Solidão e isolamento na velhice: opção ou imposição?

Maria Auxiliadora Roggério

Os novos valores atribuídos ao casamento e à vida familiar, a diminuição das taxas de natalidade e de fecundidade, mudanças nas condições da vida profissional, entre outros motivos, promovem a verticalização das famílias, com poucos indivíduos em cada geração. A mudança nesses valores se reflete no aumento do número de adultos solteiros e/ou descasados, levando a um maior contingente de pessoas que moram sozinhas.

Com a extensão da longevidade e eventos de vida comumente esperados durante a fase do envelhecimento, o número de pessoas idosas morando sozinhas também cresceu.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e divulgada em abril de 2026, mais de 6,4 milhões de pessoas idosas vivem sozinhas no Brasil. O grupo de pessoas com 60 anos e mais representa 41,2% dos lares unipessoais no país, sendo a maioria de mulheres: 56,5% na média nacional, chegando até a 59% em algumas regiões como Sul e Sudeste.

Com o aumento do número de pessoas idosas vivendo sozinhas, cresce a preocupação com o risco de solidão nessa faixa etária.

A solidão é uma experiência emocional aversiva e pode ser estressante. A pessoa tem a sensação de desconexão consigo mesma e com os demais à sua volta, um sentimento de vazio que entristece; sente-se desamparada, isolada e incompreendida. A experiência da solidão é algo desagradável e comum em qualquer idade; mesmo na presença de amigos ou familiares é possível sentir-se sozinho ou socialmente isolado. A pessoa solitária percebe que seus relacionamentos sociais não são satisfatórios. A solidão pode impactar negativamente, associando-se com hábitos prejudiciais à saúde, com sintomas ansiosos, depressivos, com o declínio cognitivo, especialmente na velhice.

Acontecimentos significativos nesse período influenciam todo o processo de desenvolvimento e envelhecimento. Como exemplos, a aposentadoria, divórcio, viuvez, afastamento dos filhos, perda de pessoas significativas como amigos e membros da família, perda de status, de poder aquisitivo, restrições da vida social, surgimento de doenças, queda na capacidade funcional e questionamentos sobre a própria finitude.

Essas situações estressantes experimentadas na velhice afetam cada pessoa de maneira particular, pois levam em consideração diversas variáveis e diferenças individuais em seu enfrentamento. Assim, morar sozinho não significa, necessariamente, estar solitário.

Muitas pessoas idosas parecem viver o mesmo conflito: desejam manter-se ativas porque isso leva a um senso de identidade e valor mas, também, desejam afastar-se de compromissos sociais para uma vida contemplativa, de lazer e maior cuidado de si mesmas.

A pessoa idosa isolada em seu ambiente doméstico, afastada do convívio com outras pessoas, tem seu bem-estar psicológico e físico prejudicados. Através dos relacionamentos sociais pode encontrar novos propósitos, espaços de lazer, realizar contatos intergeracionais, formar novos vínculos afetivos, beneficiando tanto a saúde psicológica como a física e ampliando a rede de suporte social. O apoio social pode atuar como fator protetivo e de manejo frente a solidão.

A saúde biológica ou mental são mais fáceis de verificar do que a saúde social, pois há teorias e práticas sobre cuidados com o corpo e a mente:

“Na velhice, o diagnóstico de sociabilidade tem como marco teórico as duas teorias predominantes – a da atividade, que define como normal para esta etapa da vida a permanência das normas de sociabilidade da vida adulta, e a do desengajamento, que afirma ser normal na velhice uma redução dos contatos sociais. (MORAGAS, 2004, p.113) .”

As teorias da atividade e do desengajamento (ou do afastamento) consideram o isolamento como algo normal e esperado na velhice. Há uma espécie de acordo subentendido entre a sociedade e as pessoas mais velhas sobre “sair de cena” e dar lugar aos mais jovens. Com isso, restringem-se oportunidades e papéis aos mais velhos, as interações sociais diminuem, os contatos são menos frequentes e o envolvimento emocional também diminui, podendo gerar ressentimento. Como alternativas para enfrentar essas circunstâncias estariam a mudança de papéis e o engajamento em atividades mais adequadas à condição da pessoa envelhecida, preconizadas pela teoria da atividade, a qual desconsidera a diversidade das experiências de velhice. A ideia central da teoria é a de que quanto maior o envolvimento em atividades, maior o nível de satisfação e, em consequência, melhor saúde física e mental, melhor engajamento e aceitação social e melhor autoconceito.

Estar constantemente ativo, com bom funcionamento físico e mental, pouco risco de doenças e de limitações relacionadas a doenças, são fatores que têm sido associados ao conceito de velhice bem-sucedida.

A teoria do afastamento/desengajamento pretendia explicar o processo de envelhecimento baseado nas mudanças que ocorrem nas relações entre o indivíduo e a sociedade. Também não levou em consideração as múltiplas variáveis contidas em cada experiência de afastamento na velhice nem a possibilidade de afastamento apenas em uma ou outra área da vida – como na vida profissional ou na familiar, por exemplo.

Em vista disso, surgiu uma alternativa para essas teorias: a teoria da seletividade socioemocional.

A teoria da seletividade socioemocional explica que, ao longo da vida, nossos valores, escolhas e objetivos são reavaliados. Adultos jovens são motivados pela busca de informação, enquanto os adultos idosos buscam regulação emocional. Na velhice, as metas são de curto prazo e priorizam-se relações emocionais significativas, porque a perspectiva de tempo parece curta; o tempo é percebido além da idade cronológica e o futuro limitado.

As conexões são reduzidas, preservando apenas vínculos representativos que promovem maior conforto emocional e segurança. Seus objetivos são direcionados para o presente na satisfação imediata do dia a dia e na evitação do estresse ou de conflitos, investindo em relações que envolvam afeto.

Esse é o processo de seleção que atua como um mecanismo adaptativo e que contribui para o bem-estar emocional, no qual as pessoas idosas se engajam ativamente e que fundamenta a teoria da seletividade socioemocional.

O isolamento da pessoa idosa pode se apresentar de variadas formas:

isolamento físico e geográfico: – restrições à acessibilidade/mobilidade urbanas, o que dificulta ou impede o indivíduo de locomover-se pela cidade para suas demandas;

isolamento institucional: – pessoas confinadas em instituições asilares, com contatos muito restritos, sem estímulos afetivos e com poucas ou nenhuma visita;

isolamento familiar: – a comunicação com a pessoa idosa é escassa ou inexistente, não participa das decisões da família, é afastada do convívio, recebe pouca atenção em suas necessidades e desejos, é neglicenciada;

isolamento psicológico: – é uma imposição violenta exercida pelos cuidadores ou familiares que, muitas vezes, a pretexto de ordenação da rotina cotidiana, não permitem ou reduzem ao mínimo o contato da pessoa idosa com amigos, vizinhos e parentes. Esse tipo de comportamento é de quem pretende exercer controle ou praticar abusos;

isolamento social: – é a redução da quantidade objetiva das interações sociais da pessoa idosa. Limitações físicas, perdas pessoais, mudanças na rotina podem levar ao afastamento de familiares, de amigos e vizinhos, a uma desconexão com a comunidade.

A pessoa idosa prefere ficar em casa e pouco se comunica com familiares e amigos, seja presencialmente ou por mensagens e telefone; não tem mais interesse em atividades que anteriormente lhe causavam prazer e recusa participação em festas, reuniões ou eventos; demonstra apatia e desânimo. Estes sinais nem sempre são notados pelas pessoas de seu convívio.

As relações sociais são fundamentais na manutenção da saúde mental e a falta de interação pode atingir negativamente a saúde como um todo, fazendo surgir ou agravando problemas na saúde como:

– alterações no sono e no apetite;

– controle inadequado de doenças crônicas;

– aumento do risco de demências, ansiedade e depressão;

– declínio da memória e comprometimento cognitivo;

– tristeza persistente e piora da qualidade de vida;

– maior risco de mortalidade.

O isolamento social pode ser voluntário, quando é escolhido pela própria pessoa, segundo sua motivação, estilo de vida, condições relacionadas à saúde física, mental e emocional; ou involuntário, quando é imposto por fatores externos ou por motivos de saúde.

Isolamento social é diferente de solidão mas são experiências que se confundem, porque uma pessoa pode estar só (isolamento) e sentir-se ou não solitária; outra, sentir-se sozinha (solidão) mesmo não estando isolada das pessoas.

A solidão é uma experiência negativa ligada à sentimentos de tristeza, relaciona-se com fatores de personalidade e autoestima, leva ao afastamento e à perda de vínculos afetivos representativos.

No entanto, estar sozinho também pode ser uma escolha consciente. A palavra “solidão” tem sua origem no latim “solitudinis”, assim como a palavra “solitude”, ambas com o mesmo significado, porém percebidas de maneira oposta e diferenciadas ao longo do tempo. A solitude é utilizada para dar uma conotação positiva ao fato de estar sozinho voluntariamente, em paz com a própria companhia, com momentos de autoconexão que favorecem a introspecção e fortalecem o autoconhecimento de forma saudável, sem sofrimento emocional.

Estar sozinho nem sempre significa estar isolado ou sentir solidão.

Fonte:

– MORAGAS, R. (2004) Gerontologia social: envelhecimento e qualidade de vida/Ricardo Moragas Moragas; prólogo de Juan J. Linz; (trad. Nara C. Rodrigues); 2ª ed.- São Paulo: Paulinas.

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