Monitorando o funcionamento do carro

Desde a década de 1990, os carros vêm sendo fabricados com um nível cada vez maior de automatização e eletrônica. Isso permite um monitoramento preciso de várias partes do automóvel, através de módulos integrados a sensores eletrônicos que processam cada elemento de seu funcionamento. Mas como acessar a essa informação toda?

O diagnóstico do computador de bordo geralmente é realizado nas concessionárias e oficinas mecânicas. Envolve verificar eventuais logs de erro e a atualização do indicador de manutenção (zerar a contagem para a próxima revisão). Dentre os itens diagnosticados estão o sistema antitravamento de rodas (ABS), controle dinâmico de estabilidade (ESP), antipatinagem de rodas (ASR), distribuidor eletrônico de frenagem (REF), ajuda à frenagem de emergência, regulador de velocidade, limitador de velocidade, detecção de pneus vazios, airbag, antipartida eletrônica, etc. Uma forma de acessar essas e outras informações é através de um scanner diagnóstico automotivo.

A indústria automotiva criou uma interface padrão chamado OBD (“On Board Diagnostics” ou diagnóstico de bordo). Ela permite que qualquer computador acesse e leia as informações processadas pela central eletrônica do carro (ECU, também chamada de “módulo de injeção”). As informações dependem para cada automóvel, mas dentre elas estão as enviadas pelo módulo de ignição/injeção e pelos sensores de pressão, temperatura, tensão e rotação. Veja alguns dos possíveis elementos monitorados:

  • Velocidade do veículo
  • Rotação do motor (RPM) e do eletroventilador
  • Pressão no coletor
  • Temperatura do óleo
  • Temperatura do motor
  • Temperatura da água
  • Ponto de ignição
  • Carga do acelerador
  • Tensão na bateria e em outros pontos
  • Consumo médio e instantâneo
  • Nível de combustível
  • Pressão de oxigênio e relação estequiométrica (mistura ar-combustível)

Quando algo dá algum problema, é gerada uma mensagem de erro que acende a luz de serviço no painel do carro. Essa mensagem só pode ser lida por um computador de diagnóstico, conhecido como scanner automotivo (ou também como ferramenta de diagnóstico). Ele é conectado pela porta OBD e seu software é capaz de interpretar o conjunto de informações dessa interface e assim ajudar a detectar o erro e/ou monitorar o funcionamento do motor. Dessa forma, é possível a visualização, leitura e reset de códigos de falha no sistema de injeção eletrônica, diagnóstico em tempo real, leitura de sensores, gráficos na tela do computador/celular, resetar códigos de falha e apagar a luz de alerta do painel.

Conector de interface OBD2 bluetooth junto à conexão no painel do carro (em destaque à esquerda) e tela de aplicativo utilizado para o monitoramento. Note que a tensão da bateria estava em 12 volts antes de ligar o carro (o que mostra que está carregada) e, ao ligar o carro, passou para 13,7 V (indica que a bateria estava sendo carregada com o motor ligado). Fotos: ViniRoger.

Conector de interface OBD2 bluetooth junto à conexão no painel do carro (em destaque à esquerda) e tela de aplicativo utilizado para o monitoramento. Fotos: ViniRoger.

Exemplo de monitoramento de bateria: note na imagem acima que a tensão da bateria estava em 12 volts antes de ligar o carro (o que mostra que está carregada) e, ao ligar o carro, passou para 13,7 V (indica que a bateria estava sendo carregada com o motor ligado).

Como computador de bordo (muitas vezes com o auxílio do GPS nos aplicativos), registram distância total de viagem, volume e média de consumo de combustível, tempo total de viagem e rodagem, volume médio e total de CO2 emitido, média de velocidade, número de paradas, velocidade e aceleração máxima e outras variáveis que te ajudam a descobrir vícios de direção como “percentual de tempo em marcha não-ideal”. Também pode funcionar como datalogger, fazendo diagnóstico de erros e apagando a luz de serviço do motor.

Conector

O conector de interface OBD-II (ou OBD2) de 16 pinos é usada em praticamente todos os carros produzidos desde 1996. Existem conectores que podem se comunicar via Wi-Fi ou Bluetooth com um sistema operacional (como Android, iOS, Linux e Windows) através de aplicativos e programas instalados em smartphones ou computadores.

Pinos e protocolos OBD-II. Fonte: MBCluster

Pinos e protocolos OBD-II. Fonte: MBCluster

Apesar do padrão de conector, alguns carros usam a sequência dos pinos de informação diferentes, e por isso certos aplicativos podem não reconhecer as informações da ECU. Um modelo geralmente aceito é o Super Mini ELM327, que tem formato trapezoidal – carros da FIAT e da Volkswagem usam um formato mais “retangular” e acredito que não se encaixe. As diferenças acontecem por diferentes protocolos utilizados por cada fabricante – uma lista pode ser vista no site Outils OBD Facile.

O conector OBD2 bluetooth pode ser encontrado em diversos modelos no DealExtreme (dx.com) e Mercado Livre (não encontrei na Santa Efigênia).

Aplicativos e programas

Geralmente ao comprar vem um CD com um programa para instalar no Windows ou Mac. Também é possível instalar um aplicativo no smartphone, mas verifique as restrições quanto aos protocolos (identificados geralmente pelo fabricante/modelo do carro). Ele realiza leituras no ECU (engine control unit) e disponibiliza no aparelho e/ou guarda os valores em um arquivo de log (.txt ou .csv).

O primeiro passo para a utilização é encontrar a conexão no carro (geralmente próximo ao painel de fusíveis), conectar o dispositivo (acenderá um LED vermelho indicativo, se o possuir), ligar o bluetooth no celular e parear o dispositivo (geralmente a senha é 1234 ou 000). Depois de instalar e executar o aplicativo, alguns pedem para ativar conectar o dispositivo, escolhido de sua lista de dispositivos bluetooth (outros conectam automaticamente). Alguns aplicativos só começam a receber os dados se a chave estiver na ignição (posição “contato”). Quando sair do carro, desconecte o dispositivo (não largar o tempo todo lá porque alguém pode ficar do lado do carro, parear e mexer no seu computador de bordo).

Quanto aos aplicativos que rodam em Android, os principais são pagos, mas possuem versões gratuitas bem reduzidas. Os mais bem cotados e baixados geralmente são em inglês (aprenda o equivalente entre os termos técnicos em português). Veja alguns aplicativos grátis (os elementos monitorados dependem da presença dos sensores no carro):

Vários elementos monitorados e com uma interface bem interessante. Sua versão gratuita dura somente 30 minutos de execução – mais do que isso tem que comprar a versão paga.

O mais popular e completo. Porém, a versão gratuita basicamente só mostra os dados que podem ser coletados via GPS (como velocidade) e pelo acelerômetro do celular (sim, ele que mede a aceleração). Permite exportar uma planilha CSV (ou arquivo KML) com as posições (latitude/longitude) do carro.

Gostei mais desse. Permite exportar os dados para o site do desenvolvedor e analisar os gráficos. Faz leitura dos parâmetros de funcionamento do motor e automóvel em tempo real e com gráficos/widgets: velocidade, rotações, temperatura, pressão, lambda e muitos outros parâmetros suportados, leitura e eliminação de erros “check engine” e de parâmetros guardados (mesmo sendo uma versão gratuita, o que é um diferencial). Grava e envia logs de erro e variáveis medidas.

Bem simples (e bem restrito).

Geralmente os aplicativos oferecem a opção de conectar com o GPS e receber/disponibilizar posição e velocidade. Veja mais opções no site FlatOut.

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