Continente/Nuvem em Inhotim

O Instituto Inhotim contém centenas de obras de arte espalhadas em galerias de arquitetura marcante e em jardins com paisagismo muito bem feito. É muita coisa interessante para se conhecer, então escolhi somente uma galeria como exemplo para apresentar – e quem tem a ver com Meteorologia. Assim, será apresentada a galeria Rivane Neuenschwander, que abriga a obra “Continente/Nuvem” (2008-2009).

Parte do Instituto Inhotim: Invenção da Cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe (1977) de Hélio Oiticica, vista a partir do Narcissus Garden Inhotim (2009) de Yayoi Kusama - nele, o vento natural empurra 750 esferas de aço inoxidável sobre um espelho d’água, no terraço do Centro de Educação e Cultura Burle Marx. Foto: ViniRoger
Parte do Instituto Inhotim: Invenção da Cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe (1977) de Hélio Oiticica, vista a partir do Narcissus Garden Inhotim (2009) de Yayoi Kusama – nele, o vento natural empurra 750 esferas de aço inoxidável sobre um espelho d’água, no terraço do Centro de Educação e Cultura Burle Marx. Foto: ViniRoger

O Instituto Inhotim é um museu de arte contemporânea e jardim botânico, localizado em Brumadinho/MG. Idealizado desde a década de 1980 pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz, um dos maiores museus a céu aberto do mundo nasceu a partir de uma fazenda, próxima a mineradoras. São 140 hectares de visitação, cerca de 700 obras de mais de 60 artistas, de quase 40 países, exibidas ao ar livre e em galerias em meio a um jardim com mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, vindas de todos os continentes.

A galeria funciona na construção mais antiga da instituição, datada de 1874. É um remanescente da fazenda que existia no terreno. Arquitetos restauradores fizeram um trabalho de pesquisa para resgatar elementos originais da casa e também receber a obra. Para os jardins mais próximos da casa, a pesquisa resgatou um típico fundo de quintal rural brasileiro, com uma mistura de espécies frutíferas, ornamentais e medicinais, resgatando o gosto e costume da época.

Exterior da Galeria Rivane Neuenschwander. Foto: ViniRoger
Exterior da Galeria Rivane Neuenschwander. Foto: ViniRoger

A artista visual Rivane Neuenschwander (Belo Horizonte – 1967) tem reconhecimento internacional. Graduou-se em Desenho, em 1994, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. Foi artista residente no Royal College of Art, em Londres, de 1996 a 1998, onde obteve o título de mestre, e no Centro Iaspis, em Estocolmo, Suécia, em 1999. Sua prática artística compreende pintura, fotografia, instalação, objeto, cinema e ações participativas.

Em suas instalações, faz uso recorrente de objetos industriais ressignificados e materiais cotidianos ou perecíveis, como flores secas, insetos, poeira, isopor, baba de lesma, sal, dentre outros. A produção da artista parte desses elementos simples para discutir questões universais, como o medo, a história, a temporalidade e as interações políticas, econômicas e sociais.

Continente/Nuvem, Rivane Neuenschwander. Foto: ViniRoger
Continente/Nuvem, Rivane Neuenschwander. Foto: ViniRoger

Sua obra “Continente/Nuvem” foi pensada para a Bienal do Mercosul em 2007 e depois foi repensada para Inhotim. Foi inaugurada em 2009 de forma permanente em uma casinha, usando plástico corrugado, alumínio, bolas de isopor, lâmpadas fluorescentes, ventiladores elétricos e timers. Trata-se de uma obra cinética, que está sempre em movimento, por isso o uso dos ventiladores ligados em diferentes velocidades, que mudam de forma aleatória. São 50 placas translúcidas que sustentam aproximadamente 13 quilos de bolinhas de isopor, movimentadas pelo vento de 26 ventiladores automatizados.

Além da sua ligação com o jardim ao redor da casa, a obra lida fortemente com a arquitetura. Particularmente com o teto, um dos elementos menos destacados dessa área do conhecimento. Olhando para o teto translúcido, o espectador observa à contraluz o movimento contínuo de inúmeras bolinhas de isopor. A estrutura não nos permite ver os ventiladores que garantem o movimento aleatório, e leva a associações como o passar das nuvens, uma revoada ou mesmo deslocamentos geográficos em um mapa. Os mapas são uma questão importante de trabalho para Rivane, daí um pouco do nome da obra – as grades das placas do teto até lembram as latitudes e longitudes desenhadas em mapas.

A obra da artista é construída e se transforma regularmente e continuamente no tempo e espaço. A formação de imagens acima de nós e a busca pelo reconhecimento de padrões ativa a memória de infância, quando se observava as nuvens no céu. As nuvens estão em constante processo de formação, destruição e movimento, gerando diferentes imagens. Algumas vezes identificamos padrões e formas conhecidas, característica psicológica essa chamada de pareidolia.

A artista se relaciona com as ideias de obra aberta e de entropia, tão caras a sua poética, aproximando-se de uma forma renovada de representação da natureza e de paisagem. Observar o teto com as formas mudando lentamente e continuamente de um estado para o outro é quase como deslocar a paisagem do exterior para o interior, ressignificar isso criando uma abstração no interior desse cubo branco, que é a casa, com a paisagem que está do lado de fora, que é o céu. Como um céu nublado, o que nos fascina é sua inapreensibilidade, já que as formações são difíceis de prever, e sugestividade fugidia, dada a efemeridade de cada forma.

O vídeo a seguir contém mais alguns comentários sobre a obra e alguns pontos sobre seu funcionamento e manutenção:

Fontes

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