Guerra de Canudos

Uma das mais trágicas histórias do Brasil e que acabou virando uma obra prima da literatura, a Guerra de Canudos foi um conflito armado que envolveu o Exército Brasileiro e membros da comunidade sócio-religiosa liderada por Antônio Conselheiro, em Canudos, no interior do estado da Bahia, entre os anos de 1896 e 1897.

Com a decadência dos engenhos, aumentou-se o número de latifúndios improdutivos. O fim da escravidão contribuiu para que muitas pessoas passaram a perambular na região. Além disso, a terrível seca de 1878, só no Ceará, havia matado 100 mil pessoas. Uma grave crise social abalava o sertão nordestino.

Litografia com as duas igrejas do Arraial: Santo Antônio (direita) e a nova, com duas torres e inacabada. D. Urpia (1897)
Litografia com as duas igrejas do Arraial: Santo Antônio (direita) e a nova, com duas torres e inacabada. D. Urpia (1897)

Nesse cenário que também começou a perambular o cearense natural de Quixeramobim Antônio Vicente Mendes Maciel. Professor demitido, tentou ser ambulante e não conseguiu, mas o que o lançou para o mundo foi ser abandonado pela mulher. De acordo com o escritor peruano, Mário Vargas Llosa, que escreveu um livro sobre Canudos, ele parecia estar sempre de lado, de tão magro era.

Em suas andanças, Antônio dava conselhos às pessoas, como para que reconstruíssem os cemitérios que estavam abandonados, que caiassem de branco as igrejas e que levassem uma vida de meditação. Em pouco tempo, agrupo mais de 8 mil seguidores e passou a ser conhecido como Antônio Conselheiro.

No norte do sertão da Bahia, encontrou uma fazenda abandona, chamada Belo Monte, onde se fixou com seu grupo em 1893. Foi criado um arraial, que posteriormente ficou conhecido como Canudos. Rapidamente, o lugarejo cresceu para 5200 casas e 20 mil habitantes.

Canudos lembrava uma utopia cristã primitiva. As roças e produções artesanais eram coletivos. Era plantado milho, mandioca e feijão; criavam cabras, e com o couro, a carne, o leite e o queijo de cabra, se tornaram auto-sustentáveis. O couro de cabra de Canudos chegaram a ser exportado para os Estados Unidos.

“Canudos, o sonho do conselheiro
De vida equalitária do sertão
Lá o povo vivia em comunhão
Sertanejo lá vivia sem dinheiro
Lá ninguém passava por desespero
Lá do vaza-barris a promissão
Cultivando a terra com fartura
Canudos, a Canaã do sertão
Lá jorrou leite, mel e rapadura.”
Cordel de Zé Antônio (José Antônio dos Santos: natural do povoado de Oiteiros/SE, 1955)

No fim de 1895, Conselheiro comprou de comerciantes de Juazeiro uma grande de madeira para construir uma igreja ainda maior do que ele já tinha feito. A madeira foi paga mas não foi entregue. Juazeiro tinha 3 mil habitante e Canudos ja atingia a marca de 25 mil pessoas.

Com os rumores de que seguidores de Conselheiro cobrar a entrega das madeiras em Juazeiro, as autoridades locais montaram uma força policial com 100 homens. O destacamento policial partiu em 24 de novembro para Canudos, mas a tropa foi surpreendida durante a madrugada em Uauá. Morreram 150 sertanejos e 10 soldados, mas não tiveram forças nem motivação suficiente para irem até Canudos. Então retornaram, sem antes saquear e incendiar a cidade. Essa foi a primeira expedição contra Canudos.

A vergonha moral de não atingirem o objetivo e a quebra de autoridade dos poderosos locais sobre a região aliaram-se então ao combate aos ideais de Conselheiro. O líder de Canudos era contra a República, pois ela havia separado Igreja e Estado e também queria cobrar impostos dos cidadãos, sendo que não sentia uma contra partida do Estado.

A segunda expedição ocorreu em janeiro de 1896 com 583 soldados. Como os sertanejos já estavam avisados, prepararam uma emboscada em um despenhadeiro. O grupo, comandado pelo major Febrônio de Brito, saiu em debandada, deixando os armamentos para trás.

Por fim, o presidente Prudente de Morais ordenou a organização do que foi a terceira expedição a Canudos, comandada pelo próprio coronel Antônio Moreira César. Ele já havia combatido a Revolta da Armada, assassinou um jornalista com uma facada pelas costas e participado da da repressão à Revolta Federalista de 1893, executando 49 pessoas.

O grupo contava com 1.500 homens, 15 milhões de cartuchos e 6 canhões recém comprados da Alemanha. Em março de 1897, eles chegaram aos arredores de Canudos. A primeira ordem de ataque foi cancelada devido a um ataque epiléptico do comandante. A segunda ordem foi para atacar diretamente com baionetas, em contato direto com os sertanejos. Naquele labirinto de ruas e casebres, o combate tornou-se uma guerra de guerrilha, onde quem tem conhecimento do campo leva vantagem. Moreira César levou um tiro na barriga e ficou agonizando durante 12 horas o miserável antes de morrer.

Depois da terceira vitória de Canudos, o governo organizou a quarta expedição. Em agosto de 1897, o próprio Ministro da Guerra, Marechal Carlos Bittencourt, foi para Canudos com duas colunas de 4 mil homens. Nessa expedição, foi também o jornalista Euclides da Cunha, que trabalhava para o jornal O Estado de São Paulo, para documentar o fim de uma insurreição de monarquistas, de inimigos do governo.

Chegando lá, ele percebeu que era um confronto entre o Brasil das elites, urbano, que nunca entendeu os seus desvalidos, contra um Brasil de pobres e miseráveis, que tinham deixado essa condição encontrando um outro jeito de sobrevivência numa espécie de Brasil alternativo.

Os moradores de canudos foram atacados em agosto e setembro de 1897. Um canhão, chamado de “A matadeira”, foi colocado em cima de um lugar que chamavam de morro da favela, e foi peça importante na matança. No dia 22 de setembro de 1997, Antônio Conselheiro morreu, provavelmente de disenteria, e então o arraial subiu uma bandeira branca.

Única foto conhecida de Antônio Conselheiro, tirada duas semanas após sua morte, pelo fotógrafo Flávio de Barros, a serviço do Exército. Fonte: Wikipedia
Única foto conhecida de Antônio Conselheiro, tirada duas semanas após sua morte, pelo fotógrafo Flávio de Barros, a serviço do Exército. Fonte: Wikipedia

Os militares incendiaram o arraial, mataram grande parte da população e degolaram centenas de prisioneiros. Estima-se que morreram ao todo por volta de 25 mil pessoas, culminando com a destruição total da povoação.

Igreja de Santo Antônio, em ruínas, e o púlpito onde pregava Conselheiro, após o massacre do Arraial. Fotografia: Flávio de Barros (1897)
Igreja de Santo Antônio, em ruínas, e o púlpito onde pregava Conselheiro, após o massacre do Arraial. Fotografia: Flávio de Barros (1897)

Sobre as ruínas de Belo Monte, surgiu uma segunda Canudos em 1910. Boa parte de seus habitantes era sobrevivente da guerra. Em 1950, começaram as obras de construção da barragem do rio Vaza-Barris, que inundaria o vilarejo. Os habitantes começaram a sair, partindo para outras localidades da região, e também formando-se aos pés da barragem em construção, numa antiga fazenda chamada Cocorobó, a 20 km da segunda Canudos.

Com o término das obras, o local onde ficava Canudos desapareceu por sob as águas do açude de Cocorobó em 1969. Um pequeno bairro do vilarejo ficou fora das águas, e hoje é chamado de Canudos Velho. O vilarejo de Cocorobó tornou-se município em 1985 e, aproveitando a fama do nome, foi batizada de Canudos (terceira Canudos). Entre 1994 e 2000, as ruínas da segunda Canudos puderam ser vistas no interior do açude, nas épocas de seca.

Ruínas da segunda Canudos, dentro do Parque Estadual de Canudos
Ruínas da segunda Canudos, dentro do Parque Estadual de Canudos

O jornalista Euclides da Cunha narrou toda a história da Guerra de Canudos no livro “Os sertões” – veja mais sobre o livro no post “Livro Os Sertões e a Meteorologia“.

“Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.”
Euclides da Cunha em “Os Sertões”

Fontes

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