Iron Man do Black Sabbath

Ao contrário do que muitos pensam, a música “Iron Man” do grupo “Black Sabbath” não tem nada a ver com o “Homem de Ferro” dos quadrinhos. O super herói a Marvel estreou nos quadrinhos em 1963, criado por Stan Lee, e a música do grupo britânico foi gravada em 1970, mas isso não significa que exista uma ligação.

Tales of Suspense #39 (Março de 1963): Estréia de Iron Man na Marvel. Arte de capa: Jack Kirby e Don Heck.

Black Sabbath foi uma banda de heavy metal britânica formada em 1968 pelo guitarrista e principal compositor Tony Iommi, o baixista e principal letrista Geezer Butler, o vocalista Ozzy Osbourne e o baterista Bill Ward. Pioneiros do heavy metal, a banda ajudou a definir o gênero com lançamentos como Paranoid (1970), Master of Reality (1971) e Heaven and Hell (1980), tendo vendido mais de 70 milhões de cópias durante sua carreira.

Butler era um grande fã dos romances de “magia negra” e “terror” de autores como Dennis Wheatley. Butler tinha visto o filme de terror italiano do diretor Mario Bava, “I Tre Volti Della Paura” (As Três Máscaras do Terror) de 1963, mas exibido com o nome de “Black Sabbath” na Inglaterra e Estados Unidos, e escreveu uma canção que incorpora o título do filme. Posteriormente, acabou virando o nome da banda.

História

Pela origem do nome da banda, já dá para perceber a influência do sombrio em suas composições. Temas como faroeste, gangsteres e horror eram comuns nos chamados “filmes B”, que passavam após a sessão principal nos cinemas e que contavam com orçamento mais baixo. Com essa inspiração, a música “Iron Man” foi lançada como single em 1971, no álbum “Paranoid“.

A ideia da música começou com Ozzy Osbourne, dizendo para fazer uma música sobre Iron Man ou Iron Bloke, e isso foi levado para o conceito de horror com ficção científica na cabeça de Butler. O final dos anos 1960 estavam mergulhados na era da corrida espacial, influenciando muito as músicas da época – vide Space Oddity, de David Bowie (1969) e Rocket Man, de Elton John (1972), por exemplo.

O enredo é uma profecia de auto-realização, misturada com viagens no tempo. Trata-se de um homem que vai para o futuro e testemunha o apocalipse. Voltando ao seu próprio tempo, ele encontra um campo magnético que o transforma em uma criatura muda e de aço. Incapaz de falar, ele ainda tenta avisar as pessoas sobre o fim iminente do mundo, mas é apenas zombado por seus problemas. Com raiva e amargo, ele eventualmente causa a devastação de que ele havia avisado a todos. Em última análise, o futuro herói se torna o vilão.

“Eu estava fortemente na ficção científica na época (..) Muitas coisas sobre as quais escrevi foram inspiradas por esses tipos de histórias. Fiquei fascinado com o que poderia acontecer com um homem que de repente se transformou em um ser de metal. Ele ainda tem um cérebro humano e quer fazer o que é certo, mas, eventualmente, suas próprias frustrações na forma pela qual a humanidade o trata levam essa criatura a tomar medidas extremas. É quase um grito de ajuda.”

Geezer Butler

É uma história relativamente complexa e muito interessante, pois mostra como alguém que teria tudo para se tornar um herói acaba virando um vilão – quase como a jornada do herói invertida. E não virou vilão simplesmente por “ser mal”, e sim foi fruto da interação da sociedade com ele e sua inabilidade em se comunicar com as pessoas. Além disso, o vilão poderia ter surgido em qualquer pessoa, ou até mesmo vir de fora do planeta, mas o que enriquece ainda mais a história é o fato do próprio arauto da destruição se tornar o mal que veio anunciar.

Eu sou o Homem de Ferro!

Ele perdeu a cabeça?
Ele pode ver ou ele é cego?
Ele pode andar afinal
Ou se ele se mover ele irá cair?
Ele está vivo ou morto?
Tem pensamentos em sua cabeça?
Nós vamos passar por ele ali
Por que devemos nos importar?

Ele foi transformado em aço
No grande campo magnético
Quando ele viajou no tempo
Pelo futuro da humanidade

Ninguém o queria
Ele só olhava ao mundo
Planejando sua vingança
Que em breve iria desenvolver

O Tempo é agora
Para o Homem de Ferro expandir o medo
Vingança vinda da Lápide
Matando as pessoas que um dia salvou

Ninguém o queria
Eles só viravam as cabeças
Ninguém o ajudava
Agora ele tem sua vingança

Botas pesadas de chumbo
Enche suas vítimas de pavor
Correndo o mais rápido que elas podem
O Homem de Ferro vive de novo!

Em 2008, Iron Man recebeu outro impulso quando foi incluído no filme do mesmo nome, com base na criação da Marvel Comics.

Estampa da camiseta usada por Robert Downey Jr. interpretando Tony Starks (o Homem de Ferro), do Tour de 1978 do Black Sabbath nos EUA – máscara de aviador sinistra

Música

Com a mudança do nome da banda para “Black Sabbath”, veio também uma transição para um novo som blues, primeiramente com elementos do folk e, em seguida, com cada vez mais fortes e obscuros tons até uma nova fórmula para a qual o grupo tornou famosa e seriam, para muitos críticos, os principais pioneiros do heavy metal. Deep Purple e Led Zeppelin, outras bandas influentes do heavy metal da época, tinham um som mais melódico e mais próximo a outros estilos como o blues, folk e o rock n’ roll.

“Para mim, essa é uma música especial para a banda. Era tão diferente. Assim que você ouvir esse início ameaçador, você percebia algo sendo construído. Para mim, a bateria foi um verdadeiro desafio para entrar no estúdio. (…) O problema era que os microfones disponíveis para nós em 1970 não estavam na tarefa de capturar o poder e a profundidade do som. Eu toquei muito alto naquela época, e queria um poderoso som de bateria; É isso que a música precisava.”

Bill Ward

O iníco da música já é assustador. As batidas do pedal do baixo sem outro acompanhamento. Isso faz parecer que tem alguma coisa errada, e o desconhecido traz o medo e o suspense. É difícil dizer logo no início se Bill Ward está tocando cada batida em uma medida de batida de quatro tempos muito lenta ou batendo em qualquer outro tempo em uma medida de batida de quatro vezes mais rápida.

Então vem o riff de guitarra dissonante, com as notas que se recusam a diferenciar-se umas das outras, mas simplesmente deslizar por todo o lugar carregando más notícias. Depois, aquela voz assustadora, que soa como se estivesse saindo de um cemitério metálico. A própria letra da música adere à primeira regra do bom horror: não permitem que seu público tenha uma visão clara do que está acontecendo. Por fim, acontece a matança, com a bateria puxando um ritmo mais acelerado e a guitarra para finalizar.

Fontes