Gandes nevascas e aquecimento global tem tudo a ver

Manchetes como “Frio extremo nos EUA deixa ao menos 21 mortos; mínima em Chicago pode bater recorde” e “Neve cobre areia do deserto do Saara” fazem muitos (como o presidente dos EUA Donald Trump) acharem que isso são indícios de que o aquecimento global não existe. No entanto, eles ajudam a confirmar o fato de que o planeta passa por mudanças climáticas.

Gelo em janeiro de 2018 sobre Aïn Séfra – Argélia. Fonte: reprodução/redes sociais

Para ficar claro: o tempo indica as condições atmosféricas em um instante, enquanto o clima é o retrato de condições meteorológicas médias da atmosfera, observadas por anos. Portanto, não é por que um dia ou uma semana fica mais frio que o clima da região mudou – só mudou o tempo.

Outro ponto importante: aquecimento global é o nome dado ao efeito da temperatura MÉDIA no planeta Terra inteiro estar subindo ano após ano. Algumas regiões podem ter redução de temperatura e outras sofretem aumento. Além disso, dentro de um mesmo ano, podem existir extremos de frio e calor que, na média anual, geram um aumento de temperatura.

Aquecimento do Ártico

Vórtice polar é uma grande área de baixa pressão localizada em cada um dos polos do nosso planeta. Graças a sua rotação no sentido anti-horário (no hemisfério norte) ou horário (no hemisfério sul) e isso faz com que o ar frio fique preso nas regiões polares. Ele ganha força no inverno de seu respectivo hemisfério (virada de ano no hemisfério norte e meio do ano no hemisfério sul) e suas fronteiras aumentam.

Esse ar frio é transportado pelas correntes de jato (correntezas de ar mais rápidas que fluxo ao seu redor que acontecem na alta atmosfera, que se deslocam de leste para oeste) para outras regiões ainda mais distantes do círculo polar.

Com o aquecimento global, existem condições para que esse fenômeno se intensifique cada vez mais – e isso já é observado. Veja essa figura mostrando as diferenças das temperaturas registradas e a média climatológica:

Temperaturas médias de 2017, com vermelho e laranja representando mais quente do que a média, e azul representando mais frio do que a média. Fonte: NASA

A temperatura na estratosfera (camada de ar superior, logo acima da camada de ar onde nós vivemos, a troposfera) nessa região vem aumentando também nas últimas décadas. Isso pode colapsar o vórtice polar e o ar bem frio, que estava na estratosfera, desça para regiões de menor altitude.

O aumento da temperatura no Ártico também tem ajudado a reduzir a camada de gelo flutuante da região em mais de 20% por derretimento. Quando o gelo derrete, uma camada reflexiva de gelo e neve é removida, deixando um mar azul escuro. A maior parte (90%) dos raios do sol que eram refletidos para o espaço agora passa a ser absorvida pelo mar, ajudando o processo de aquecimento.

Com a superfície do oceano mais quente, aumenta o contraste de temperatura com a fria massa de ar polar acima dele. O calor do oceano flui para cima com mais intensidade, forçando o ar polar a subir, criando um sistema de alta pressão. Essa alta pressão força o ar polar ao redor a se mover, gerando um redemoinho no sentido horário (devido ao efeito de Coriolis) que empurra o ar gelado para baixo na Europa e América do Norte.

Frentes frias muito fortes vindas da Europa levam umidade para a região norte da Argélia. Recentes ocorrências da formação de gelo no Saara, até então muito raras, foram noticiadas nos invernos de 2016, 2017 e 2018. Essa região onde ocorreu a formação de neve é chamada de “entrada do Saara” e está localizada a mais de mil metros de altitude. A neve formada derreteu em poucas horas após o nascer do Sol.

Com o lento e gradual aumento de temperatura, várias regiões dos EUA ficaram sem eventos de queda de neve por vários anos. Uma geração inteira somente começou a ver neve novamente nessas regiões com o fortalecimento desse fenômeno de transporte de ar frio do Ártico. E esse olhar desatento sobre a natureza causou em muitos uma percepção errônea da real influência sobre o efeito do aquecimento global no clima local.

Fontes