Ôôô, boi *

Maria Auxiliadora Roggério

Ser líder é diferente de ser um chefe de pessoas (em organizações ou no Estado), pois o simples fato de estar no comando não significa que todos o ouvirão ou vão fazer o que manda. Um líder deve ser capaz de coordenar e direcionar os esforços de seus liderados. Um líder carismático, por exemplo, tem a capacidade de influenciar comportamentos, crenças, valores e atitudes de seus subordinados. Liderar refere-se à influência que um indivíduo tem sobre os outros, baseia-se em vários fatores e surge da interação entre o líder e seus seguidores e, dependendo das características individuais do líder e do subordinado e de condições contextuais, a influência pode ou não ser eficaz.

French e Raven ([1959] apud SPECTOR, P., 2005) descreveram cinco bases de influência e poder interpessoais e suas utilizações; essas influências ocorrem em qualquer ambiente. São elas:

  • poder da experiência: o subordinado acredita que o chefe tem conhecimento e experiência e suas ordens devem ser seguidas, portanto;
  • poder de referência: um indivíduo pode ser influenciado por outro com o qual se identifique e admire ou goste;
  • poder de legitimidade: o indivíduo acredita que o chefe, por ser o chefe, tem autoridade e legitimidade para comandar;
  • poder de recompensa: a pessoa obedece porque será recompensada; corre-se o risco de a pessoa passar a fazer sua parte somente quando puder ser recompensada;
  • poder de coerção: punição aos (in)subordinados. Indivíduos punidos podem irritar-se e reagir, direta ou indiretamente.

Em 1989, Yukl (apud SPECTOR, P., 2005) acrescentou à essas bases, três táticas de influência política, através das quais o poder político é obtido e mantido:

  • controlar e influenciar decisões importantes como distribuição de recursos, verbas parlamentares e participação em diversas comissões;
  • formar coalizões: oferecer apoio em certas ocasiões em troca de apoio em situações que os favoreçam (ou, popularmente, “toma lá, dá cá”; “é dando que se recebe”);
  • co-opção: permitir que a oposição participe de decisões apenas para tentar enfraquecê-la, pois, ao participar torna-se mais difícil se opor. Como exemplo, nomeações de secretários, assessores especiais, ministros, etc., com a clara finalidade de manter “o inimigo” subjugado e por perto.

Cada líder tem seu estilo de liderança; seu comportamento em relação aos seus liderados pode, por exemplo, permitir que estes se manifestem sobre decisões diversas (estilo participativo) ou apenas comunicar suas decisões aos mesmos (estilo autocrático). Líderes que demonstram preocupação com a felicidade e o bem-estar de seus liderados, dizemos que eles têm consideração.

Mestre Mandou

Quem não conhece essa brincadeira? Trata-se de um jogo infantil para três ou mais jogadores no qual um é o “Mestre” que determina ações que os demais devem executar somente ao comando da frase “Mestre mandou”. Os objetivos são estimular a capacidade de percepção de comandos verdadeiros e falsos, além de coordenação motora, atenção e noção corporal. O Mestre tenta eliminar os demais jogadores o mais rápido possível. O vencedor é o jogador que seguiu todos os comandos instruídos com sucesso.

No Brasil, final de 2020, com a pandemia e mais de 14 milhões de desempregados a população sente-se aturdida e desamparada, porque os líderes (ou os chefes?) aparentemente, tentam a recuperação da Economia, fechando os olhos para o aumento de casos e de mortes pela Covid-19, aguardando a tal “imunidade de rebanho”.

As medidas adotadas por alguns líderes levam a um aparente conforto, porque passam a impressão de que algo está sendo feito para a população e que isso deve ser o correto a se fazer, pois há uma liderança no processo que, supostamente, detém conhecimento e experiência para lidar com essas questões. Ao passo que outros líderes, com pensamentos e atitudes diferentes, levam a um sufocante desamparo. Isolamento social: sim ou não? Autorizar alocação de recursos para a produção de vacinas: sim ou não? Auxílio emergencial à população mais desfavorecida: sim ou não? Etc.. A identificação com este ou com aquele líder mantém o povo resignado na medida do possível, pois o desentendimento quanto às orientações de comportamento, a própria percepção de parte das pessoas diante da incongruência de algumas medidas, uma observação dos fatos para além dos gráficos e estatísticas diariamente divulgados e em face de suas necessidades cotidianas e da ansiedade e incerteza quanto ao futuro imediato, faz com que as pessoas comecem a agir individualmente, transmitindo uma impressão de que não se preocupam com o próximo nem consigo mesmas.

Parece que os líderes se esqueceram de que, para a Economia funcionar, crescer, é preciso de trabalhadores/consumidores. Vivos. Após a eliminação dos jogadores, quem será o vencedor?

Em “A psicologia de grupo e a análise do ego” [1921], Freud enfatiza a importância do líder na massa e compara o que acontece com uma multidão e seu líder ao mesmo estado de fascinação que ocorre entre hipnotizado/hipnotizador ou entre apaixonados, num relacionamento. Em comum nestas situações é a presença de um ideal do ego colocado em outra pessoa, como tentativa de preencher os desejos e necessidades mais primitivas. O indivíduo fica submetido às aspirações dos outros. Sente-se um “ninguém” que, no entanto, passa a ser “tudo” se lhe for permitido participar do “tudo” que é a outra pessoa.

Ao estudar os tipos de liderança a partir das massas artificiais constituídas pela Igreja e pelo Exército, Freud lança as bases das identificações introjetivas e projetivas. Assim, na Igreja o ideal do ego representado pela figura de Deus está introjetado em cada um dos fiéis. No Exército o ideal do ego é projetado no comandante. Se o líder desaparecer, a massa pode ficar desagregada, com sentimentos de abandono, de solidão e enfraquecimento dos vínculos.

Cada pessoa faz parte de vários grupos; estabelece laços de identificação os mais variados e, tomando os diversos modelos como base, constrói seu ideal do ego. Fanatismo, patriotismo exagerado, êxtase religioso e sentimentos parecidos surgem pela participação do ego nas expectativas muito altas e inatingíveis. Esses estados exagerados podem levar à submissão extrema e a um esvaziamento do si mesmo.

Em “A pulsão gregária” [1921], Freud diz que o homem não é um animal de rebanho, mas “um animal de horda, uma criatura individual numa horda conduzida por um chefe”.

"Moving 400 head of cattle" por CharlesFred
“Moving 400 head of cattle” por CharlesFred

Contudo, surge a imagem da vida de rebanho: um boiadeiro levando a boiada pela estrada vigiando para que nem um dos bois se desgarre, levando-os ao pasto, encerrando-os no curral e conduzindo-os ao abate.

(*) Admirável Gado Novo, canção de Zé Ramalho:

Ôôô, boi
Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer
(…)
O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela
Esperam novas possibilidades
De verem esse mundo se acabar
A arca de Noé, o dirigível,
Não voam, nem se pode flutuar
Ê, ôô, vida de gado
Povo marcado, ê, povo feliz.
(…)

Referências

Freud, S. [1921] “Dois grupos artificiais: A Igreja e o Exército”, parte V e “A pulsão gregária”, parte IX, In: A psicologia de grupo e a análise do ego. In: E.S.B.O.P.C.S.F. Rio de Janeiro: Imago, 1976, vol. XVIII.

Spector, Paul E. – Psicologia nas organizações / Paul E. Spector ; tradutor Solange Aparecida Visconte ; revisor técnico Maria José Tonelli. – São Paulo : Saraiva, 2005. (pp. 331-333).

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