O raio negro de Manifest

Um voo aparentemente normal sofre um incidente e fenômenos aparentemente sobrenaturais começam a acontecer com os passageiros em terra. Pode parecer um resumo do seriado “Lost” (2004-2010), mas também vale para o outro seriado “Manifest: o Mistério do Voo 828”. Foram produzidas três temporadas pela NBC, entre 2018 e 2021. Após o cancelamento de novas produções, a Netflix resgatou a série para uma quarta e última temporada de 20 episódios, dividida em duas partes.

Cartaz de Manifest: "Solve the mystery, save the passengers". Fonte: Divulgação
Cartaz de Manifest: “Solve the mystery, save the passengers”. Fonte: Divulgação

Curiosidade: fora da série, uma notícia de 1989 (e que ainda corre pela internet) falava de um avião da companhia Santiago que teria saído com o voo 513, na Alemanha Oriental em 1954, mas que teria sumido em pleno voo e pousado em Porto Alegre (RS) somente em 1989, com 92 esqueletos a bordo. Essa é uma notícia falsa publicada pelo jornal “Weekly World News”, um tablóide dos Estados Unidos famoso por suas histórias fictícias, muitas vezes baseadas em temas sobrenaturais ou paranormais, e uma abordagem que beirava o satírico. Veja mais no site e-farsas.

Resumo (sem spoilers)

Uma forte turbulência com raios atinge o voo 828 da Montego Air, começando e terminando de maneira misteriosa e sem previsão. Após três horas de voo da Jamaica para Nova York, o avião aterrissa em segurança. No entanto, todos descobrem que se passaram mais de cinco anos depois de sua partida. Todos que estavam no voo, que foram considerados mortos, agora deveriam se reencaixar na vida que que seguiu sem eles.

Dentre os passageiros, estavam Ben Stone e seu filho Cal, que deixaram em solo a mulher Grace e a filha (gêmea) Olive. Ben estava também acompanhado da irmã, Michaela, detetive policial e envolvida emocionalmente com o parceiro de profissão Jared Vasquez – que não esteve no voo. Juntos com a pesquisadora da área médica (e tripulante do voo 828) Saanvi Bahl, eles se dedicam a estudar estranhos “chamados” e visões que acometem os passageiros.

Os chamados aparecem como a própria voz da pessoa, em mensagens curtas, instruindo ações benéficas que devem ser executadas por elas. Cada um reage de um jeito a esse novo “poder” e o governo fica interessado em conhecer melhor o fenômeno a todo custo, gerando atritos entre todos os envolvidos.

O que teria causado esse lapso temporal? (alguns spoilers)

No episódio S01E11 “Contrail” (Rastros), uma investigação promovida pelo piloto do voo 828, Bill Daly, junto com Ben Stone dão algumas pistas sobre o fenômeno que teria causado toda essa situação. O capitão realizou em simulador o voo dezenas de vezes para tentar entender o que tinha acontecido desde então. No entanto, as condições atmosféricas utilizadas eram de um cenário genérico de tempestade severa.

Bill e Ben se encontram com um meteorologista, Roger Mencin, que estava realizando pesquisas de campo próximas da região e tinha dados meteorológicos completos para simular um cenário bem mais próximo ao que realmente aconteceu. Ele suspeita que raios negros contribuíram para o desaparecimento do voo, mas foi coagido ao silêncio antes que pudesse compartilhar suas opiniões publicamente.

Acreditando que ele pode provar que não foi o culpado pelos ocorridos, Bill sequestra Fiona Clarke, cientista do voo 828 envolvida nos Sistemas Dinâmicos Unificados e no projeto Singularidade, que trabalhava com neurônios-espelho. Ele acredita que a cientista participaria de uma conspiração. Bill pilota um avião roubado e Fiona em outra tempestade escura. A Guarda Nacional Aérea afirma que o avião foi abatido, mas a mídia relata que nenhum destroço foi recuperado.

Cena em que o avião desaparece nas nuvens, perseguido por dois caças (acima), e imagem de radar desse momento
Cena em que o avião desaparece nas nuvens, perseguido por dois caças (acima), e imagem de radar desse momento

Interessante notar que, em terra, observa-se um forte brilho na região das nuvens onde o avião teria sido abatido ou viajado no tempo. Um dos produtores executivos da série é Robert Zemeckis, que escreveu e dirigiu a trilogia “De Volta para o Futuro“. Nela, as máquinas que viajam no tempo também somem com um brilho, deixando um rastro de fogo atrás. E em mais de uma vez, a energia de um raio foi responsável por fazer possível essa viagem no tempo.

Um raio pode ser escuro/negro?

Um raio é uma descarga elétrica gerada pelo acúmulo de cargas. Ele pode acontecer com nuvens Cumulonimbus devido à ocorrência de granizo e fortes correntes ascendentes e descendentes, que geram regiões com uma diferença de potecial suficiente para romper o isolamento elétrico do ar. A descarga provoca uma corrente elétrica de grande intensidade que ioniza o ar ao longo do seu percurso, criando um plasma sobreaquecido que emite radiação eletromagnética, parte da qual sob a forma de luz.

Além de luz, pode ocorrer emissão e energia eletromagnética em outras frequências. Junto com os raios luminosos, disparos de raio-X e até mesmo de raios gama podem ocorrer em pelo menos uma vez a cada mil raios, segundo Joesph Dwyer, um pesquisador de raios do Instituto de Tecnologia da Flórida (EUA). Esse tipo de raios emitidos de alta frequência e invisíveis a olho nu foi batizadao com raio escuro (“dark lightning”) ou raio negro.

O que gera um raio escuro?

Os raios gama terrestres são conhecidos tecnicamente pela sigla em inglês TGF (“Terrestrial Gamma ray Flashes”). Algumas estimativas apontam que partículas individuais em um TGF podem ultrapassar a marca de 20 mega-eletrons volt (MeV). Para se ter uma ideia, as coloridas auroras que ocorrem devido ao choque das partículas solares na alta atmosfera não chegam a 1 milésimo dessa energia.

As primeiras observações de TGFs aconteceu com base nos dados de missões espaciais que observam os raios gama vindos do espaço profundo, como o Observatório Compton, que descobriu os TGFs em 1994. Na ocasião, o observatório detectou flashes de raios gama com origem na atmosfera terrestre.

Acima das tempestades, poderosos campos elétricos gerados pela tormenta geram disparos para o alto, muitos quilômetros acima da atmosfera superior. Estes campos elétricos aceleram os elétrons livres próximos à velocidade da luz, que quando colidem com as moléculas de ar produzem raios gama de alta energia e também mais elétrons, criando uma verdadeira cascata de colisões e talvez mais TGFs. Esse fenômeno é conhecido como “relativistic runaway electron avalanche” (RREA).

Produção hipotética de TGF acima de uma nuvem de tempestade impulsionada por campos em decomposição após uma grande descarga atmosférica, mas que pode ocorrer nas proximidades ou dentro da nuvem (adaptado de Wikipedia)
Produção hipotética de TGF acima de uma nuvem de tempestade impulsionada por campos em decomposição após uma grande descarga atmosférica, mas que pode ocorrer nas proximidades ou dentro da nuvem (adaptado de Wikipedia)

A tensão necessária para ionizar o ar e gerar uma centelha de TGF é cerca de 10 vezes maior do que a tipicamente encontradas dentro das nuvens de tempestades. Especula-se que elétrons super-rápidos acelerados após serem atingidos por raios cósmicos possam ter uma participação também. No entanto, seu principal mecanismo de desencadeamento ainda não foi totalmente compreendido.

Algumas das estruturas teóricas utilizadas vieram de outras descargas associadas a raios, como sprites, jatos azuis e elfos, que foram descobertos nos anos imediatamente anteriores às primeiras observações do TGF. Esses fenômenos visuais são clarões decorrentes da excitação das moléculas do ar por elétrons acelerados pelos campos elétricos associados aos raios. Eles podem aparecer no topo de nuvens de tempestade, por isso somente são observados a grandes distâncias, geralmente a partir do topo de montanhas.

Representação de fenômenos envolvendo eletricidade atmosférica. Fonte: Wikipedia
Representação de fenômenos envolvendo eletricidade atmosférica. Fonte: Wikipedia

O que acontece se um raio escuro atingir um avião?

A radiação destes disparos invisíveis pode ter um milhão de vezes mais energia que a do raio visível, mas é uma energia que dissipa rapidamente em todas as direções, em vez de se concentrar em um filete de plasma, como o raio normal. A maioria das exposições provavelmente acontece dentro de aviões que estejam atravessando tempestades. Felizmente, eles são pouco frequentes, e os pilotos costumam se esforçar para evitar nuvens de tempestade.

Basta uma ocorrência para os passageiros receberem a dose máxima segura de radiação ionizante – o tipo de radiação que causa mais danos ao corpo. No entanto, em um avião que fosse atingido por um raio escuro, só se perceberia um leve brilho azulado do lado de fora da aeronave; dentro dela não daria para ver nada, a não ser que alguém tivesse um dosímetro (dispositivo para detectar radiação ionizante).

Pois é, nada de viagens no tempo nem de poderes mentais paranormais.

Um pouco mais sobre TGFs

As emissões de TGF estão concentradas nos trópicos, segundo estudo do prof. Dr. Carlos Morales, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP. Uma das possíveis teorias sugere estar relacionada a intensos processos de raios intranuvens produzidos por tempestades que possuem consideráveis ​​separações verticais de centros de carga. Ainda segundo seu estudo, embora as tempestades africanas tenham a maior atividade de raios do mundo, elas produzem menos TGFs por número de relâmpagos do que tempestades na América e nas regiões tropicais do Sudeste Asiático, representando um paradoxo.

Para explorar essa assimetria, seu estudo empregou medições 3D do Precipitation Radar a bordo do satélite Tropical Rainfall Measuring Mission (TRMM) para descrever a principal estrutura vertical de precipitação observada nas três regiões de tempestades tropicais mais importantes do mundo (Climatologia) e no tempestades que produziram TGFs. As tempestades africanas são mais altas, menores, com mais gelo no ar e descargas de raios. As tempestades TGF apresentam decaimento da variação de precipitação semelhante com a altura, são mais altas e mais intensas, além de apresentarem estrutura de carga vertical diferente e maior distância entre as camadas de carga opostas.

Fontes

Compartilhe :)

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.