Floresta Nacional de Ipanema

Abrigando centenas de espécies de vertebrados, sua heterogeneidade ambiental ganha maior importância por se situar entre Cerrado e Mata Atlântica. A densa mate cobre o Morro Araçoiaba: um fenômeno geológico, de formação vulcânica, com grande diversidade mineral, sendo a magnetita o minério predominante. Essa característica atraiu investimentos na época do Brasil colonial para exploração mineral e fabricação do ferro, tornando-se assim o berço da siderurgia nacional.

Alargando os tradicionais caminhos indígenas, em plena Mata Atlântica, os exploradores do século XVI chegaram ao sertão de São Paulo e ao Morro Araçoiaba. Durante o século XVI, uma expedição de Afonso Sardinha e seu filho resultou na construção de duas forjas, em 1589. Elas são reconhecidas pela Associação Mundial de Produtores de Aço como a primeira tentativa de fabricação de ferro em solo americano.

Casa de Armas Brancas e cachoeira. Foto: ViniRoger

Em 1810, foi criada por D. João VI a Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema. Carl Gustav Hedberg dirigiu a Fábrica entre 1811 e 1814, que já construiu os fornos de Hedberg em seu primeiro ano de adminsitração. Produziam-se arados, pregos, arames, enxadas, facões, foices, gradis, escadarias, vasos, cruzes, engenhos e maquinários diversos. No mesmo ano, foi instalada a ponte articulada, fabricada na Inglaterra prevendo a contração e dilatação do metal pela variação de temperatura. Também foi criado o primeiro cemitério protestante do Brasil ao sul da represa, criado por Carta Régia de Dom João VI.

Ainda em 1811, foi inaugurada a Represa Hedberg, sendo a primeira no Brasil com a finalidade de aproveitamento de energia elétrica. Sua função era de barrar as águas do Rio Ipanema e, através de canais, levá-las para fornos e oficinas, onde rodas d’água impulsionavam o maquinário da Fábrica. As comportas hoje existentes ainda são acionadas para regular o nível da água da barragem.

Também fazia parte do conjunto original um prédio de selaria (do outro lado do rio), uma serraria (a primeira mecanizada do Brasil), a Casa da Guarda (na época um depósito de minerais que sofreu modificações para se transformar em quartel e prisão militar) e a sede administrativa (residência do diretor e escritório da Fábrica, alterada em 1841).

Em 1º de novembro de 1818, foram inaugurados os Altos Fornos Germinados (ampliados em 1840 e 1865, por causa da Guerra do Paraguai) por Friederick Ludwig Wilhelm Varnhagen, segundo administrador da Fábrica. Nessa data, foram fundidas três grandes cruzes, das quais a maior pesava mais de 450 kg. Essa grande cruz foi levada em procissão até o alto do morro Araçoiaba, sendo assentada na chamada Pedra Branca, onde permanece até hoje. As outras duas foram colocadas na entrada da Fábrica (transferida para uma praça na Vila São João do Ipanema) e na estrada que ligava a fábrica à cidade de Sorocaba (hoje localizada no Museu Histórico Sorocabano).

O primeiro aniversário da maioridade de D. Pedro II, em 1841, é marcado pela fundição de um pórtico e a construção de um torreão (torre larga com ameias) na sede administrativa, que o hospedou nas quatro visitas que fez a Ipanema. Também hospedou a princesa Isabel e o Conde d’Eu em 1871, que foram à Fábrica em agradecimento ao esforço dos operários na fabricação de munições e armas brancas para a Guerra do Paraguai.

Os Altos Fornos de Mursa foram construídos entre 1878 e 1885 na administração do engenheiro Joaquim de Souza Mursa, mas nunca entraram em funcionamento devido à falta de uma máquina insufladora. O conjunto original era formado também por uma ponte elevada que unia o alto forno a um torreão que abrigava um elevador formado por duas gaiolas, utilizado para o abastecimento do alto forno com minério e combustível (lenha).

Nessa época, a produção diária da Fábrica chegava a 10 toneladas/dia. A Casa das Armas Brancas abrigou as oficinas dessa produção, mas só ganhou a forma definitiva em 1886. Toda construída em arenito extraído do Morro Araçoiaba, passou por anos de abandono servindo apenas de depósito para material agrícola, mas foi completamente restaurada da década de 1960.

O Monumento a Varnhagen, construído em 1878 no alto do Araçoiaba, lembra que ali nasceu o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (filho do segundo administrador da Fábrica, que também recebeu o título de Visconde de Porto Seguro), em 17 de fevereiro de 1816. Apesar de ter afirmado que desejava ter Ipanema como sua última morada, seus restos mortais foram guardados em Sorocaba.

Em 1913, período de atuação do engenheiro Elias Marcondes Homem de Mello, foram construídos os fornos de carvão (tipo “colmeia”). Dos sete construídos em uma tentativa de reativar a fábrica, restam somente quatro.

A Estrada de Ferro Sorocabana (fundada em 1872) passa próximo às construções. Seguindo sentido interior a partir da estação Sorocaba, depois das estações Lopes de Oliveira e George Oetterer, está a estação Ipanema. A estação original foi ponta de linha do tronco, de 1877 a 1880, construída para atender à Fábrica. Essa estação foi usada até 1928, quando a linha foi retificada e duplicada, substituindo a linha original. A estação ficou então fora da linha, mas o prédio sobrevive até hoje, descaracterizado e servindo como moradia. A estação que a substituiu, construída não muito longe dali em 1928, teve o mesmo nome até o ano de 1949, quando então foi alterado para Varnhagen.

A subestação elétrica de Varnhagen foi desativada em 1999 com o fim da eletrificação da linha. A velha locomotiva em Varnhagen, estacionada não muito longe da estação, lembra os tempos em que havia uma linha privada da fábrica por ali. Porém, estas locomotivas (uma Orenstein e Koppel alemã de 1912, com bitola de 60 cm) jamais rodaram ali, tendo vindo do Ministério da Agricultura.

Seguindo a linha de trem no sentido interior, foi inaugurada uma estação no km 137 em 1920, que recebeu o nome de Coronel Mursa no ano seguinte. Em 1928, com a retificação da linha entre São Paulo e Santo Antonio (Iperó), o posto foi desativado e um novo foi construído no km 129,800, já na linha nova. Em 1931, foi suprimido. Reativado pouco tempo depois, foi definitivamente fechado em 1947. A função principal da parada era para o trem tomar água. Afinal, era apenas uma caixa d’água com uma plataforma, não coberta. Com a eletrificação do trecho, concluída por volta de 1946, o ponto, muito próximo de Varnhagen e Bacaetava, não tinha mais razão de existir. Mesmo assim, segundo depoimentos de pessoas de Iperó, ainda nos anos 1960, o ponto ainda estaria sido usado como embarque e desembarque. Ainda existe a caixa d’água no local da estação desativada em 1928.

Atualmente, a população residente nos 5.069,73 hectares da Floresta Nacional de Ipanema está atualmente dividida em dois grupos: os moradores da Vila São João de Ipanema e Vila Smith (constituído por famílias e agregados de servidores do ICMBio, do Ministério da Agricultura e ex-funcionários do CENEA-Centro Nacional de Engenharia Agrícola); e trabalhadores rurais assentados da Vila Smith, Vila Mursa e áreas 1 e 2 (após acampamento por agricultores do Movimento Sem Terra em 1992).

Visitação e Trilhas

Localizada a 120 km da cidade de São Paulo, a Floresta Nacional (FLONA) de Ipanema abrange parte dos municípios de Iperó, Araçoiaba da Serra e Capela do Alto, vizinhos de Sorocaba. Criado em 1992, é uma Unidade de Conservação Federal, administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Possui três portarias: portaria 1 (mais ao centro do parque e junto às construções históricas – Vila São João do Ipanema), ao norte (próximo ao ARAMAR, o Centro Tecnológico da Marinha em Iperó/SP) e ao sul (próximo a Araçoiabinha, distrito de Iperó próximo ao município de Araçoiaba da Serra).

A trilha Afonso Sardinha (5779 metros, 1 hora ida e volta) possui as ruínas dos Fornos de Afonso Sardinha. A trilha Pedra Santa (5753 metros, 3 horas ida e volta) permite conhecer a Gruta do Monge, a Cruz de Ferro da Pedra Branca e o Monumento a Varnhagen. A Estrada do Morro de Ipanema também dá acesso ao monumento e ao mirante da Cruz de Ferro.

A visitação do parque pode ser feita de terça a domingo, das 08:00 às 16:00 (com saída até 17:00) para visitas espontâneas. Existe o pagamento de ingresso (9 reais por pessoa em 2019) e o pagamento por guia, após agendamento prévio, para fazer as trilhas: 70 reais na trilha de 1 hora e 90 reais na trilha de 3 horas – até 10 pessoas; acima disso, é 9 reais por pessoa. O passeio na Trilha Histórica (1200 metros, 45 minutos), na Vila de São João de Ipanema, pode ser feito individualmente (autoguiado, com placas contando sobre as construções). O mapa do parque com algumas indicações está no Google Maps a seguir:

Fontes