Maior relâmpago já registrado aconteceu no Brasil

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) anunciou (em 24 de junho de 2020) dois novos recordes mundiais de raios: o de maior distância relatada, com 709 ± 8 km, e o de maior duração para um único relâmpago, com 16,73 segundos.

Raios (ou relâmpagos) são descargas elétricas de grande intensidade que conectam o solo e as nuvens de tempestade na atmosfera. É o resultado de um desequilíbrio da carga elétrica. Quando o acúmulo de uma diferença de carga supera a “força dielétrica” ​​do ar, uma faísca salta entre as duas cargas. Em média, entre cinquenta e cem raios acontecem a cada segundo em todo o planeta. A descarga percorre distâncias da ordem de 5 km e dura cerca de meio a um terço de segundo. No entanto, cada descarga que compõe o raio dura apenas frações de milésimos de segundos.

A maior descarga elétrica na história registrada ocorreu em 31 de outubro de 2018 na região da fronteira entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina, embora o flash tenha se estendido do leste da Argentina até o Atlântico. A descarga complexa, semelhante a uma aranha, pode ser vista em sua totalidade na projeção do mapa a seguir.

Imagem de satélite com extensão recorde do relâmpago, Brasil, 31 de outubro de 2018
Imagem de satélite com extensão recorde do relâmpago, Brasil, 31 de outubro de 2018

Uma sequência de imagens de satélite mostram que o início das ramificações ocorreu em Campos Novos/SC, segundo a pesquisadora e meteorologista Rachel Albrecht, do Departamento de Ciências Atmosféricas, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), que participou do comitê de especialistas que certificou o recorde pela OMM. O pesquisador Michael Peterson, do Los Alamos National Laboratory, EUA, que submeteu o caso para a avaliação do OMM, elaborou um vídeo com essa sequência de imagens, obtidas a cada 2 milissegundos:

A OMM também relatou outro relâmpago com várias centenas de quilômetros mas também com uma duração excessivamente longa sobre a Argentina em 4 de março de 2019: durou 16,73 segundos.

Imagem de satélite da duração recorde do relâmpago, Argentina, 4 de março de 2019
Imagem de satélite da duração recorde do relâmpago, Argentina, 4 de março de 2019

Esses eventos não são comuns de acontecer, sendo chamados de “megaflashes“. Durante anos, o raio foi tratado como um evento local. No entanto, pesquisas mais recentes revelam que alguns eventos de raios podem ter uma “mesoescala” na natureza. Os complexos convectivos de mesoescala (CCM), que são tempestades gigantescas, podem gerar extensos campos elétricos. Os CCMs se formam durante o final da tarde e a noite a leste das montanhas da América do Sul, invadindo a noite e frequentemente se desenvolvendo em áreas de até 800 quilômetros de largura.

É possível que uma perturbação no campo elétrico provoque um relâmpago que distribuirá a carga por enormes setores desse campo. Esses chamados megaflashes fazem exatamente isso, permitindo que o canal de raios continue crescendo por centenas de quilômetros.

O estudo de megaflashes é possível por sistemas de detecção de raios no espaço a bordo de satélites, como os do GOES (Geostationary Operational Environmental Satellite), da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (NOAA). Os dois satélites GOES-R atuais apresentam um “mapeador geoestacionário de raios”, ou GLM (Geostationary Lightning Mapper).

Com o GOES 16, que foi lançado em órbita em 19 de novembro de 2016, o aumento na resolução espacial e temporal permite detectar eventos extremos de raios, que até então não eram mapeados devido às breves janelas de visualização que estavam restritos. São possíveis medidas a cada dois milissegundos, por exemplo. Ou seja, esse recorde homologado pode ser quebrado em breve.

Fontes