estendeu a mão para o céu, e por três dias houve densas trevas em todo o Egito. Ninguém pôde ver ninguém, nem sair do seu lugar durante três dias. Todavia, todos os israelitas tinham luz nos locais em que habitavam.
Êxodo 10:21-23

Quando muito intensa, popularmente é chamada de habub (do árabe “destruidor/que vagueia”). Uma muralha de areia e poeira é formada, podendo chegar a 100 quilômetros de largura e a vários quilômetros de altura. Em seu momento mais forte, os ventos do habub viajam a 35 a 100 quilômetros por hora, vindo com pouco ou nenhum aviso.

Algumas vezes, as tempestades de poeira são acompanhadas por redemoinhos de vento (dust devils). Eles são formados quando o solo se aquece em determinado ponto e o ar sofre rápida elevação, subindo em espiral e criando um mini centro de baixa pressão. Pode carregar junto a poeira e até o fogo de uma queimada.

Algumas práticas agrícolas inadequadas também contribuem para as tempestades de areia. O Dust Bowl foi uma sequência de tempestades que ocorreu na década de 1930 nos Estados Unidos devido a uma seca severa e uma falha na aplicação de métodos de cultivo de sequeiro para prevenir a erosão eólica. A região possuía vegetação natural que suportava longas estiagens, e ainda segurava a terra no lugar e gerava umidade, ajudando nas precipitações em períodos chuvosos.

Milhares de americanos, para escaparem da crise de 1929, receberam títulos para plantarem trigo, milho, cevada e outras gramíneas na região. Assim, a capa de vegetação natural foi retirada para o plantio e deixou a terra sem proteção. Com a primeira estiagem, as culturas morreram e deram lugar à terra nua, sem umidade e prolongando a seca mais do que o normal. O resultado foi as tempestades de areia constantes, alterando ainda mais o clima existente na região, inclusive chegando a Chicago, Washington, Nova York e até Boston.

Os prejuízos agrícolas e econômicos devastaram as Grandes Planícies. No final da década de 1930, um grande projeto recuperou boa parte da vegetação natural, e a condição voltou ao normal tempos depois. No caso do interior paulista, áreas dedicadas ao cultivo de cana-de-açúcar passam por queimadas em seu processo de manejo. Nessa ocasião, o solo estava exposto, sem cobertura vegetal nativa ou lavoura.

Quando o vento forte sopra sobre o solo, ocorre a erosão eólica. A erosão é um dos grandes problemas ambientais do mundo atual, que tem como consequência o assoreamento e a contaminação de rios, perda da capacidade produtiva, desequilíbrios nos ecossistemas e redução do sequestro de carbono pelo solo, agravando o aquecimento global.

O que aconteceu?

O termo “tempestade de areia” para os eventos do Brasil apresenta uma inconsistência pedológica, considerando que os sedimentos transportados pelo vento neste caso não são predominantemente partículas de areia, e sim de argila e silte, predominantes nos solos da região, menores que a areia e portanto mais fáceis de serem transportados.

As tempestades de poeira tendem a se formar mais na época em que o solo está mais seco e arenoso (final da estação seca) e quando existem fortes ventos vindos com a aproximação de frentes frias e formação das primeiras tempestades de primavera.

Em Ribeirão Preto, a tempestade de poeira foi provocado pela frente de rajada, causada por uma instabilidade que se deslocava em direção à região. De acordo com informações do aeroporto, as rajadas de vento chegaram a 92 km/h e umidade relativa do ar ficou em apenas 19%.

Em 1º de outubro, pancadas de chuva fortes e intensas rajadas de vento entre 70 e 100 km/h em vários locais do centro, norte e oeste de São Paulo. A ventania se deu após uma frente fria vinda do sul ter encontrado uma massa de ar quente na região, o que gerou instabilidade.

Os ventos fortes suspenderam e carregaram a poeira do solo na região, que vem de um período de baixa umidade e estiagem. Segundo o Monitor de Secas, da ANA (Agência Nacional de Águas), o noroeste de São Paulo vive seca excepcional, a mais intensa em sua classificação.

Mapa do monitor de secas. Fonte: ANA
Mapa do monitor de secas. Fonte: ANA

Seis pessoas morreram em São Paulo em decorrência da tempestade de poeira: um pescador de Presidente Epitácio, cujo barco acabou à deriva e virou; um construtor de Araçatuba, que sofreu um traumatismo craniano ao ser atingido por uma árvore que caiu durante o temporal enquanto transitava de moto; um construtor de Tupã, atingido por uma parede que desabou com os fortes ventos da tempestade; três pessoas em Santo Antônio do Aracanguá, cuja ventania alastrou um incêndio.

Em Goiânia, uma rajada de vento chegou aos 98 km/h dia 1º. Em Campo Grande, o aeroporto registrou uma rajada de 65 km/h na mesma data. Na mensagem codificada da informação horária (METAR) das condições meteorológicas do aeroporto de Goiânia, o indicativo de tempestade de poeira aparece como SS (sand storm, em inglês) – TSRA indica chuva (RA) e trovoada (TS), enquanto que HZ, que aparece em Campo Grande, é névoa seca (haze):

Goiânia: SPECI SBGO 011934Z 05035G53KT (05065G98KMH) 8000 2000SE -TSRA SS SCT045 SCT050CB 24/15 Q1012
Campo Grande: METAR SBCG 012000Z 18023G35KT (18043G65KMH) 100V250 1000 R06/P2000 R24/2000 HZ SS FEW025 FEW045TCU SCT100 28/18 Q1008

Atualização: dia 15 de outubro do mesmo ano, Campo Grande/MS foi novamente atinginda por outra tempestade de poeira. Passageiros de uma aeronave da Azul, que decolou do aeroporto da cidade por volta das 14h45, fizeram o registro do avanço da tempestade sobre a cidade – veja também o vídeo do Clima ao Vivo com o dia virando noite.

Será que esse fenômeno pode se repetir?

Não só vai se repetir como vai acontecer com maior frequência e intensidade. É uma consequência das mudanças climáticas na região, o que vem sendo observado nas últimas décadas. Um menor transporte de umidade da amazônia e a mudança de uso no solo aumentam os períodos de seca.

Tudo começa com uma seca meteorológica, quando a precipitação observada é abaixo da média e as temperaturas são mais elevadas (favorecendo a evaporação). Persistindo, inicia-se a seca agrícola: o solo começa a ficar ressecado (necessitando mais irrigação, caso haja água disponível) e as plantas começam a apresentar stress, ficando murchas e reduzindo as colheitas.

Com a seca se prolongando, os rios perdem seus volumes e podem até secar. Essa é a chamada seca hidrológica, afetando a vida selvagem, abastecimento humano e geração de energia hidroelétrica.

Fontes

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