Quem inventou o avião?

Existe uma grande discussão sobre quem é o inventor do avião: Santos Dumont ou os irmão Wright. Isso levanta uma discussão que envolve até a forma como o ser humano pensa o mundo.

Protótipo do 14-bis e do Demoiselle expostos no Museu Asas de Um Sonho. Foto: ViniRoger

Protótipo do 14-bis e do Demoiselle expostos no Museu Asas de Um Sonho. Foto: ViniRoger

Na verdade, a pergunta “quem inventou alguma coisa?” é uma forma de pensamento que muitos chamam de “mente descontínua“. Esse conceito está ligado com a forma como nosso cérebro evoluiu desde nossos ancestrais. Nossa capacidade de refletir sobre nossa realidade e elaborar e combinar conceitos abstratos para melhor entender os fenômenos que nos afetam e o mundo que nos cerca ainda não seguiu a evolução do conhecimento em si e da tecnologia. A descontinuidade do pensamento é expressa de diversas formas, como por exemplo classificar as coisas em “bom” e “mal”, “direita” ou “esquerda”, sem considerar várias (ou mesmo infinitas) situações intermediárias. Nossa mente descontínua nos atrai a esse tipo de pensamento por ser confortável e encaixar mais suavemente com a configuração padrão de nosso cérebro: coisas médias, a velocidades médias em tempo médio; coisas com as quais não precisa se preocupar em como e por que estão lá.

Quando se discute sobre uma invenção, ela foi fruto de todo o trabalho da humanidade, com vários inventores avançando em diferentes áreas, os governos e familiares que incentivaram psicologicamente e financeiramente, trabalhadores que geraram meios de energia, transporte, alimentação, etc e que permitiram culminar nesse invento. Desse ponto de vista, nada surge “do nada”. Isaac Newton já disse “Se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”. Assim, o avião não teve um único inventor.

Na virada do século XIX para o século XX, pioneiros como Otto Lilienthal, Percy Pilcher, Octave Chanute e Clément Ader já haviam conseguido interessantes resultados com seus planadores rudimentares no intuito de criar uma máquina mais pesada que o ar e que voasse controladamente. Faltava, ainda, resolver problemas de estabilidade e propulsão para manter essas máquinas no ar.

Em 17 de dezembro de 1903, os irmãos Orville e Wilbur Wright fizeram o primeiro voo motorizado (por 200 metros a poucos centímetros do chão). No entanto, o Aeroclube da França (criado para estimular o desenvolvimento das invenções) não reconheceu o voo porque o “Flyer 1” precisou de trilhos e uma catapulta para decolar, além de não ter sido auditado por um júri. Ou seja, para o Aeroclube, o avião precisaria decolar sem ajuda de elementos externos e com testemunhas.

Flyer 1 e Wilbur Wright em 14 de dezembro de 1903 - profundor ficava à frente do avião. Fonte: Wright-Brothers.org

Flyer 1 e Wilbur Wright em 14 de dezembro de 1903 – profundor ficava à frente do avião. Fonte: Wright-Brothers.org

No entanto, em 1905, os “Wright Brothers” realizaram voos sem a necessidade de um contrapeso para ganhar velocidade inicial. Também realizaram o desenvolvimento de uma hélice com torção (mais eficiente), fundamental para a aviação até hoje. Além disso, o desenvolvimento do avião foi pensado para se mover ao redor de três eixos, permitindo manobras mais fechadas – o 14-bis era bem mais estável, muito graças a seu ângulo diedro positivo e controle complexo dos ailerons.

Em 1906, Santos Dumont decolou com o 14-bis contra o vento e por meios próprios. Percorreu 60 metros em 7 segundos, a uma altura de aproximadamente 3 metros, perante mais de mil espectadores em Paris. Veja mais sobre Santos Dumont e o 14-bis clicando no link.

Os irmãos Wright tinham o pensamento americano de inventar, criando um segredo industrial, e patentear. Diferente dos irmãos Wright, Dumont fazia demonstrações a grandes públicos para a época e mantinha em domínio público as patentes de todos os seus inventos.

Note que não existe uma resposta simples para essa questão. A forma de pensar e desenvolver as teorias e os inventos de todos os envolvidos na história da aviação é que promoveu o avião da forma como conhecemos hoje.

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