Carência afetiva, dependência emocional

por Maria Auxiliadora Roggério

Em alguma medida e em alguns momentos de nossas vidas podemos nos sentir carentes de afeto. Quando tentamos suprir nossas necessidades básicas, por vezes nos sentimos insatisfeitos e frustrados mas, isso, por si só, não configura um problema emocional, já que sempre buscamos por atenção, segurança, aprovação, cuidado e afeto em nossos relacionamentos, quer seja no trabalho, com familiares, na comunidade em que vivemos, nos relacionamentos amorosos. Mobilizamos nossos recursos internos para preencher o que nos falta e seguimos adiante.

"Streets and Roses", por Bardia Photography licenciada como CC BY-NC-ND 2.0
“Streets and Roses”, por Bardia Photography licenciada como CC BY-NC-ND 2.0

Para algumas pessoas, a impossibilidade de satisfazer suas necessidades pessoais acarreta um estado íntimo de perturbação e infelicidade demonstrando carência afetiva excessiva. A carência afetiva excessiva se apresenta como um estado de dependência emocional – em que uma pessoa necessita da outra para atingir equilíbrio emocional. A dependência emocional também aparece em comportamentos autodestrutivos e comorbidades de outras psicopatologias, de ordem emocional ou fisiológica, como somatizações, transtornos ansiosos, transtornos alimentares (obesidade, anorexia e bulimia), alcoolismo e depressão. A origem está relacionada ao desenvolvimento do apego na infância, além de fatores culturais, neurológicos e psicológicos. Em termos de desenvolvimento social, o apego é a principal realização social do início da infância.

A Teoria do Apego formulada por Bowlby (2002) propõe explicar os apegos que as crianças (e também os adultos) formam com determinadas figuras bem como o comportamento do apego. Ter apego por alguém significa estar determinado a buscar proximidade e contato com certa figura, especialmente quando se está com medo, cansado ou doente. O comportamento de apego diz respeito a forma adotada para conseguir e/ou manter essa aproximação entre as pessoas como algo capaz de fornecer proteção. O apego é “…como um sistema comportamental que possui a sua própria forma de organização interna e serve à sua própria função” (BOWLBY, 2002, p. 285).

Nas primeiras semanas de vida, um bebê é dependente da ajuda da mãe, mas ainda não está apegado a ela. O comportamento de apego se evidencia em torno dos seis meses de idade, conforme o bebê vai adquirindo consciência da mãe. Portanto, ser dependente não é o mesmo que ser apegado. O apego é um vínculo afetivo que se forma entre o bebê e a mãe (pais ou cuidadores). Os bebês se apegam aos que lhe são familiares e atendam às suas necessidades de alimentação, conforto e carinho. Se a satisfação dessas necessidades é negada ou parcialmente atendida, a criança pode tornar-se ansiosa, retraída. A qualidade do apego inicial ajuda a estruturar a personalidade, influencia os relacionamentos futuros e seus efeitos podem permanecer interferindo por muito tempo no desenvolvimento social.

Pouco a pouco, o apego inicial vai diminuindo e as crianças vão se aventurando no mundo. A vivência familiar e os estilos de apego aprendidos podem contribuir para relacionamentos saudáveis ou com dependência emocional. Crianças que receberam apego seguro encaram as experiências da vida com maior assertividade, são mais sociáveis, independentes. Geralmente, crianças que possuem uma autoimagem positiva e demonstram ser autoconfiantes são as criadas por pais que exerceram sua autoridade permitindo aos filhos desenvolverem maior senso de controle. Se os cuidados maternos/paternos foram precários, em que geralmente se percebe uma ameaça contínua a acessibilidade da figura principal de vinculação, a criança não é prontamente atendida em sua necessidade e não sente essa figura como uma base segura (apego inseguro). Se houver ausência de cuidados e/ou rejeição; períodos nos quais os pais precisam estar ausentes (como em casos de hospitalização); ameaças por parte dos pais de não amar a criança, como meio de controle; ameaças de abandono, morte ou suicídio com imputação de culpa à criança, o apego será inseguro ansioso, levando a viver em constante ansiedade, com medo de perder sua figura de vinculação. Se, de outro modo, os cuidados revelarem-se excessivos, que dificultam a busca por independência e autonomia da criança, estabelece-se uma relação de superproteção, uma situação ambivalente em que a criança ora percebe que tem com quem contar e, por isso está segura, ora se sente totalmente insegura, com medo de perder a figura de apego e ficar só.

Meus dois pais me tratam muito bem
(o que é que você tem que não fala com ninguém?)
Meus dois pais me dão muito carinho
(então porque você se sente sempre tão sozinho?)
Meus dois pais me compreendem totalmente
(como é que cê se sente, desabafa aqui com a gente!)
Meus dois pais me dão apoio moral
(não dá pra ser legal, só pode ficar mal!)

“Rebelde sem causa”, canção de Ultraje a Rigor

Muito mais do que estar acessível, a figura de apego deve se mostrar receptiva, responder de maneira adequada (BOWLBY, 2004).

Em seus estudos sobre o desenvolvimento, o psicanalista Winnicott (1983) nos fala da importância do cuidado paterno inicial e de um ambiente facilitador que permita à criança sobreviver e estruturar-se psiquicamente: “O desenvolvimento emocional ocorre na criança se se proveem condições suficientemente boas, vindo o impulso para o desenvolvimento de dentro da própria criança” (WINNICOTT, 1983, p. 63). A mãe é o primeiro ambiente que se constitui para o bebê. Inicialmente, ambos estão fundidos numa só estrutura (ambiente-indivíduo). O ambiente fornece uma variedade de experiências que facilitariam o crescimento, o desenvolvimento saudável (ambiente facilitador) ou poderia falhar, propiciando instabilidades e doenças (ambiente não-facilitador). Um ambiente facilitador permite que os processos maturacionais possam progredir e à criança realizar seu potencial. Com o cuidado paterno satisfatório a unidade psique-soma se integra.

A infância é um processo que vai da fase da dependência à independência. Todo indivíduo apresenta algum tipo e grau de dependência. Em “A Teoria da Relação Paterno-Infantil” de 1960, Winnicott (1983) definiu três estágios da dependência. Na fase de holding, o bebê é extremamente dependente. Nasce num estado de não-integração, numa condição de dependência absoluta, na qual não tem meios de perceber o cuidado materno; passa à fase de dependência relativa, em que começa a se dar conta desse cuidado; depois, com a lembrança e a projeção de suas necessidades e a introjeção de detalhes do cuidado, o bebê desenvolve a confiança no ambiente e meios para seguir rumo à independência. A independência implica um ambiente internalizado, ou seja, a criança ter capacidade de tomar conta de si mesma. As falhas do ambiente que podem ocorrer nessas fases precoces e precárias do desenvolvimento podem atingir a saúde mental de modo a causar, por exemplo, tendência antissocial, predisposição para distúrbios afetivos, surtos de violência, rebeldia, dependência patológica.

A dependência emocional pode se desenvolver a partir de vários fatores, desde falhas na fase inicial da infância, vivências e padrões familiares, experiências no contexto sociocultural e a própria dinâmica psicológica e pode interferir em áreas diversas de relacionamentos. É considerada uma condição psicológica que leva a condições patológicas, porque gera prejuízos físicos e psíquicos aos que são acometidos por essa dependência. Caracteriza-se pela forte necessidade de ligação emocional, senso de cuidado exagerado e atenção excessiva com o outro; ou pode haver um sentimento de incapacidade de cuidar de si próprio, necessitando buscar no outro os subsídios para suprir suas carências.

Outras características de dependência emocional são: sentimentos de insatisfação e de inferioridade, tédio, vazio emocional, baixa tolerância à frustração, vulnerabilidade, impulsividade, comportamentos de submissão extrema ao outro, comportamentos autodestrutivos e sentimentos negativos, conflitos de identidade, baixa autoestima, medo de errar, de abandono, da solidão, foco excessivo no outro e autonegligência, sinais de fissura e abstinência na ausência do objeto amado, dificuldades em tomar ou ausência de decisões em seus relacionamentos, falta de consciência sobre seus problemas, sentimento de responsabilidade sobre tudo o que acontece, de bom ou ruim, no relacionamento, crença de que a felicidade está condicionada à outra pessoa, necessidade de chamar a atenção, não ter planos nem perspectivas para a própria vida (pois vive em função dos sonhos do outro), ciúmes excessivos (às vezes, não se trata de ciúmes; trata-se da necessidade de saber se o outro sempre estará lá, disponível, mas, também, para sinalizar que “está aqui”). Importante dizer que muitas destas características podem também surgir em momentos diversos de nossas vidas e, não necessariamente, configurar dependência emocional. Assim como podem também se relacionar a outras patologias. Estes sintomas estão presentes no Transtorno de Personalidade Dependente; este transtorno também se caracteriza pela dependência afetiva e física de outra pessoa.

Dependência emocional nos relacionamentos entre casais

As necessidades emocionais não satisfeitas podem ser projetadas nos relacionamentos conjugais, sendo que, nas relações amorosas entre casais, a principal influência encontra-se no desenvolvimento afetivo e de apego na infância. Relações saudáveis necessitam de um certo equilíbrio e envolvem reciprocidade. Um relacionamento do tipo dependente pode surgir em pessoas cujo apego na fase inicial de desenvolvimento foi do estilo inseguro ambivalente (apesar de que este tipo de relacionamento também pode ser o que organizará a vida do indivíduo). No apego ambivalente, os sentimentos de conquista e o medo de perder são acentuados e dificultam um olhar sobre o futuro do relacionamento. Indivíduos inseguramente apegados não conseguem romper relacionamentos conflitantes, mesmo com todo sofrimento que acarretam. A energia psíquica que deveria estar sendo utilizada no sentido de atender suas necessidades internas é direcionada para fora, para outra pessoa. Por conta disso e, comprometido com a baixa autoestima originada precocemente, surgem dificuldades em manter relacionamentos duradouros, produzindo um sentimento de solidão.

O dependente emocional tenta repetitivamente satisfazer suas demandas afetivas através de relacionamentos nos quais há uma enorme e permanente necessidade de ser apoiado, o que o leva a comportamentos de submissão e apego patológico. Abre mão de seus interesses até então valorizados e passa a viver em função de agradar o outro, por temer ser abandonado e ficar só, pois não acredita na possibilidade de existir sem o outro. Tem uma visão negativa de si e positiva do outro. Muitas vezes, refere-se a si mesmo como incapaz de fazer qualquer coisa sozinho. Sente-se bem em acreditar que o outro depende dele, por isso, geralmente, acaba se envolvendo com pessoas problemáticas. Mostra-se útil, resolvendo todos os problemas, tentando deixar a impressão de que é fundamental ao outro. Por medo do término do relacionamento, cria situações para “prender” o parceiro de modo que este acredite não poder viver sem estar nessa relação.

Para manter esse vínculo, torna-se mais vulnerável e é capaz de suportar abusos físicos, psicológicos ou sexuais. Se, porventura, esse relacionamento acabar, parte em busca imediata de novo parceiro com as mesmas características (de modo inconsciente), ainda acreditando que, assim, estará recebendo cuidado e amor. Quando está sozinho sente-se desamparado, incapaz de cuidar de si próprio.

Adultos aparentemente muito obedientes, sempre dispostos a agradar, possuem sentimentos de insegurança e estão sempre buscando aprovação, tal como uma criança carente. Adultos que não conseguem se livrar desses padrões infantis, são os que não sabem dizer “não”, que parecem não saber pensar e decidir por si mesmos, necessitando sempre da opinião de outros; são compulsivamente submissos e “bonzinhos”, passando a impressão de que são tolos, o que leva as pessoas a afastarem-se de seu convívio. Ou, que aproxima pessoas cuja intenção é de apenas aproveitar-se dessa condição. Outros comportamentos infantis constantemente reproduzidos em relacionamentos entre casais com dependência emocional são a “birra infantil” e acessos de raiva com a quebra de objetos, indicativos de baixa tolerância à frustração.

Num relacionamento em que há dependência emocional ambos os parceiros são vítimas. O parceiro do dependente sente-se sufocado pelo afeto excessivo e pela atenção exagerada que recebe, por infundadas cobranças ciumentas, por controle irracional de suas atividades querendo sempre saber onde está, com quem e fazendo o quê; isso acaba invadindo sua privacidade e desrespeitando sua individualidade. Assim, o relacionamento fracassa, levando ou não à separação, porque ambos podem estar acomodados à essa situação, sentindo-se presos ao relacionamento e com a sensação de que não conseguirão sair. Mas, há casos em que um parceiro percebe a dependência do outro e incentiva seu comportamento de entrega para poder exercer controle sobre este e manipulá-lo de modo a satisfazer as “suas próprias carências”. O parceiro, em total submissão, com a autoestima rebaixada, inseguro, é cada vez mais desvalorizado, inferiorizado, e, crente de que não é bom o suficiente para merecer o amor do outro, cada vez se esforça mais para tentar agradar e receber migalhas de afeto que julga, ainda, serem mais do que merece. Desse modo, a preservação da relação conflituosa atenderia aos propósitos de ambos os parceiros, numa mútua dependência.

Pode acontecer de o dependente ser surpreendido pelo parceiro com um pedido de separação. Vai sentir-se injustiçado, ressentido, pois acredita que sempre fez de tudo pelo outro; tentará dissuadi-lo do rompimento; prometerá mudar. Se o outro permanecer irredutível em sua decisão, o dependente passará à agressão verbal, buscando desvalorizar, desqualificar o outro com frases como: “você não é ninguém, sem mim”, “nunca vai encontrar alguém melhor do que eu; que consiga te aturar”, “não vai demorar muito e, logo, logo você virá rastejando me pedindo pra voltar”. Com a percepção de que nada disso está surtindo efeito, pode partir para a violência física, ameaças de morte e/ou suicídio (as quais, infelizmente, podem ser levadas a termo).

A literatura, a música, o cinema, estão repletos de exemplos de relacionamentos nos quais a dependência emocional induz a viver em constante ansiedade e sofrimento. Observe indicativos de dependência emocional na letra de “Um minuto para o fim do mundo”, da banda de rock CPM22:

Me sinto só.
Mas quem é que nunca se sentiu assim?
Procurando o caminho pra seguir, uma direção, respostas!
Um minuto para o fim do mundo
Toda a sua vida em sessenta segundos
Uma volta no ponteiro do relógio pra viver.
O tempo corre contra mim, sempre foi assim e sempre vai ser
Vivendo apenas pra vencer a falta que me faz você
De olhos fechados eu tento esconder a dor agora,
Por favor entenda, eu preciso ir embora, porque
Quando estou com você, sinto meu mundo acabar
Perco o chão sob meus pés, me falta o ar pra respirar
E, só de pensar em te perder por um segundo,
Eu sei que isto é o fim do mundo.
(…)
Volto o relógio para trás tentando adiar o fim
Tentando esconder o medo de te perder quando me sinto assim.
De olhos fechados eu tento enganar meu coração
Fugir pra outro lugar em uma outra direção, porque
Quando estou com você (…)

A despeito de teorias, categorizações e diagnósticos, não podemos esquecer que cada indivíduo lança mão de mecanismos diferenciados de interações para organizar-se e, mesmo diante de estímulos iguais, as reações são diversas. Assim, como não podemos mudar o que nos aconteceu no início de nosso desenvolvimento, devemos nos perguntar o que podemos fazer por nós, apesar disso.

Referências bibliográficas

Bowlby, John, 1907. Apego e perda: apego, v. 1 / John Bowlby ; [tradução de Álvaro Cabral]. – 3ª ed. – São Paulo : Martins Fontes, 2002.

Bowlby, John, 1907. Apego e perda : separação : angústia e raiva, volume 2 da trilogia / John Bowlby; [tradução Leonidas H. B. Hegenberg, Octanny S. da Mota, Mauro Hegenberg]. – 4ª ed. – São Paulo : Martins Fontes, 2004.

Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Trad. por Irineo Constantino Schuch Ortiz. Porto Alegre, Artes Médicas, 1983.

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