A Interpretação de Aristóteles sobre os Fenômenos Naturais

O doutorando em Meteorologia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP) apresentou um interessante seminário em 25 de setembro de 2024 com o título “Meteorologia na Antiguidade: A Interpretação de Aristóteles sobre os Fenômenos Naturais”. A transmissão ao vivo foi salva no Youtube e está disponível abaixo, mas um resumo em texto do que foi apresentado vem na sequência:

O conhecimento humano evoluiu de diversas formas ao longo da história, com diferentes povos e culturas contribuindo para a compreensão do mundo ao seu redor. Desde os primeiros pensadores gregos até os filósofos naturais, o ato de observar e refletir sobre a natureza sempre foi uma fonte rica de aprendizado. O objetivo aqui é explorar como Aristóteles, um dos grandes filósofos da antiguidade, lidava com o conhecimento empírico e natural, destacando as limitações de sua época e o valor que sua obra possui, mesmo quando confrontada com os padrões científicos atuais. Propõe-se uma reflexão sobre o valor do conhecimento antigo e de outras formas de saber, reconhecendo sua importância para a constituição do pensamento humano.

Busto de Aristófanes. Fonte: Wikipedia
Busto de Aristófanes. Fonte: Wikipedia

Aristóteles nasceu em Estagira, no antigo reino da Macedônia, por volta de 384 a.C. Seu pai, Nicômaco, era um médico prestigiado que escreveu vários tratados de medicina e influenciou significativamente a inclinação de Aristóteles para as ciências naturais. Aristóteles foi tutor de Alexandre, o Grande, o que contribuiu para sua notoriedade histórica.

Na juventude, Aristóteles estudou na Academia de Platão em Atenas, onde permaneceu por 20 anos. Durante sua formação, ele foi influenciado por Eudoxo, que defendia a ideia de “salvar os fenômenos”, ou seja, encontrar um princípio que explicasse a realidade sem alterar sua essência. Apesar disso, Platão foi a influência predominante em sua vida intelectual, com ambos compartilhando e debatendo ideias. A obra renascentista “A Escola de Atenas”, de Rafael, destaca essa relação, retratando Platão apontando para o mundo das ideias, enquanto Aristóteles, mais ligado à realidade sensível, estende a mão para a Terra.

Após sua saída da Academia, Aristóteles fundou o Liceu, uma escola onde ele e seus discípulos, conhecidos como peripatéticos, discutiam filosofia enquanto caminhavam. Suas obras se dividem entre esotéricas (destinadas a seus alunos) e exotéricas (escritas em forma de diálogos para o público geral).

Aristoteles
Imagem do livro “Meteorológica”, de Aristóteles, no original em grego (esquerda) e traduzido para o inglês.

Na obra “Meteorológica”, Aristóteles discute os fenômenos atmosféricos e as mudanças no mundo sublunar, que é regido pela transformação dos quatro elementos, em oposição ao mundo supralunar, que seria imutável. O filósofo usa duas exalações fundamentais como base para explicar muitos fenômenos: uma fria e úmida, proveniente da água, e outra quente e seca, proveniente da terra. Essas exalações, segundo ele, explicam a formação de nuvens, chuva e outros fenômenos atmosféricos. O calor do sol faz a exalação úmida subir, ela se condensa e volta à Terra como chuva quando esfria.

Aristóteles, não apenas observou fenômenos naturais, como chuva, granizo, vento, estrelas cadentes, furacões e outros, mas também tentou sistematizá-los com base em empirismo, ou seja, no conhecimento obtido por meio da observação. Desde Homero, e mesmo antes dele, os povos já davam nomes aos ventos e refletiam sobre como estes atuavam. Aristóteles esquematizou isso em sua obra, identificando ventos como o Zéfiro (vento oeste) e o Noto (vento sul), e relacionando-os com as condições climáticas. Ele observou, por exemplo, que os ventos do norte eram frios, enquanto os do sul eram quentes, algo explicado pela proximidade com o Polo e com o continente africano, respectivamente.

Além disso, Aristóteles também tratou das mudanças climáticas, demonstrando uma consciência precoce de que o clima em uma região não seria o mesmo para sempre. Ele menciona exemplos como o Egito, que ele observava como estando em processo de desertificação, e a Grécia, onde terras como Argos e Micenas haviam passado por transformações significativas desde a época da Guerra de Troia, como relatado por Homero. Essas observações mostram que, apesar da falta de instrumentos sofisticados, Aristóteles já percebia a dinâmica do clima e suas variações ao longo do tempo, algo que ele associava a mudanças lentas e quase imperceptíveis durante a vida de uma pessoa.

No entanto, ao ler os escritos de Aristóteles, especialmente com um olhar técnico ou científico moderno, muitas de suas explicações parecem equivocadas ou desatualizadas. O motivo pelo qual muitas de suas obras, como as sobre meteorologia, não são tão comentadas quanto outras, como sua “Metafísica”, se deve ao fato de que muitas de suas conclusões se baseavam em observações empíricas limitadas. Mas o valor de suas obras não está nas explicações em si, e sim no processo que ele utilizou para chegar a essas conclusões. Ao analisar sua obra, é importante entender o contexto social e filosófico da época, e como ele usava o conhecimento disponível para formular hipóteses sobre o mundo natural.

Isso nos leva à importância de reconhecer diferentes formas de conhecimento. Não devemos descartar ou desprezar um conhecimento simplesmente porque ele não se encaixa nos moldes científicos modernos. Existem outros tipos de conhecimento que também possuem seu valor, como o místico, o prático e o artístico. Um exemplo disso é a literatura. Se quisermos entender como era a sociedade brasileira na corte do Segundo Império, por exemplo, ler apenas obras históricas pode ser insuficiente. Autores como Machado de Assis oferecem uma visão profunda e rica das relações sociais e intrigas da época, algo que complementa e enriquece o conhecimento histórico. Da mesma forma, a literatura russa de Dostoiévski ou Tolstói nos permite entender a vida na Rússia czarista, além do que um livro de história poderia oferecer.

O conhecimento empírico, como o que Aristóteles utilizava, parte da observação dos fenômenos, mas ele tem suas limitações. A ciência moderna requer mais do que observação; ela exige dados, métodos claros, hipóteses testáveis e, sobretudo, reprodutibilidade. O método científico é uma evolução do empirismo, permitindo que hipóteses sejam testadas e verificadas, e que conclusões possam ser replicadas por outros pesquisadores. A ciência moderna é capaz de prever fenômenos, algo que faltava ao empirismo puro dos gregos. No entanto, isso não diminui o valor do conhecimento empírico. Ele foi o ponto de partida para o desenvolvimento do método científico e continua sendo uma ferramenta importante em muitos campos.

Concluindo, todo conhecimento deve ser considerado e reconhecido, mesmo que não seja equiparável ao conhecimento científico moderno. A visão de que Zeus lança raios, por exemplo, não deve ser equiparada às explicações meteorológicas atuais, mas ainda é uma parte importante do desenvolvimento do pensamento humano. O reconhecimento da importância de diferentes formas de conhecimento nos ajuda a entender a constituição da humanidade de uma maneira mais ampla, atemporal e sem fronteiras. Observar como pensadores antigos olhavam para o céu e imaginavam o funcionamento do mundo nos dá uma perspectiva valiosa sobre a evolução do pensamento humano, e é uma reflexão sobre como continuamos a avançar no entendimento do nosso universo.

Se este mergulho na obra de Aristóteles despertou seu interesse pela história das observações meteorológicas, não perca a oportunidade de explorar o texto Tópicos de História da Meteorologia. Ele oferece uma visão abrangente sobre como a Meteorologia evoluiu ao longo dos séculos, desde os primeiros registros de fenômenos atmosféricos até o desenvolvimento da ciência moderna.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.