A história das classificações de nuvens na Índia antiga mistura observação prática, cosmologia religiosa e narrativa mitológica. Desde as tradições védicas e purânicas, que personificam forças naturais e as integram em relatos sobre deuses e ciclos cósmicos, até tratados enciclopédicos pré‑medievais que sistematizam sinais climáticos para agricultura e astrologia, encontramos nomes e descrições que funcionavam simultaneamente como símbolos culturais e como repertório empírico local.

Na tradição hindu, Brahmā é o deus criador do universo dentro da tríade (Trimūrti) que inclui também Vishnu (o preservador) e Śiva (o destruidor e transformador). Em muitas mitologias purāṇicas, atos e acidentes envolvendo os deuses geram seres, objetos ou fenômenos cósmicos; Śiva pode manifestar poder capaz de causar grandes destruições ou de controlar forças cósmicas, incluindo chuva e catástrofes.
O Śivapurāṇa é um dos Purāṇa — coleções clássicas de mitos, genealogias, cosmologia, ritos e ensinamentos religiosos do hinduísmo centradas na adoração de Śiva. Os Purāṇas combinam narrativa mitológica, cosmografia e instrução ritual, e foram compostos e compilados ao longo de muitos séculos; o Śivapurāṇa em particular contém capítulos sobre criação, ciclos cósmicos, divindades, lendas e também descrições poéticas de fenômenos naturais.
No Śivapurāṇa 2.2.19, existe a seguinte mensagem referenciando as nuvens:
“Brahmā diz: (…) as gotas de sêmen que caíram no meio do altar por causa do teu desejo, e que foram vistas por mim, não serão retidas por ninguém. Quatro gotas do teu sêmen (caturbindu) caíram no chão. Portanto, hão de erguer‑se no céu tantas nuvens terríveis (toyada) que ocasionam a dissolução (pralaya). Enquanto isso, (quando Śiva assim o disse) diante dos Devas e dos sábios, tantas nuvens emanaram das gotas de sêmen. Ó querido, quatro tipos de grandes nuvens que causam destruição são Saṃvartaka, Āvarta, Puṣkara e Droṇa. Ó excelente sábio, essas nuvens que trovejam e rugem com sons horrendos, derramando chuvas ao menor desejo de Śiva, romperam no firmamento.”
“Toyada” é um termo que aparece em textos clássicos para indicar nuvens ou fenômenos aquosos ligados à inundação ou dissolução. Já Pralaya é outro termo sânscrito que indica dissolução ou o fim de um ciclo cósmico; em contextos purāṇicos, eventos que antecedem ou simbolizam pralaya são frequentemente associados a forças destrutivas ou transformadoras. Por fim, “Devas” são deidades menores ou celestiais que regem elementos e funções cósmicas; frequentemente presentes como audiência ou participantes em narrativas mitológicas.
Nomes da tradição clássica usados por Varāhamihira
Varāhamihira foi um astrônomo, matemático e astrólogo indiano do século VI pós‑Cristo, associado à corte dos guptas em Ujjain. É autor de obras importantes como a Brihat Samhitā (um compêndio enciclopédico sobre clima, agricultura, astrologia, arquitetura e sinais naturais) e a Brihat Jātaka (astrologia natal). Na Brihat Samhitā ele descreve e classifica tipos de nuvens, associando formas, cores e comportamentos a efeitos meteorológicos e a previsões de chuva e tempestade.
O estudioso retomou os nomes de nuvens da tradição clássica:
- Saṃvartaka — frequentemente descrita na literatura clássica como nuvem potente e destruidora, capaz de provocar chuvas violentas e cataclismos.
- Puṣkara / Puṣkara — em diversos textos aparece como nuvem que traz chuva benigna e fertilidade.
- Droṇa — associada a trovoadas e chuva forte; o termo aparece tanto em obras astronômicas/meteorológicas quanto em purāṇas.
- Āvarta — outro tipo de nuvem de grande efeito, às vezes listada entre as nuvens mais temidas.
- Chhatra — nome ligado a nuvens providenciadoras de proteção e chuva.
Esses termos pertencem a uma tradição classificatória antiga que descreve nuvens com base em forma, som, comportamento e efeitos percebidos na superfície. Em termos modernos, muitas dessas descrições correspondem grosso modo a distinções entre sistemas convectivos (nuvens de grande desenvolvimento vertical, associadas a trovoadas e chuva intensa) e sistemas estratiformes (camadas mais extensas e uniformes, associadas a chuvas prolongadas e menos violentas), mas a correspondência não é direta porque os procedimentos e objetivos das descrições antigas são observacionais e simbólicos, não investigativos segundo a física atmosférica contemporânea.
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