Radiotelescópio BINGO

No coração do Sertão da Paraíba, um ambicioso projeto científico busca escutar os sussurros do universo para desvendar os mistérios da energia escura — mas o radiotelescópio BINGO, fruto de uma parceria entre Brasil e China, tornou-se recentemente alvo de um relatório do Congresso dos Estados Unidos que o acusa, sem provas, de ser uma base militar chinesa disfarçada. Enquanto a comunidade científica brasileira rebate as alegações de espionagem e reforça o caráter exclusivamente acadêmico da empreitada, a polêmica expõe como a crescente tensão geopolítica entre as superpotências pode ameaçar a cooperação internacional pacífica e colocar em xeque um dos mais importantes projetos de radioastronomia já realizados em solo brasileiro.

O que é o Radiotelescópio BINGO?

Imagine que o universo é um palco gigantesco, mas 95% do que acontece nele é invisível aos nossos olhos. É aí que entra o radiotelescópio BINGO, um projeto científico internacional instalado na Serra do Urubu, em Aguiar/PB. Seu objetivo é ambicioso: mapear os dois maiores mistérios da cosmologia moderna – a energia escura e a matéria escura.

Mas como ele faz isso? De um ponto de vista físico, o BINGO não é um telescópio comum que capta luz visível, como os que vemos em observatórios. Ele é um radiotelescópio, ou seja, funciona como uma enorme “antena” que escuta as ondas de rádio que vêm do espaço.

Antenas do radiotelescópio BINGO. Fonte: Wikipedia
Antenas do radiotelescópio BINGO. Fonte: Wikipedia

O BINGO é projetado para detectar um sinal muito específico: a radiação emitida pelo hidrogênio neutro, o elemento mais abundante no universo. Este hidrogênio, quando em seu estado mais calmo, emite uma onda de rádio com um comprimento de onda muito específico (cerca de 21 centímetros). Ao captar essas ondas, o telescópio consegue mapear onde esse gás está distribuído no cosmos.

O grande truque do BINGO está em usar essa informação para estudar as chamadas Oscilações Acústicas Bariônicas (BAOs, na sigla em inglês). Pense nas BAOs como “fósseis” sonoros do universo primordial. Pouco após o Big Bang, o universo era uma sopa quente e densa de partículas. Ondas de pressão (como ondas sonoras) se propagavam por esse meio. Quando o universo esfriou, essas ondas “congelaram”, deixando uma marca na distribuição da matéria: uma distância padrão entre as galáxias, como se fossem as marcas de um acordeão que se expandiu.

Ao medir essa distância padrão em diferentes épocas da história do universo, os cientistas conseguem entender como a expansão cósmica tem se comportado ao longo do tempo. É aí que a energia escura entra em cena. Ela é a força misteriosa que está acelerando essa expansão. O BINGO vai medir as BAOs com uma precisão inédita, ajudando a desvendar as propriedades dessa energia escura que compõe cerca de 70% do universo.

O BINGO é um acrônimo de “Baryon Accoustic Oscillation In Neutral Gas Observations”, único radiotelescópio projetado para fazer as primeiras detecções das Oscilações Acústicas de Bárions por meio de radio frequência. O Telescópio BINGO fará as suas detecções na banda de rádio na faixa dos 960 a 1260 MHZ. É um grande “detector de pegadas” cósmicas. Ele escuta o eco do hidrogênio primordial para reconstruir a história da expansão do universo e, com isso, entender a natureza da energia escura, uma das forças mais fundamentais da física. Ele é um esforço colaborativo que envolve instituições de pesquisa do Brasil, China, África do Sul, Reino Unido, Suíça e França, com funcionamento pleno previsto para 2027.

Relatório dos EUA levanta suspeita infundada

Recentemente, o projeto BINGO ganhou as manchetes não por suas descobertas científicas, mas por uma acusação inusitada vinda de um comitê do Congresso dos Estados Unidos. Um relatório intitulado “Pulling Latin America Into China’s Orbit” (“Atraindo a América Latina para a Órbita da China”) citou o Laboratório Conjunto China-Brasil de Radioastronomia, na Paraíba, como uma suposta ferramenta de espionagem chinesa, sugerindo que a estrutura seria, na verdade, uma base militar disfarçada.

“Dado o crescimento da infraestrutura espacial da República Popular da China (RPC) na América Latina, o Comitê Seleto buscou compreender melhor as implicações militares do acesso e do controle chinês sobre essas instalações. Uma análise dos documentos de planejamento de Pequim e um levantamento em fontes abertas sobre sua infraestrutura espacial na América Latina revelaram que a China está utilizando uma cooperação espacial aparentemente civil e comercial para avançar a Consciência do Domínio Espacial (SDA, Space Domain Awareness) global do Exército de Libertação Popular (ELP). Essas instalações não são simplesmente projetos científicos isolados. Em vez disso, esses locais formam uma rede integrada de uso dual, fortalecendo a capacidade da China de monitorar, controlar e potencialmente interromper operações espaciais e militares de adversários.

Este relatório constitui a segunda etapa das investigações do Comitê Seleto sobre as atividades chinesas na América Latina. Após a análise de relatórios em língua chinesa, artigos de notícias, documentos governamentais e pesquisas acadêmicas, o Comitê Seleto concluiu que a RPC se aproveita de países latino-americanos para avançar a SDA do ELP, reforçando ainda mais as capacidades de coleta de inteligência e de contraespaço do ELP. Nossa investigação sobre instalações espaciais na América Latina apresenta as seguintes conclusões”

Trecho inicial traduzido do relatório, disponível no link

O documento aponta que o instituto chinês parceiro no projeto estaria vinculado à base industrial de defesa da China, levantando suspeitas de que o radiotelescópio poderia ter “uso dual”, ou seja, ser utilizado para inteligência militar, como rastreamento de satélites e alvos não cooperativos. Sobre isso, o relatório diz:

“A missão científica do Telescópio BINGO é caracterizada pela detecção de gás neutro, como o hidrogênio atômico, em um comprimento de onda localizado em um desvio para o vermelho entre 0,13 e 0,48. Para alcançar esse objetivo, o telescópio deve filtrar agressivamente a Interferência de Radiofrequência (RFI) artificial. O analisador FFT do sistema atua como um espectrômetro digital que digitaliza e categoriza esses sinais. Embora os astrônomos considerem esses sinais como ‘lixo’ a ser subtraído para observar o universo primordial, os algoritmos de alto desempenho usados ​​no sistema podem ser capazes de interceptar, classificar e isolar pulsos de radar militar, telemetria de satélite e atividades de guerra eletrônica com extrema sensibilidade.”

A reação da comunidade científica foi imediata. O coordenador do projeto, o físico Élcio Abdalla, da Universidade de São Paulo (USP), negou veementemente as alegações em entrevista ao G1. Abdalla enfatizou que a participação chinesa é exclusivamente científica e tecnológica, fruto de uma parceria de mais de 30 anos entre pesquisadores brasileiros e chineses, focada em astrofísica e cosmologia. “A aplicação é puramente científica”, afirmou Abdalla. “Os meus colegas chineses não fazem nenhuma afirmação do ponto de vista militar. Não tem nada a ver com aplicação militar”.

O coordenador explicou que o projeto é uma colaboração acadêmica legítima, que envolve universidades como a Federal de Campina Grande (UFCG) e a Federal da Paraíba (UFPB), e conta com investimento direto do Governo da Paraíba. Os equipamentos enviados da China, como os espelhos do telescópio, são componentes civis para pesquisa astronômica.

Curiosamente, Abdalla destacou um ponto de ironia: a tecnologia de antenas utilizada no BINGO (chamada de “phased array”) tem, sim, potencial para aplicações práticas que o Brasil poderia usar para sua própria segurança e soberania, como no mapeamento de florestas e no monitoramento da Amazônia. “Para que nós queremos radares? Bom, para cuidar dos céus da Amazônia. Isso é um projeto brasileiro para auxiliar a fazer a guarda de locais brasileiros”, explicou, deixando claro que qualquer uso secundário da tecnologia seria uma decisão soberana do Brasil, não uma ferramenta de espionagem estrangeira, ao usar equipamentos em aviões.

Outra suspeita infundada – Estação Terrestre de Tucano

O mesmo relatório do Congresso dos Estados Unidos também aponta a Estação Terrestre de Tucano, localizada em Salvador (BA), como um suposto ponto de espionagem chinesa no Brasil. Segundo o documento, a estação é fruto de uma parceria entre a startup brasileira Alya Nanosatellites e a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology, que teria vínculos com programas espaciais e de reconhecimento militar da China. O relatório destaca que o acordo envolve o armazenamento e a troca de dados operacionais entre as redes de antenas dos dois países, o que, na prática, poderia ampliar a capacidade de rastreamento de satélites e de consciência situacional espacial. Além disso, o documento menciona que a Alya firmou um memorando de entendimento com o Departamento de Ciência e Tecnologia da Força Aérea Brasileira, incluindo o treinamento de militares e o uso de antenas da Força Aérea como suporte para a estação — uma integração que, na visão do comitê americano, daria à China uma via para observar e influenciar a doutrina espacial militar brasileira.

A empresa envolvida, a Alya Space, negou as alegações, afirmando que o acordo com a chinesa Beijing Tianlian nunca saiu do papel e que a estação sequer foi construída. A Força Aérea Brasileira confirmou que houve um memorando entre 2020 e 2022, mas que ele não foi renovado. Enquanto isso, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados aprovou um pedido para que o Ministério da Defesa preste esclarecimentos sobre o caso.

Não era esse bingo rsrs
Não era esse bingo rsrs

Fontes

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.