Memórias e esquecimentos

por Maria Auxiliadora Roggério

A atividade da memória humana, de certo modo, pode ser comparada com o sistema de processamento de informações de um computador. Tanto a memória humana como o computador contam com um arquivo de longo prazo. O computador traduz o que é digitado para uma linguagem eletrônica (codificação), arquiva as informações num disco, em caráter permanente (arquivamento) e, posteriormente, é possível acessar/baixar informações (recuperação) para uma memória de trabalho, e também receber novas informações. Parte dessa memória é utilizada enquanto o computador está ligado, e se não for salva nos dispositivos de gravação permanente, o conteúdo será apagado por ser considerado sem utilidade. É semelhante a nossa memória de curto prazo: podemos “acessar/baixar” informações de nosso “arquivo” da memória para uma “tela mental” mas, assim como no computador, se esse conteúdo não for utilizado ou reconstituído, rapidamente se apaga.

dali persistencia memoria
Persistência da Memória, de Salvador Dalí.

Memória é o termo geral que representa o armazenamento do conhecimento do mundo, adquirido através do processo do aprendizado. Esse conteúdo refere-se às nossas experiências, bem como às nossas vivências internas (pensamentos e emoções).

O sistema da memória envolve três etapas/procedimentos: codificação, armazenamento e recuperação. Cada uma dessas funções aciona várias engrenagens e, se houver alteração em alguma destas funções, dizemos que há uma perturbação da memória.

A codificação, também chamada de fixação ou aquisição, é a etapa na qual se adquire informações que são preparadas para armazenamento; depende da atenção, da sensopercepção, da apercepção (capacidade de apreensão) e da preservação do nível de consciência. Algumas informações são processadas quase que de modo automático (espaço, tempo, frequência), mas é preciso algum esforço para processar o significado, visualizar e organizar mentalmente outros tipos de informações.

Na etapa do armazenamento (ou conservação, retenção) ocorre a manutenção das informações codificadas/fixadas. Depende de repetição para uma assimilação mais fácil e da associação com outros dados mnêmicos. Ao longo do tempo, as informações retidas vão-se modificando num processo lento.

O retorno das informações fixadas à consciência refere-se à etapa da recuperação. A recuperação (ou rememoração, evocação) ocorre de forma espontânea ou voluntária e pode ser influenciada por fatores afetivos, além de que, memórias não são cópias exatas e, quando evocamos uma imagem armazenada, não recuperamos a imagem perceptiva que foi fixada, mas, uma imagem com alterações, reconstruída.

A memória pode ser apresentada em uma visão simplificada na qual o processamento de informações concentra-se em três sistemas interativos: sensorial, curto prazo e longo prazo. A informação chega ao sistema sensorial da memória; se não chamar à atenção, perde-se numa fração de segundo. Se, ao contrário, a pessoa prestar atenção, a informação será enviada à memória de curto prazo. Quando na memória de curto prazo, se não for processada, será perdida em torno de 15 segundos; se houver algum processamento, permanecerá por mais tempo; se o processamento for profundo, a informação será armazenada na memória de longo prazo e, quando necessária, poderá ser transferida para a memória de curto prazo.

Sistema sensorial é a memória imediata, ou de curtíssimo prazo. As informações são registradas e guardadas por breve instante através da memória icônica (imagens visuais) ou memória ecóica (imagens sensoriais auditivas). Dura frações de segundo, tem uma capacidade limitadíssima e só está ativa enquanto se dá a percepção, a não ser que o conteúdo seja imediatamente transferido para a memória de curto prazo.

A memória de curto prazo (memória de trabalho) dura de segundos a minutos com capacidade de armazenamento limitada, ou seja, quando uma informação é recebida, esta é processada muito superficialmente, como por exemplo, quando se repete de imediato um número de telefone enquanto se está ligando ou quando ainda nos lembramos das primeiras palavras de uma frase que acabamos de ouvir, o que nos permite compreender o sentido todo da frase.

Na memória de longo prazo o armazenamento é permanente; a capacidade de retenção é incalculável. Para uma informação ser convertida em memória de longo prazo, passa por um processo de consolidação. O processo de consolidação é facilitado pela repetição da informação, sendo necessário de cinco a dez minutos no mínimo, e de ao menos sessenta minutos para ocorrer plenamente.

As memórias de longo prazo dividem-se em explícitas e implícitas.

Memórias Explícitas: As informações são acessíveis à consciência, podem ser relembradas de modo voluntário e expressas em palavras. É a memória utilizada no processo de aprendizagem, em que necessitamos memorizar algum conteúdo como, por exemplo, fórmulas matemáticas. Subdivide-se em:

Memória episódica – capacidade de lembrar eventos ou episódios autobiográficos. Exemplo: Na semana passada viajei com amigos.

Memória semântica – refere-se a conhecimentos comuns e compartilhados com outras pessoas. Exemplo: O Brasil foi descoberto no ano de 1500; São quatro as estações do ano.

Memórias Implícitas: Diz respeito ao como fazer as coisas. É a que ocorre quando o processo de aprendizado não depende de recuperação consciente e não há esforço de retenção. É automática e reflexa. Pode ser resultado da repetição de memórias explícitas. Exemplo: dirigir um automóvel depois do aprendizado, torna-se um procedimento automático. Subdivide-se em memória de procedimento, condicionamento clássico, condicionamento operante, aprendizagem não-associativa e pré-ativação.

Memória de procedimento diz respeito a práticas e habilidades motoras (escrever, dançar), cognitivas (compreender e usar regras gramaticais) e perceptivas (ler, montar quebra-cabeças).

Condicionamento Clássico: conceito desenvolvido por Pavlov a partir de experimento de emparelhamento de dois estímulos: um neutro (EC – estímulo condicionado) e outro forte (EI – estímulo incondicionado), ocasionando respostas condicionadas (RC) ou incondicionadas (RI). Se ocorre, por exemplo, o medo como resposta incondicionada emocional intensa a determinada situação, pode ocorrer o condicionamento clássico. Ex: uma pessoa atropelada (situação traumática) enquanto checava novidades nas redes sociais em seu smartphone, pode sentir ansiedade sempre que voltar às redes sociais, mesmo que não associe conscientemente esse comportamento com o acidente.

Condicionamento Operante: conceito elaborado por Skinner. Parte do princípio que a aprendizagem ocorre como consequência das ações produzidas. Uma ação operante (apropriada) pode ser reforçada. O reforçamento pode ser positivo ou negativo, levando a um aumento da resposta.

Aprendizagem não-associativa: é a forma mais simples de aprendizagem. Trata-se da habituação. Uma diminuição da resposta a estímulos repetitivos ocorre progressivamente, como em comemorações com fogos de artifício: nos assustamos com o barulho, inicialmente, mas depois nos habituamos.

Pré-ativação: diz respeito a uma maior facilidade em reconhecer posteriormente um estímulo ao qual se tenha sido exposto previamente, mesmo que a partir de fragmentos dele, baseando-se na aparência e na forma do estímulo.

Há muitos modelos propostos para explicar como o cérebro memoriza (baseados na atividade elétrica cerebral; ou na produção de substâncias químicas que conteriam um código da memória; ou que pressupõe a alteração da função sináptica, alteração das conexões interneuronais etc.), mas ainda não se sabe quais mecanismos permitem que o cérebro execute essa função.

A memória não pode guardar todas as informações que recebe. É preciso selecionar e armazenar somente o que interessa para que o cérebro realize associações com os conhecimentos anteriormente armazenados, o que permitirá a evocação da memória.

Por que esquecemos?

Esquecer faz parte do processo de memorização. Nosso cérebro não suportaria um armazenamento de tudo que vivenciamos no dia a dia. Seria um acúmulo desnecessário de informações, porque esse conteúdo vai se modificando com o tempo.

Muitas das pessoas com problemas de esquecimento, em verdade, não têm problemas com suas memórias, mas, sim, com os mecanismos que levam a informação até a memória, afetando o seu desempenho.

Desempenho da memória é a capacidade de recordação dos conteúdos armazenados no sistema mnêmico. É um sistema extremamente versátil. Se atentarmos para nossas experiências diárias, perceberemos que esse sistema é capaz de conservar e permitir acesso ao conteúdo necessário para as demais atividades, manifestas ou não: reconhecer pessoas e objetos; aptidões motoras, como andar; compreender e produzir símbolos linguísticos falados e escritos; pensar; recordar eventos ou episódios; recordar experiências sensoriais nos estados de vigília e de sono.

Fatores externos, internos (do organismo) e emocionais, interferem na atenção e na concentração, dificultando a retenção de novas informações, o que pode causar a impressão de que a memória “está falhando”. Preocupações cotidianas, situações de ansiedade intensa podem ocasionar alterações temporárias (lapsos) na memória (“deu um branco”). As emoções afetam tanto a aprendizagem como a memória. As experiências agradáveis bem como as desagradáveis são melhor retidas do que as que não têm valor emocional.

Uma vantagem, a longo prazo, do esquecimento é poder substituir o conteúdo que se tornou obsoleto por outro atual, mais adequado/útil. Mas, para se considerar que algo foi esquecido, primeiro é preciso certificar-se de que foi aprendido; então, esquecimento é quando podemos recordar de algo num determinado momento e, posteriormente, não conseguimos mais lembrar.

Uma informação antiga pode facilitar novos aprendizados, mas, falhas na recuperação da memória podem causar esquecimento, isto é, ao aprender coisas novas a recordação do que foi anteriormente aprendido fica prejudicada (interferência retroativa) ou, quando algo que foi aprendido antes prejudica a recordação do que foi vivenciado depois (interferência proativa). Falhas na recuperação de dados também podem prejudicar a fixação ou a retenção.

Distrações ou cansaço no momento de recordar algo, também podem interferir na lembrança.

Falhas graves de memória ocorrem com traumas cerebrais ou traumas emocionais. No caso de um choque emocional violento, associado a um determinado evento, o indivíduo pode não recordar de nada, embora interfira em seu comportamento.

Esquecimento Motivado: A recuperação de informações perturbadoras é suprimida, consciente ou inconscientemente. Ao observar que seus pacientes não conseguiam recordar fatos desagradáveis/traumáticos, Freud elabora o conceito de recalque (¹) . O recalque acontece quando o indivíduo tenta manter oculto no inconsciente as representações de pensamentos, imagens, fantasias e recordações que se relacionam com conteúdos ameaçadores, proibidos de surgir no consciente. O conteúdo recalcado no inconsciente não desaparece, tende a reaparecer (retorno do recalcado). Assim, essas memórias podem ser recuperadas, por exemplo, através de técnicas como livre associação ou hipnose. A repressão “Em sentido amplo: operação psíquica que tende a fazer desaparecer da consciência um conteúdo desagradável ou inoportuno: ideia, afeto, etc. Neste sentido, o recalque seria uma modalidade especial de repressão.” (Laplanche/Pontalis, 2001, pp 457 e 458). Frequentemente ouvimos que as memórias de fatos dolorosos são reprimidas em nosso inconsciente e, em razão disso, esquecemos ideias e incidentes relacionados com o desagradável; isso não explicaria todos os esquecimentos.

Um indivíduo que sofre lesão cerebral, segundo a Lei de Regressão Mnêmica de Ribot (1882), vai perdendo lentamente as informações retidas: as mais recentes antes das mais antigas, as mais complexas antes das mais simples, as menos organizadas antes das mais organizadas.

As perturbações patológicas de memória resultantes de lesão cerebral são causadas por acidentes ou por doenças, como traumas na cabeça, deficiência vitamínica, abuso de drogas, de medicamentos e efeitos colaterais de medicamentos, exposição a toxinas, cirurgias, alcoolismo, tumores, acidente vascular cerebral, terapia eletroconvulsiva, estresse em nível muito alto. Dependendo de qual parte do cérebro foi afetada e da extensão do dano causado ao tecido cerebral, podem ser divididas em alterações quantitativas e qualitativas.

Alterações quantitativas

Amnésia (perda da capacidade mnêmica; pode ser temporária ou irreversível), hipomnésia (diminuição dessa capacidade) e hipermnésia (aumento da capacidade; aceleração geral do ritmo psíquico).

São classificadas em:

a) anterógradas, retrógradas e retroanterógradas: dizem respeito ao tempo em que as lembranças permanecem;

b) generalizadas, lacunares e seletivas: referem-se à extensão e conteúdo das lembranças.

Hipomnésias:

Amnésia Anterógrada (amnésia de fixação): incapacidade ou dificuldade de recordar fatos ocorridos a partir do evento que causou o trauma.

Amnésia Retrógrada (amnésia de evocação): incapacidade ou dificuldade de recordar fatos que ocorreram anteriormente ao trauma.

Amnésia Retroanterógrada (amnésia mista ou de fixação/evocação): de ocorrência mais comum. Déficits de fixação para o que ocorreu dias ou meses antes ou depois do trauma.

Amnésia Generalizada: pouco frequente. São afetadas todas as recordações dos últimos dias, meses ou da vida inteira.

Amnésia Lacunar (ou localizada): refere-se a um espaço de tempo específico, limitado, no qual houve prejuízo na capacidade de fixação.

Amnésia Seletiva (ou sistemática): tem em comum, o conteúdo e o significado afetivo das recordações.

Hipermnésias:

De Fixação: capacidade exagerada de armazenamento de novas informações.

De Evocação: excesso de lembranças confusas, num curto espaço de tempo.

Lacunar: observada quando se recorda, por exemplo, do primeiro ataque que gerou transtorno de pânico ou em relação ao evento que gerou transtorno de estresse pós-traumático.

Seletiva: maior facilidade para evocar fatos ruins, que geram culpa ou que confirmem seus delírios.

Alterações Qualitativas

Paramnésias (alucinação de memória): falsa lembrança de algo que não ocorreu mas que parece verdadeira para o indivíduo.

Alomnésia (ilusão de memória): as lembranças de um evento real previamente fixado são deturpadas involuntariamente pelo indivíduo; no processo de evocação a lembrança não corresponde à sensopercepção original.

Fabulação (ou confabulação): um tipo de paramnésia que ocorre em quadros amnésticos de origem orgânica. A pessoa utiliza-se da imaginação ou de lembranças isoladas para preencher artificialmente um vazio na memória.

Criptomnésia: falha em reconhecer as lembranças como pertencentes ao passado. Quando surgem as recordações à mente, ao indivíduo parecem fatos novos, recém criados.

Ideia Fixa (lembrança obsessiva): imagens da memória e conteúdos ideativos surgem espontânea e constantemente na consciência e a pessoa não consegue se desvencilhar.

Ecmnésia: recordação quase alucinatória na qual o indivíduo age como se fatos do passado estivessem acontecendo naquele instante; visão panorâmica de cenas do passado abreviadas e revividas intensamente.

Déjà-vú e Jamais-vú: No déjà-vú (já visto) – e também, déjà-entendu (já ouvido), déjà-pensé (já pensado), déjà-vecú (já vivido) – ocorre a clara sensação de que algo novo já foi visto, ouvido, pensado ou vivido anteriormente. No jamais-vú (nunca visto) ocorre o inverso: situações já vistas, ouvidas, pensadas ou vividas no passado não soam como sensações familiares.

Os interessados em conhecer características diagnósticas e transtornos associados aos transtornos amnésticos, poderão consultar publicações mais direcionadas ao tema. (²)

(¹) LAPLANCHE, Jean – Vocabulário da Psicanálise/Laplanche e Pontalis; sob a direção de Daniel Lagache; tradução Pedro Tamen. -4ª ed. – São Paulo : Martins Fontes, 2001. pp 430 a 435

(²) DSM-IV-TR – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Trad. Cláudia Dornelles; 4ª ed. rev. – Porto Alegre – Artmed, 2002. pp 189 a 196

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