A Teoria das Nuvens

A história do livro “A Teoria das Nuvens” se passa entre os anos 2005 e 2006 e tem como protagonista Virginie Latour, uma jovem bibliotecária francesa contratada por um renomado estilista japonês, Akira Kumo, para catalogar sua coleção de livros. Não se trata de uma coleção rara ou de luxo, mas de algo singular:

“O acervo reunia todas as obras sobre nuvens — e, mais amplamente, sobre meteorologia — escritas nos últimos três séculos, em todas as línguas que Kumo dominava: japonês, alemão, inglês e francês.”

Kumo é fascinado por nuvens e pela meteorologia em geral. Durante o trabalho com Virginie, ele não demonstra pressa em concluir o catálogo e, em vez disso, passa a narrar a ela histórias de figuras históricas ligadas ao tema. Entre elas, destacam-se: Luke Howard, o criador da nomenclatura moderna das nuvens; Carmichael, um pintor que tentou capturar a essência das nuvens em suas telas; e o enigmático Richard Abercrombie, autor do misterioso Protocolo Abercrombie — uma obra única e cobiçada, que Kumo sonha em possuir.

As trajetórias desses três homens — o quacre Howard, o artista Carmichael e o obsessivo Abercrombie, que viajou pelo mundo em busca de seu ideal — se entrelaçam com o presente. Suas histórias são criativas, bem contadas e revelam não apenas curiosidades históricas, mas também o papel do clima e da previsão do tempo em momentos decisivos, como os equívocos de Napoleão e o desenvolvimento da meteorologia moderna.

Paralelamente, o próprio Kumo é uma figura intrigante: um homem rico e reservado, supostamente nascido em Hiroshima em 1946. No entanto, esses fatos não são exatamente verdadeiros. Ele reinventou sua identidade no Japão quando jovem — algo facilitado por sua aparência mais jovem que a idade real —, mas a sombra de sua origem em Hiroshima continua a acompanhá-lo. Entre Kumo e Virginie desenvolve-se uma relação mais de mentor e aprendiz do que propriamente amorosa. Ainda assim, ambos transformam a vida um do outro — ele, ao abrir novos horizontes para ela; ela, ao oferecer-lhe uma nova forma de reconciliação com o passado.

Embora as narrativas históricas não se encaixem perfeitamente entre si, isso pouco importa: Audeguy conta boas histórias — várias delas — e o faz com maestria. Mesmo repleto de temas sombrios — mortes, tragédias e catástrofes climáticas, de Napoleão a Krakatoa e Hiroshima — o livro mantém um tom surpreendentemente leve. Parte disso se deve ao percurso de Virginie, que amadurece e encontra seu próprio caminho, assim como Kumo acaba por fazer as pazes com a própria história.

Ficção versus Realidade

O texto mistura elementos verídicos com inventados, sem a pretensão de seguir rigorosamente a realidade. Pode-se dizer que a história é uma ficção biográfica com elementos de “roman à clef” (romance com chave), pois o autor usa figuras históricas reais e as reinterpreta sob nomes e contextos ficcionais. Apesar de manter o nome de Luke Howard, ele se baseia nos cientistas Ralph Abercromby, para criar Richard Abercrombie, e Hugo Hildebrand Hildebrandsson, para criar William Svensson Williamsson.

  • Luke Howard (1772–1864) foi um farmacêutico inglês que se tornou um dos pioneiros da meteorologia ao propor, em 1803, uma sistemática classificação das nuvens em formas como cumulus, stratus e cirrus.
  • Ralph Abercromby (1842–1897) foi um meteorologista escocês-britânico que viajou por vários pontos do globo para estudar céus e mares e contribuiu para o aperfeiçoamento da classificação de nuvens iniciada por Howard, colaborando com ­Hugo Hildebrand Hildebrandsson nesse sentido.
  • Hugo Hildebrand Hildebrandsson (1838–1925) foi um meteorologista sueco, professor em Uppsala e co-autor do Atlas Internacional das Nuvens. Ele investigou extensivamente as nuvens, classificando-as também segundo a altura atmosférica, e ajudou a internacionalizar o sistema de classificação das nuvens.

O artista chamado Carmichael poderia ser uma referência a todos os artistas que estudam as nuvens para suas pinsturas, como John Constable e outros. No entanto, existe um artista chamado Franklin Carmichael (Ontário, 1890 – Toronto, 1945), que foi um dos mais notáveis pintores canadenses do início do século XX. Ele foi membro fundador do célebre Grupo dos Sete (Group of Seven), um coletivo de artistas que revolucionou a pintura de paisagens no Canadá ao buscar representar a natureza selvagem do país com cores vibrantes, formas estilizadas e uma profunda conexão espiritual com o ambiente.

No livro, também é comentado sobre uma divindade chinesa da dinastia Song (960-1279 d.C) chamada T’un Y’un. Ela seria uma criança alegre e mestre das nuvens, “que assopra a seu bel-prazer”. Não há referências confiáveis a uma divindade (ou grafias próximas) ou na mitologia chinesa clássica ou na literatura da dinastia Song. O paralelo mais próximo plausível é 云中君 (Yun Zhongjun, “O Senhor/Senhora no Meio das Nuvens”), uma figura poética/mitológica mencionada em textos antigos (por exemplo nos poemas antigos do Chu Ci, “Nine Songs”), frequentemente traduzida como Lord within the Clouds ou “deidade das nuvens”. Outra figura relacionada a nuvens e ao céu é 碧霞元君 (Bixia Yuanjun), a “Soberana das Nuvens do Alvorecer” — uma deusa taoista associada ao Monte Tai, à aurora e à proteção de crianças/partos.

No entanto, ainda sobre T’un Y’un, um nome parecido, Yun‑t’ung (云童), aparece em fontes populares e enciclopédicas como o “menino das nuvens” ou “Cloud Youth”, cuja função é associada a agitar/gerenciar as nuvens em serviço às divindades do trovão e da chuva. Na religião taoista, Lei Gong (雷公, Senhor do Trovão) e Dianmu (電母, Senhora do Relâmpago) fazem parte de um conjunto de divindades ligadas ao “ministério do trovão”. Lei Gong tem como especialidade o trovão, mas ele tem assistentes capazes de produzir outros tipos de fenômenos celestes. Dian Mu (Mãe do Raio), por exemplo, usa espelhos cintilantes para lançar relâmpagos pelo céu. Yun‑t’ung (Rapaz das Nuvens) agita as nuvens, e Yuzi (Mestre da Chuva) provoca aguaceiros mergulhando sua espada em um pote. Ventos uivantes saem de um tipo de bolsa de couro de cabra manipulada por Feng Bo (Conde do Vento), que mais tarde foi substituído por Feng Popo (Senhora Vento). Ela cavalga um tigre entre as nuvens.

Outro livro de mesmo nome

“Numa cidade portuguesa, facilmente identificável, mas também na Espanha do Século de Oiro, um punhado de personagens ruma ao horizonte da sua redenção. Uma fotógrafa e um músico, uma empregada doméstica, e um académico da literatura, um velho coleccionador, um poeta místico, e uma criança eterna, encontram-se e desencontram-se ao sabor do acaso. Correm as nuvens sobre os passos que levam, companheiras da idade humana que lhes coube trilhar.”

Assim apresenta o escritor Mário Cláudio – ficcionista multipremiado e com uma obra invulgarmente variada – o seu romance, Teoria das Nuvens, uma fábula urbana, capaz de arrancar risadas, apesar de por ela passarem uma bibliotecária deprimida, um professor universitário às voltas com uma tese, ou um menino de três anos, filho de uma prostituta e com uma deficiência cardíaca incurável.

Fontes

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.