Pegar friagem deixa doente?

“Sai do sereno, menino!” “Não pega friagem que vai ficar doente!” Em situações de baixas temperaturas e de alta umidade, é comum os pais se preocuparem mais com a saúde dos filhos. Mas será que precisam mesmo?

“Putter Walking in the Cold” by Jim Larrison is licensed under CC BY 2.0

Desde os anos 1950, foram realizadas diversas pesquisas para avaliar a influência da temperatura na incidência de gripes, resfriados e outras infecções das vias aéreas. Na maioria dos estudos, um grupo de participantes passava o tempo resguardado em ambientes com calefação e outro era exposto à chuva, à neve e ao vento. Nenhum dos trabalhos provou uma relação entre esses fenômenos e a ocorrência de doenças. Pelo contrário: os grupos de ambientes fechados tinham maior frequências de doentes, justamente pela troca dos micróbios.

Na verdade, o fundamental para que uma pessoa fique resfriada ou gripada é o contato de vírus, fungos ou bactérias com nosso sistema respiratório. Isso acontece com maior frequência no inverno, principalmente pela tendência à aglomeração em lugares com janelas e portas fechadas para proteger do frio. Quando os agentes microbianos se multiplicam em nossas mucosas, o nariz escorre, tossimos, temos falta de ar e chiado no peito.

Assim, andar descalço no chão frio no máximo pode dar verme. Sorvetes e bebidas geladas são, na verdade, anti-inflamatórios, ajudando no processo de desinflamação após algum corte na boca. Somente se a garganta já estiver inflamada, o frio promove constrição de cordas vocais, podendo gerar dor. E se bater um vento na cara não vai fazer com que ela fique torta – mesmo que não estiver fazendo careta. Um choque térmico não causa paralisia facial, pois geralmente são de causas virais.

Frio e calor podem levar a problemas no funcionamento do organismo quando em valores extremos, sendo mais danosos quanto maior o tempo de exposição a essas condições. Outro problema é quando o corpo estava acomodado em um cenário de temperatura e umidade definidas e, em questão de horas, deve se acostumar com um novo ambiente.

Mudança de temperatura

O inverno no centro-sul do Brasil é marcado por tardes muito quentes e noites frias. Quando isso acontece, os meteorologistas dizem que ocorre uma grande amplitude térmica, que é a diferença entre a temperatura máxima e a mínima de um dia. Esse período apresenta um aumento considerável e sazonal de internações com problemas respiratórios em centros de saúde.

Com uma mudança brusca de temperatura, o corpo acaba sendo exposto a situações de compensação e a processos alérgicos. Em temperaturas mais baixas, a depleção pode deixar o corpo mais suscetível a infecções virais, pois faltam proteínas para manter o sistema imunológico funcionando bem.

O otorrinolaringologista do Hospital Nossa Senhora das Graças Francisco Polasnki Cordeiro (em entrevista ao jornal Gazeta do Povo) levantou alguns pontos:

  • “Existe um tipo de rinite chamada vasomotora que é causada pela mudança de temperatura, geralmente a diminuição, que causa alteração nos vasos sanguíneos e gera coriza, espirros e obstrução nasal”. O ressecamento do ar pode provocar um espessamento do muco, que em conjunto com a queda de temperatura, faz com que os cílios da área traqueobrônquica trabalhem mais devagar e dificulta a expulsão dos vírus no organismo.
  • “A diminuição muito brusca de temperatura causa vasoconstrição, ou seja, passa menos sangue pelas veias e artérias. Para compensar, o coração tem que trabalhar mais”. Caso o paciente já apresente uma arritmia ou outro distúrbio no funcionamento do coração, essa maior demanda cardíaca pode aumentar também o risco de enfarto.
  • Quando a oscilação de temperatura é do frio para o quente, a tendência é que as artérias fiquem contraídas, gerando queda de pressão. Quem já tem uma tendência à hipotensão pode sentir moleza ou fraqueza, pois o metabolismo diminui.

Lavar as cavidades nasais e orais, através de gargarejos, é um cuidado comum quando se tem gripe ou resfriado, mas que pode contribuir para manter a umidade e a limpeza dessa região. Para isso, encha uma seringa com soro fisiológico, tampe uma narina e jogue o soro com força dentro da outra narina. Repita o procedimento para a outra narina. Finalize fazendo um gargarejo de soro fisiológico.

O perigo da baixa umidade do ar condicionador

A exposição a ambientes com ar condicionado favorece o aparecimento de infecções respiratórias agudas. Não pelo fato de baixar a temperatura do ambiente, e sim porque o ar condicionado desidrata o ar e resseca o muco protetor que reveste as mucosas das vias aéreas. O ressecamento da superfície do epitélio respiratório destrói anticorpos e enzimas que atacam germes invasores, predispondo-nos às infecções.

O mesmo vale para dias muito secos. A umidade possui um ciclo diurno, ou seja, conforme a temperatura sobe, a umidade cai (e vice-versa). Assim, o período mais seco do dia é a tarde, e conforme a noite avança, a umidade volta a aumentar. O ideal é hidratar-se bem durante o dia, bebendo muita água, e umidificar o ambiente no período da tarde, enquanto que à noite, deve-se umidificar diretamente o nariz.

Alterações de comportamento

Nas estações mais frias, os níveis dos hormônios que regulam o humor e o sono (melatonina e serotonina) podem ser afetados, levando à depressão. Pessoas que vivem em climas frios são mais propensas a desenvolver o transtorno afetivo sazonal, devido ao menor número de horas de luz solar durante o outono e o inverno.

Temperaturas mais altas ou mais baixas podem afetar nossa capacidade de tomar decisões complexas, devido à regulação da temperatura corporal. Enquanto suamos no calor para manter uma temperatura interna saudável, no frio trememos para evitar a hipotermia. No entanto, resfriar o corpo parece requerer mais energia que aquecê-lo. Assim, no calor sobra menos energia (em forma de glicose) para o cérebro, afetando os processos mentais.

Fontes

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