Facebook em pele de cordeiro

A recente campanha do “#deletaFacebook”, que ganhou força após Mark Zuckerberg (CEO da empresa) ter prestado depoimento no Congresso dos EUA, levanta um momento de reflexão sobre o poder que a internet tem em nossas vidas. E não estou falando de facilidades tecnológicas do dia a dia nem das tarefas interrompidas porque “o sistema caiu”. Um grande número de pessoas sendo manipulado em um mundo onde a maioria oficialmente decide os rumos da sociedade tem influência direta na vida de todos nós.

“Você foi completamente perfilado e politicamente manipulado”. “Engraçado, eu não lembro de ter atualizado meu status”

As redes de televisão conseguem transmitir uma mesma mensagem a milhões de pessoas. Quando transmitida de uma forma eficaz, pode promover até mesmo uma mudança de opinião. Quando uma empresa tem esse poder, que tipo de informações pode transmitir? A princípio, o que é de seu interesse. E o interesse de uma empresa é o lucro.

Como um canal de TV ganha dinheiro? Principalmente com comerciais. Quanto mais pessoas assistirem a sua programação, mais visada é uma marca ou ideia veiculada. E mais dinheiro a emissora de TV pode exigir do interessado em se expor. Então ela deve gastar consideráveis quantias de dinheiro para produzir conteúdo para atrair a visualização das pessoas (a conhecida “audiência”).

E o Facebook, também ganha dinheiro com propagandas? Sim, afinal ele é gratuito. Mas o Facebook produz conteúdo? Não, são as pessoas que participam da rede que produzem – mesmo que seja replicar um meme de gatinho. E quanto elas ganham por isso? Ganham o prazer de interagir com outras pessoas e receberem aceitação, já que somos seres sociáveis e precisamos de outros seres humanos.

Quanto mais tempo uma pessoa passa na plataforma, mais anúncios pode ver, e com isso o Facebook ganha ainda mais dinheiro com publicidade.

Na televisão, um anúncio pode ser visto por milhões de pessoas ao mesmo tempo, por isso custa bem caro. Como fazer um anúncio na internet valer mais dinheiro? Apostando no diferencial que pode-se obter na internet: a personalização do anúncio.

O público alvo de um anúncio televisivo deve estar em linha com as pessoas que assistem um determinado programa. Mas um anúncio de internet pode ser direcionado especificamente para uma única pessoa. Por exemplo, o Facebook, o Google ou qualquer outra empresa que veicule anúncios na internet elabora programas que podem verificar o histórico de seu navegador e sugerir compras. Você já deve ter passado pela situação de procurar algum produto para comprar e depois começar a aparecer anúncios nas páginas que você visita com o produto que você pesquisou.

Mas será que não existe uma forma ainda mais pessoal para direcionar esses anúncios? Se a pessoa respondesse um grande questionário com muitas perguntas sobre si mesmo, o programa dessa empresa que cuida dos anúncios poderia ser bem direta no que a pessoa deseja. Mas como convencê-la a preencher esse questionário?

Ao criar uma rede social, as pessoas voluntariamente postam conteúdos para as outras pessoas interagirem. As outras voluntariamente dizem se gostam ou não (as chamadas “curtidas”). Analisando essas curtidas de uma pessoa, um algoritmo consegue entender os gostos dela e direcionar os anúncios. Quanto mais curtidas e mais conteúdos publicados, mais questões respondidas daquele questionário gigante e mais se conhece dessa pessoa.

Mas e se o anunciante não quiser vender um produto, mas uma ideia? Por exemplo, pode ser o seu apoio e o seu voto em uma eleição. Uma outra empresa, contratada pelo candidato, pode investigar os gostos, as opiniões, os medos e tudo mais o que for possível descobrir sobre a pessoa e direcionar um tipo de notícia para essa pessoa ver e ser influenciada.

Na verdade, muitas vezes nem precisa ser uma notícia verdadeira (a chamada “fake news”). A maioria das pessoas vê a foto e a manchete e não clica para entender do que se trata nem de verificar a autenticidade.

Geralmente, uma notícia ganha mais viralidade quando trabalha com as emoções das pessoas. E se o algoritmo acertou no modo que deve mexer com as emoções dessa pessoa, a notícia (mesmo sendo falsa) tem grande possibilidade de ser replicada e atingir mais pessoas. Promover raiva é o modo que mais promove engajamento, seguido pelo cômico.

O algoritmo do Facebook que seleciona o que vai aparecer na “timeline” do usuário busca entender os gostos do usuário para mostrar o que ele vai gostar de ver – sejam anúncios ou ideias. Isso gera um problema: cada vez mais vão aparecer mais publicações (de páginas que curte ou de amigos) que exprimem essa opinião, sem aparecer as que possam apresentar o contrário.

O usuário acredita que todas as outras pessoas pensam como ele, mas o algoritmo selecionou somente as publicações que exprimem as ideias que se alinham com o usuário. Além disso, a pessoa somente reforça a opinião que já tinha. Isso pode ser reconfortante, mas empobrece intelectualmente um debate interno sobre o que a pessoa pensa a respeito de um determinado assunto, sem haver um contraponto.

Com o passar do tempo, esse efeito gera uma polarização cada vez maior das pessoas em torno de ideias opostas. Se as opiniões surgiram com base na emoção e sem um estudo lógico do tema, o embate de ideias acaba virando uma discussão que mais parece uma conversa de bar sobre futebol: cheio de achismos, ideias fechadas e pré-concebidas.

Em uma situação assim, dificilmente uma consegue convencer a outra de sua ideia. As pessoas acreditam no que elas querem. E elas podem querer acreditar em algo que passou por séculos de estudos que seguiram uma rigorosa metodologia científica ou alguma outra ideia que, em seu interior, dialoga melhor com seus medos e gostos sobre o mundo.

Tudo isso pode parecer teoria da conspiração, mas isso já foi aplicado nas eleições presidenciais dos EUA. A Cambridge Analytica, uma empresa privada de análise de dados que trabalhou com a equipe eleitoral do presidente Donald Trump, colheu informações pessoais de mais de 50 milhões de usuários do Facebook sem o conhecimento deles. A Cambridge Analytica pertence ao bilionário do fundo de investimento Robert Mercer, e anteriormente era administrada pelo ex-conselheiro do Trump, Steve Bannon.

Outros exemplos podem ser vistos na matéria “Inteligência Artificial entra no jogo da política” e no podcast Segurança Legal.

O CEO do Facebook foi muito questionado durante seu depoimento ao congresso norte-americano sobre a política de privacidade e uso de dados de seus usuários. Um dos senadores perguntou a Zuckerberg: “O senhor se sentiria confortável em dizer o hotel que ficou hospedado na noite anterior?”. Sabendo onde o senador chegaria, Zuckerberg responde com um riso desconfortável: “acredito que não, senhor”.

O Facebook mais parece uma rede de vigilância e de anúncios do que simplesmente uma rede de interação social. Ele explora a vulnerabilidade psicológica para segurar as pessoas na plataforma.

Para muitas pessoas, Facebook virou sinônimo de Internet, permanecendo boa parte de seu tempo de internet na plataforma. Os “feeds” de notícias dos usuários ficam atulhados de conteúdo superficial, irrelevante e/ou sensacionalista. Infelizmente, seu algoritmo acaba influenciando na linha editorial de muitos sites de conteúdo. Como consequência, muitos sites de conteúdo estão virando um mini Facebook: sensacionalistas, superficiais e irrelevantes.

Uma discussão interessante sobre o retorno em visitas que os desenvolvedores de conteúdo tem ao divulgar links em suas páginas do Facebook está na matéria “Por que saímos do Facebook“.

Além disso, esse grande volume de informação acaba por promover um “sentimento de obrigação” a ter uma opinião de tudo – e assim aumentar o engajamento e tempo de uso da plataforma. Como foi dito no site Meteorópole, “a gente acaba perdendo nossa própria identidade e gastando energia desnecessariamente”.