Desapego na velhice

Maria Auxiliadora Roggério

Em nossa trajetória de vida adquirimos e acumulamos um considerável número de objetos, bens materiais e memórias que nos acompanham nas diferentes fases do ciclo vital. Cada objeto registra nossas vivências, nossa bagagem física e emocional, trazendo significados e lembranças que vão além de sua utilidade prática. Mobiliário, heranças familiares, itens de uso rotineiro ou pessoal, louças, joias etc. podem carregar um valor simbólico que não se compara ao valor material. Pensamos na necessidade de cada pertence e muitas vezes nos apegamos emocionalmente, o que pode dificultar o desprendimento.

O conjunto desses pertences, ou esse “comboio de pertences” (convoy material), cresce ou diminui com novas aquisições, novos papéis sociais, quando mudamos de endereço ou quando entendemos que é o momento de desapegar.

Geralmente, quando o espaço físico não comporta mais tantos objetos, passando a sensação de uma casa “entulhada”, as pessoas costumam doar alguns pertences; um descarte de algo inservível, que ainda poderá ser utilizado por outros.

Quando chega o envelhecimento, porém, o significado da doação de seus objetos e bens pode ter uma conotação diferente. Não se trata, apenas, de desfazer-se de pertences para facilitar a rotina, ou a pretensão de evitar possíveis dissabores e trabalho extra de seus herdeiros na divisão de bens após a morte, mas de partilhar a própria história.

Não é um mero descarte, um esvaziamento de gavetas ou mais espaço liberado nos cômodos da residência, e, sim, garantir que partes significativas de uma vida possam perdurar além de si mesmo.

Nessa fase da vida, torna-se mais importante transmitir como foi sua trajetória do que preservar os bens materiais que conseguiu acumular. Ao escolher o destinatário de cada item em especial, a doação se torna um ato carregado de valor afetivo, do desejo que costumes familiares possam ter continuidade, que momentos importantes ligados ao objeto possam ser conhecidos e relembrados.

Essa fase reflete uma transformação emocional profunda.

Nos últimos anos de vida, as pessoas refletem sobre suas experiências passadas. Os relacionamentos, as escolhas e o significado atribuído às experiências influenciam essa etapa do desenvolvimento. Ao fazerem uma revisão reflexiva sobre suas vidas, surgem questionamentos sobre saber se a vida foi bem vivida ou desperdiçada e como dar novo sentido à sua existência.

Nesse movimento, as pessoas podem sentir-se realizadas, em paz, ou decepcionadas, arrependidas, desesperançosas.

A teoria do desenvolvimento psicossocial de Erik Erikson considera que o desenvolvimento se dá em oito estágios ao longo da vida. Em cada estágio é preciso resolver um conflito ou uma crise para alcançar o estágio seguinte contribuindo para o bem-estar psicológico geral.

O sétimo (generatividade vs estagnação) e o oitavo (integridade vs desespero) estágios ocorrem da terceira idade até a morte. No estágio final, da integridade vs desespero, saber se teve ou não uma vida satisfatória e significativa é o principal conflito a ser enfrentado.

Integridade diz respeito à satisfação com a própria vida e aceitação da forma como ela foi vivida. À medida em que as pessoas envelhecem, aumenta a consciência de que seu tempo está acabando, o que as levam a investir em metas emocionalmente mais significativas, em geral, orientadas para esse momento da vida. Surge sentimento de plenitude que permite lidar com questões pendentes e com sua mortalidade.

Ao analisar sua jornada de vida e se fixar em fatos negativos, em coisas que deixou de fazer ou no que poderia ter feito de maneira diferente, no que perdeu, pode sentir vergonha e decepção; pode sentir-se um indivíduo improdutivo, lamentar a vida desperdiçada, experimentar amargura, tristeza, raiva, ressentimentos, fazendo surgir a desesperança e a depressão, sentimentos que caracterizam o desespero; em vez de paz, contentamento e sabedoria, típicos da integridade.

Sob este olhar, a pessoa idosa que se desfaz de seus pertences doando-os intencionalmente a pessoas específicas com as quais mantém vínculos afetivos, estaria abraçando sua história de vida e demonstrando maturidade emocional, integridade, um desejo de transcender a própria mortalidade.

No entanto, a distribuição aleatória, um simples desfazer-se por senso de inutilidade, uma despreocupação com o tempo que ainda resta de uma vida que supõe ter sido insignificante, remete ao desespero e deve ser objeto de atenção das pessoas de seu convívio, no sentido de auxiliar a pessoa idosa a encontrar seu valor e o sentido de sua vida, para que possa reconciliar-se com os outros e consigo mesma.

Na velhice, umas coisas se perdem, ganham-se outras. Fazer um balanço da vida é importante para atingir a serenidade, a integridade. Quando as pessoas idosas oferecem um pouco de si – bens materiais, objetos, memórias, fotos, seu legado -, é um desejo que sua vida não se esgote totalmente com a morte, pois ainda poderá viver naquilo que construiu e em fragmentos de sua vida que subsistirão depois da partida.

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