O dia que choveu para sempre, de Ray Bradbury

Os três únicos moradores de um hotel no deserto, após anos de seca, são surpreendidos por uma professora de música que procura um público receptivo, que chega e promete esperança. Esse é a história de mais um dos contos de Ray Bradbury inspirados na Meteorologia, juntamente com “A chuva interminável” e “O vento“.

Capa de uma das edições do livro "O dia que choveu para sempre" (PS Publishing, 1ª edição, 2008)
Capa de uma das edições do livro “O dia que choveu para sempre” (PS Publishing, 1ª edição, 2008)

O autor estadunidense Ray Bradbury (1920-2012) teve vários de seus textos adaptados para o cinema e para séries de TV. Na década de 1980, o escritor colaborou com a produção de “O Teatro de Ray Bradbury“, adaptando seus próprios contos.

O conto “O dia que choveu para sempre” (“The Day It Rained Forever”) foi inicialmente publicado em julho de 1957 na revista “Harper’s” (de acordo com bibliografia de contos de ficção de Ray Bradbury). O episódio da série “O Teatro de Ray Bradbury foi pela primeira vez ao ar em 9 de novembro de 1990 e está disponível no Youtube a seguir (em inglês):

Em 1959, foi publicado nos EUA em uma coletânea com 22 contos chamada “A Medicine for Melancholy“. No Reino Unido, foi publicado no mesmo ano no livro “The Day It Rained Forever”, com uma lista ligeiramente diferente de histórias.

Resumo

A história se passa em uma cidade fantasma no deserto, em um hotel que se parece com “um osso seco escavado”. O Sr. Terle, o Sr. Fremley e o Sr. Smith, moradores desse hotel, consideram o calor (mais de 100°F) e a secura da cidade quase insuportáveis. Existe um determinado dia que sempre chove (29 de agosto) naquele canto do Arizona, mas a data passa sem chuva.

Quando ouvem sons estrondosos à distância, eles têm certeza de que a chuva está finalmente chegando. No entanto, o som é apenas o carro da senhorita Blanche Hillgood. Ela tem “olhos azuis como a água” e, na traseira do carro, há uma caixa de harpa “inclinada contra o céu como a proa de um navio antigo”.

Quando ela toca sua harpa para os homens, as chuvas há muito desejadas finalmente caem, mas elas aparecem na forma da música da senhorita Hillgood, em vez de na chuva real. Cada vez que ela toca, as notas musicais caem e tamborilam como chuva pelo hotel, ficando frias nas janelas abertas e no cacto moribundo no jardim da frente. Mais importante, porém, essa música chove sobre os homens que inclinam a cabeça para trás, permitindo que ela caia onde quiser.

Quando Miss Hillgood decide fazer do hotel sua residência permanente, chega a hora das longas chuvas.

Resenha

Existem lugares da Terra que ficam vários meses, anos e até séculos sem chover. Interessante que, dentre os lugares que menos chove no mundo, estão algumas regiões oceânicas, onde não se formam nuvens com gotículas grandes o suficiente para formação de chuva, e a Antártida. O Dry Valleys é o local mais seco do mundo, com umidade extremamente baixa e quase sem cobertura de gelo ou neve. Os ventos podem atingir velocidades de 322 km/h, aquecendo à medida que descem das montanhas próximas e evaporando toda a água, o gelo e a neve. Já falando em desertos quentes, o Deserto do Atacama possui pontos em que não chove há mais de 500 anos.

Quanto a chover sempre em um mesmo dia todos os anos, deve-se observar o histórico de chuvas para calcular a probabilidade de chover nesse dia. Considerando-se a cidade de Phoenix, no Arizona, seu histórico de chuvas aponta agosto como o mês com maior probabilidade de chuvas, logo após a estação mais seca (fonte: Weather Spark). Assim, não é possível afirmar com 100% de certeza de que sempre haverá chuva em determinada data. O que costuma acontecer é um viés de confirmação associado à cultura. Por exemplo: toda vez que chove no dia de Finados, esse evento é lembrado; já quando não chove, esse dia é esquecido. Desse modo, parece que sempre chove no dia de Finados.

A beleza da música, caracterizada pela metáfora da água, dá aos homens idosos a força renovada de espírito que eles precisam há muito tempo. Sua existência mundana neste deserto tipo fornalha é transformada em uma vida abundante de alegria, pois as chuvas de música que vivenciam a vida caem sobre eles todos os dias.

Assim, água e música são usadas aqui como um elemento de transformação e regeneração. Os homens podem ansiar por chuva, mas igualmente importante é a necessidade de estarem cercados de beleza. Eles estão cansados ​​de sua existência estéril. Por esse motivo, eles encontram rejuvenescimento espiritual na bela música de Miss Hillgood. A longa seca termina quando seus corações e espíritos cansados ​​são renovados.

Curiosidade: existe um outro conto de Ray Bradbury com um nome parecido mas que não virou episódio do Teatro: “Cairá uma chuva leve” (“There Will Come Soft Rains”). Publicado pela primeira vez em 1950, foi incluído no “The Martian Chronicles” do mesmo ano. É a história de uma casa automatizada que funciona sozinha após uma catástrofe nuclear. Após o cachorro, reconhecido como animal de estimação da família, morrer dentro da casa, a casa recita ao anfitrião ausente seu poema favorito, “There Will Come Soft Rains“, de Sara Teasdale, que fala sobre a chegada de dias melhores. Um incêndio acidental leva a casa às cinzas, restando somente uma única voz da única parede sobrevivente que repete sem parar a hora e a data.

Curiosidade 2: existe uma música de trance chamada “The Day It Rained Forever” da banda Aurora, mas que não tem relação com o conto. Na verdade, a música considera a chuva como algo triste, o que é uma ilustração comum para esse sentimento – veja mais sobre Meteorologia e música clicando no link.

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