Asterix e Vercingetórix

Mas o título não deveria ser “Asterix e Obelix” – a dupla de invencíveis gauleses? É que nesse post também veremos mais sobre Vercingetórix – o chefe gaulês que liderou uma revolta contra os romanos e inspirou as histórias de Asterix.

Asterix

Os franceses Albert Uderzo e René Goscinny criaram essa série de histórias em quadrinhos em 1959. Após o falecimento de Goscinny em 1977, Uderzo prosseguiu o trabalho. As histórias de Asterix foram traduzidas para mais de 83 línguas e 29 dialetos, já foram lançados 35 álbuns que venderam 350 milhões exemplares em todo o planeta, e inspirou adaptações para cinema (animações e de imagem real), jogos, brinquedos e um parque temático.

Albert Uderzo anunciou sua aposentadoria no fim de 2010. Em 2013, foi lançado o primeiro álbum por outros artistas, “Astérix entre os Pictos”, de Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, que lançaram outros álbuns posteriormente.

Principais personagens das histórias de Asterix

Em todas as edições dos livros de Asterix, aparece o seguinte prólogo:

“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos … Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum …”

Essa aldeia fica em uma península na Armórica, ao norte da antiga Gália. Para resistir ao domínio romano, os aldeões contam com a ajuda de uma poção mágica que lhes dá uma força sobre-humana, preparada pelo druida Panoramix. A exceção é Obelix, que ganhou superfoçar permanentemente porque caiu dentro de um caldeirão cheio da poção quando ainda era um bebê. Ah, e ainda tem o seu cãozinho: Ideaifix.

As histórias possuem muitas alusões ao século XX em suas jornadas:

  • os normandos comem tudo com natas;
  • os corsos são indolentes e têm queijos nauseabundos;
  • os romanos se acham os donos do mundo (muitas vezes fazem paralelo ao imperialismo norte-americano);
  • os godos são militaristas, lembrando os alemães dos séculos XIX e XX;
  • os bretões são fleumáticos, educados, falam ao contrário (numa tradução direta do inglês, como “Eu peço seu o perdão?”), tomam cerveja quente e água quente com leite (até Asterix ter-lhes levado o chá) e conduzem do lado esquerdo da estrada;
  • a Hispânia é um local cheio de pessoas de sangue quente e turistas;
  • os lusitanos são baixinhos e educados (Uderzo disse que todos os portugueses que ele conhecera eram assim).

A única coisa que os gauleses temem é que o céu caia nas suas cabeças. Esta é uma referência a um evento histórico: quando Alexandre, o Grande, recebeu os celtas que viviam no Adriático, e perguntou a eles o que eles mais temiam, achando que eles diriam que era Alexandre, eles responderam que não temiam ninguém, apenas que o céu caísse sobre eles.

Vercingetórix

O nome Vercingetórix significa “grande chefe rei”. O chefe gaulês do povo dos arvernos viveu entre 80 e 46 a.C. e serviu no exército romano como auxiliar. Júlio César protegeu seu pai em 56 a.C., permitindo-lhe afirmar-se como chefe de todos os arvernos, antes que estes o assassinassem quando ele manifestou intenção de ser rei – César não interveio nesse caso.

Estátua de Vercingetorix em Alise-Sainte-Reine, França. Fonte: Wikipedia

A Gália estava dividida em três partes, ao norte, a “Terra dos Celtas”, habitada pelos belgas, no centro pelos gauleses propriamente ditos (Galia Comata), e, ao sul dela, pelos aquitanos. Esses gauleses, rústicos e durões, que até então estavam fora da órbita romana, eram chamado de “galos cabeludos” (Gallo comata), para separá-los dos chamados “galos togados” (já totalmente romanizados). Por sua vez, a Galia Comata dividia-se em galos Heudos, Arvernos, Belgas, e nos que compunham as tribos marítimas que habitavam nas margens do Atlântico (onde hoje se situam a Bretanha e a Normandia).

Sabendo explorar as desavenças e as eternas desconfianças reinantes entre os gauleses cabeludos, Júlio César se pôs em marcha. Durante o primeiro semestre do ano 53 a.C., aldeias foram incendiadas, povos foram massacrados. No ano seguinte, uma insurreição geral da Gália foi decidida por druidas (magistrados das tribos) e chefes gauleses. Os avernos estavam sob a chefia de Vercingetórix.

Consciente de que poderia realizar na urgência uma espécie de unidade nacional, Vercingetórix conseguiu que os principais povos da Gália se rebelassem e se colocassem sob sua autoridade. O cerco de Alésia pelos romanos, em agosto e setembro de 52 a.C., fez o exército debandar e Vercingetórix convocou uma assembleia assumindo a derrota. César ordenou o desarmamento dos gauleses e a convocação de todos os chefes inimigos perante seu tribunal.

Após sua rendição, Vercingetórix foi levado prisioneiro a Roma e jogado em uma cela na prisão Mamertina, onde foi mantido por seis anos. Depois, foi obrigado a caminhar de mãos atadas amarrado ao carro de triunfo do general romano pelas ruas de Roma até o Capitólio, sendo novamente enviado à prisão e estrangulado por ordem de César.